Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 013 | Ano 2 |Jul 1997
EDUCAÇÃO
EDUCAÇÃO

Corporações manipulam os jovens

Renato Hoffmann

Nos Estados Unidos, a boneca Barbie aparece nos livros escolares como personagem da História do país, enquanto as cartilhas do palhaço Ronald Mc Donald ensinam as crianças a pedirem hambúrgueres em diversos idiomas. Nos cinemas, uma safra de filmes supostamente neutros apresentam um forte conteúdo racista e misógino, e reforçam o estereótipo do ariano superior. “As grandes empresas são os educadores mais importantes, não só nos Estados Unidos, mas no mundo inteiro”, alerta Shirley Steinberg, professora de Fundamentos da Educação da Universidade de Adelphi (Nova Iorque). Ela é autora, junto com Joe Kincheloe, professor de Fundamentos do Currículo da Universidade Park (Pensilvânia), do livro Kinderculture: The Corporate Construcion of Childhood (Kindercultura: a Construção da Infância pelas Grandes Corporações), ainda não lançado no Brasil. Kincheloe acrescenta que o currículo empresarial está assentado sobre a tecnologia da informação. Com isso, a indústria cultural norte-americana atinje todo o planeta de forma instantânea.

No início de julho, eles fizeram palestras no IV Seminário Internacional de Reestruturação Curricular promovido pela Smed. Steinberg advertiu para a ação da mídia no aprendizado: “nesses espaços temos uma pedagogia cultural onde o que é bom para as crianças não é definido pelos pais, mas pelas empresas”. As corporações internacionais estimam que a faixa dos 5 aos 13 anos representa um mercado consumidor de US$ 85 bilhões anuais. “Eles que exigem dos pais tênis de marcas famosas, que custam US$ 150,00 o par, e viagens de férias para a Disneylandia”, aponta Steinberg. Os pesquisadores garantem que 85% das crianças norte-americanas de até três anos de idade conseguem reconhecer os “arcos dourados” da rede MC’Donalds, e que a maioria dos alunos pequenos sabe cantar os jingles dos comerciais de cerveja.

A publicidade desses produtos sempre ressalta a palavra party (festa), associando diversão e consumo. Isso forma gerações interessadas no prazer instantâneo”, afirma Kincheloe. “Para os adolescentes norte-americanos, a noite de sexta-feira é a coisa mais importante de suas vidas, porque é a chance de festejar e beber cerveja”, relata Steinberg.

Outra característica da kindercultura é a banalização da violência como forma de resolver problemas. “Quando chega aos 12 anos, uma criança já assistiu a mais de 100 mil assassinatos na televisão”, alerta Kincheloe. “O mais grave é que na mídia esta violência é estetizada, glamourizada e termina virando um belo espetáculo.” Algumas das mensagens transmitidas pelos personagens infanto-juvenis reproduzem outras formas de violência ao reforçar estereótipos racistas e colocar as mulheres na condição de objeto sexual. Durante a guerra do Golfo, uma Barbie loira e de olhos azuis apareceu nas lojas vestida com roupas militares. Na versão nórdica, a boneca tem a aparência de uma virgem. Já a Barbie latina, batizada de Tereza, tem o cabelo preto, o corpo torneado e usa pouca roupa. “Esses estereótipos reforçam a idéia de que as mulheres de pele escura são objetos sexuais”, analisa Steinberg.

Em O Corcunda de Notre Dame, sucesso de bilheteria no mundo inteiro, o personagem branco é o salvador, o representante do bem. O mesmo acontece em Pocahontas, a lenda em que um homem loiro tenta conquistar uma mulher exótica de pele morena, e em “Hércules”, onde o herói de físico atlético subjuga os adversários. Os três filmes foram produzidos pelos estúdios Disney, o maior complexo de entretenimento do mundo.

Walt Disney, o criador do Pato Donald e do camundongo Mickey, foi colaborador do Partido Republicano durante o período conhecido como “caça às bruxas”, quando o Congresso dos Estados Unidos perseguiu artistas e intelectuais sob a acusação de terem simpatia pelas idéias comunistas. Na época, despontava um jovem político que também era ator e mais tarde se tornou presidente do país: Ronald Reagan. “A reinserção da política da supremacia racial branca coincide com a eleição de Reagan”, situa Steinberg.

Os especialistas em Educação também analisaram filmes que mostram a dificuldade dos pais em lidar com crianças influenciadas pela overdose de conhecimento. “Na superficialidade, esses filmes defendem os valores tradicionais da família”, diz Kincheloe. “Mas na substância estimulam o conflito entre gerações.” O bombardeio de informações provoca o amadurecimento precoce das crianças e um certo ressentimento nos adultos. “Nossos filhos são diferentes, há uma crise da infância, eles crescem rápido demais e recebem uma carga de informações que antes eram privilégio de adultos”, diz a educadora.

Em “Esqueceram de mim”, o protagonista é um garoto esperto, acostumado com a ausência paterna. “Neste final de século, o carinho é quase virtual, as crianças não são amadas fisicamente”, afirma Steinberg. Em algumas cenas, o menino é insultado pelos pais e irmãos mais velhos. A pesquisadora relata que em mais de 40 filmes analisados, os adultos odeiam, maltratam e, em alguns casos, matam as crianças.

Os pesquisadores admitem que a construção da infância pelas corporações é um tema ainda pouco discutido. “Com o advento da hiperrealidade, temos recorrido a soluções antigas para problemas novos”, reconhecem. Aos professores, recomendam, entre outras coisas, que a kindercultura seja levada a sério e discutida nas escolas. “O currículo proposto pelas empresas precisa ser encarado como uma nova pedagogia, que molda a identidade dos jovens como qualquer outra”, adverte Kincheloe. “O entretenimento não é inocente e tem conseqüências”, previne Steinberg.

Aos pais, eles sugerem que adotem uma atitude crítica em relação ao conteúdo transmitido pela mídia. “Precisamos cobrar mais responsabilidade das empresas”, pregam. “Devemos exercer a cidadania contra as pressões exercidas pela mídia.” Também receitam uma atenção especial às crianças. “Conversem, inventem novas histórias e personagens”, aconselham. “As crianças são espertas, só precisam que se discuta com elas para que possam se dar conta da manipulação.”

Papel dos movimentos sociais

A quarta edição do Seminário Internacional de Reestruturação Curricular apresentou algumas novidades. Pela primeira vez, o livro contendo todos os textos dos painelistas esteve à disposição do público durante o evento. Os deficientes auditivos e visuais não foram esquecidos. Durante a primeira rodada, as palestras tiveram tradução simultânea para a linguagem de sinais e os artigos dos conferencistas foram editados em Braile.

Entre 7 e 12 de julho, no Salão de Atos da UFRGS, o seminário teve a participação de três mil pessoas. Além de educadores brasileiros, onze convidados de seis países se revezaram na mesa. Em duas manhãs as atividades foram descentralizadas, com a realização de exposições, debates e painéis em nove locais diferentes. Houve ainda o lançamento do livro Identidade Social e Construção do Conhecimento, no Bar Opinião, e uma sessão de autógrafos de Joe Kincheloe para a obra A formação do professor como compromisso político – Mapeando o Pós-moderno, tradução de Nize Pellanda (Ed. Artes Médicas).

Um dos painéis, realizado no teatro do Sesc, desenvolveu o tema Movimentos Sociais e Educação: perspectivas para um novo século. Estiveram na mesa o educador argentino Pablo Gentili, a diretora do Cpers Lúcia Camini, a educadora gaúcha Roseli Caldart e o diretor da Secretaria de Educação do Sinpro/RS Paulo Adílio Prestes Ferreira. A análise feita se baseia na premissa de que sem movimentos sociais as sociedades não funcionam, e que isso não depende só da eficácia, mas também da existência deles e, como comenta Paulo Prestes; “os movimentos são a expressão da sociedade organizada”. Fazendo alusão ao homenageado do evento, Roseli lembra que “Paulo Freire nos deixa pelo menos três heranças: a profunda crença no ser humano e capacidade de educar e libertar; coerência política e uma forte humildade temperada com ousadia”. (RH)

Caminhos da educação a partir da nova LBV

Da redação

Aprofundar a análise das tendências da educação no país é o objetivo do seminário LDB – Caminhos da Educação no Brasil, que acontece nos dias 29 e 30 de agosto, na sala 228 do Prédio 15 da PUC/RS. As inscrições podem ser feitas até o dia 27 de agosto na sede do Sinpro-RS ou na PUCRS, Prédio 1, 3º andar, sala 314. O seminário oferece 280 vagas e a taxa de inscrição é de R$ 10,00 para sócios do sindicato e estudantes e R$ 15,00 para os demais interessados.

Dirigido a professores de primeiro e segundo graus e de ensino superior, especialistas de educação, estudantes de licenciaturas e Pedagogia, o seminário será um espaço para avaliações da implantação da nova LDB, bem como as dificuldades a serem enfrentadas no processo. “Uma análise dessa legislação é fundamental para reverter a crise educacional do país”, destaca Celso Stefanoski, diretor do Sinpro-RS, e um dos organizadores do seminário.

Na abertura do evento, às 19h, do dia 29 (sexta-feira), Carlos Nelson dos Reis (PUC/RS) falará sobre A LDB no cenário Nacional, e Marisa Abreu, diretora geral da Secretaria de Estado da Cultura, abordará A trajetória da LDB. Já no dia 30, o seminário começará às 9h, com o painel Análise dos avanços, retrocessos e possibilidades, apresentado por Pedro Demo, professor da Universidade de Brasília.

A partir das 14h, serão desenvolvidas mesas específicas: Educação Infantil e Ensino Fundamental, pela professora Nalú Faranzena, da Faculdade de Educação da UFRGS, com os debatedores Antonieta Beatriz Mariante, representante do Sinpro-RS no Conselho Estadual de Educação, e Euclides Redin, professor do mestrado em Educação da Unisinos; Ensino Médio – Educação profissional, com os expositores Ivan Martins de Martins, assessor pedagógico de segundo grau da Smed-POA, e Irineu Alfredo Ronconi Júnior, professor da Fundação Liberato e da Unisinos; Ensino Superior, com Efrén Maranhão (ainda a confirmar), presidente da Câmara de Ensino Superior do Conselho Nacional de Educação, com os debatedores Flávia Werle, professora da PUC/RS e Unisinos, e Marcos Júlio Fuhr, diretor do Sinpro-RS e representante do sindicato no Conselho Estadual de Educação.

O seminário é uma promoção do Sinpro/RS e da PUC/RS, com o apoio dos Conselhos Municipal e Estadual de Educação, Smed/POA, AEC, ADPPUCRS, Cpers/Sindicato, Atempa, Adufrgs, Assers e Aoergs.

Reiniciam as noites no museu

O Museu Municipal Joaquim José Felizardo, da prefeitura de Porto Alegre, está reiniciando o projeto Noite no Museu. A instituição oferece às escolas, gratuitamente, um plano de Educação Patrimonial. São desenvolvidas atividades exploratórias e pedagógicas, orientadas por um guia do museu. A visita tem duração de duas horas, sempre nas quintas-feiras, às 19h30min. As escolas interessadas podem obter outras informações e fazer as inscrições pelo telefone (051) 221.6622 ramal 253 ou no próprio local (Rua João Alfredo, 582, bairro Cidade Baixa, Porto Alegre. O projeto de Educação Patrimonial é dirigido especialmente às escolas de primeiro, e segundo grau e supletivas.

Colóquio discute qualificação docente

Da redação

Os professores interessados em conhecer melhor a área de qualificação docente no país têm uma nova oportunidade. Nos dias 12 e 13 de setembro (sexta-feira e sábado), acontecerá o Colóquio Estadual sobre Qualificação Docente. O encontro será no prédio 15 da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), em Porto Alegre. O presidente da Fapergs, órgão oficial de financiamento da pesquisa no estado, Pedro Fonseca, já confirmou sua participação no evento, que contará ainda com representantes de instituições de ensino superior do estado – também a Capes, órgão do governo federal que, junto com o CNPq, financia a pesquisa e a pós-graduação no país, foi convidado a participar.

É o momento para discutirmos o assunto”, assegura Marcos Fuhr, diretor do Sindicato dos Professores Particulares do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS), uma das instituições promotoras do evento. “A nova LDB impõe mudanças no perfil do corpo docente, estabelecendo, por exemplo, prazos para as universidades se adequarem à exigência de ter pelo menos um terço de seu quadro formado por mestres e doutores”, ilustra.

A direção do sindicato reconhece, segundo Fuhr, que a qualificação do corpo docente é uma preocupação, em menor ou maior escala, de muitas instituições de ensino superior do estado. “Mas têm se revelado uma das preocupações centrais da maior parte dos seus professores e mesmo de um grande número da categoria que trabalha no 1º e 2º Graus”, destaca Fuhr. “Queremos ouvir as expectativas dos professores”, observa. “Muitas questões poderão integrar a pauta de reivindicações do próximo dissídio”. O sindicato também está estudando formas de apoio para os professores que querem sua qualificação. “Além da qualificação de seu trabalho, já prevista nos planos de cargos e salários dos docentes de instituições de ensino superior e no próprio dissídio dos professores particulares, existe o interesse econômico por parte dos professores”

Além do Sinpro/RS, as associações de professores da PUC (ADPPUC), da Unisinos (Adunisinos), da Ulbra (Adulbra), da Univates (Adof), da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Ritter dos Reis (ADFAUPA) e da Universidade de Passo Fundo (APUPF) também são promotoras do Colóquio Estadual sobre Qualificação Docente.

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