Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 014 | Ano 2 | Ago 1997
EDITORIAL

Carta ao irmão do Henfil

As personalidades públicas externaram opiniões elogiosas e lamentaram a tua morte. Ainda bem que tu não te surpreenderias. Sabias que o Brasil é o lugar onde o politicamente correto fez escola e logo surgiram doutores nesta especialidade. Não é difícil supor que trocarias todas essas deferências a tua vida e índole pelo apoio consistente às bandeiras que levantastes. Palavras como solidariedade e generosidade sempre pegam bem nos discursos de salão, nas mesas de bar e nas páginas de opinião dos jornais. Entretanto, poucos, ou melhor, os poucos que têm poder, assumiram contigo o compromisso de uma prática solidária e generosa.

A miséria generalizada, os crimes contra a infância, a indigência da saúde pública ofendem as almas sensíveis. Mas enfrentá-los é uma empreitada imensa para a sociedade civil e tão somente um problema político para o Estado. A dimensão humana da dor incomoda os corredores do poder, deve ficar longe dos gabinetes oficiais, a menos que esteja em jogo um resultado eleitoral.

Como escreveu teu amigo Aldir Blanc, nestas horas, todas as palavras traem o morto. Verdade simples, verdade triste quando se vive numa nação onde o cinismo, a indiferença e o esquecimento tornaram-se atributos. Pensando assim, esta avaliação, também inevitável nestas horas, nem deveria ser escrita.

Mas convenhamos, a adesão à Campanha contra a Fome e a Miséria foi um fenômeno tão extraordinário quanto a tua força em resistir ao HIV, num gesto de dignidade ímpar para qualquer cidadão que recebeu um sentença destas. Afinal, não estamos falando de um país onde a morte escandaliza do mais humilde a mais alta autoridade. Ainda não somos um lugar onde ninguém suporta ver criança morrer de fome na rua, ver índio incendiado por brincadeira. Temos certos dissabores, mas até convivemos bem com superlotação de presídio, trabalho escravo, vacina estragada, kits de análises clínicas vencidos, bancos de sangue sem fiscalização eficiente.

Sabias bem que a tua agenda social seria protelada indefinidamente, até porque, somos um país onde as urgências da maioria da população podem esperar até que a coisa se resolva por si mesma, ainda que no final das contas as estatísticas mostrem números escandalosos. Mas estatística é estatística, duro mesmo é a dor no estômago por falta de comida, acordar sem ter um trabalho para trabalhar. Duro mesmo é equilibrar-se na corda bamba de uma vida que nem é, e ainda assim sonhar a esperança, neste país infestado de moléstias crônicas que atacam primeiro nossa consciência, depois nosso corpo. Mas seguiremos pela noite do Brasil, buscando gestos generosos, rebeldes e solidários. Como os do irmão do Henfil.

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Que polícia é essa? – Nossa reportagem de capa tenta deslindar as repercussões sobre a instituição policial depois do movimento grevista que varreu o país, num quadro de violência inédito em nossa história. Eventos envolvendo as polícias civis e militares recolocaram na pauta a discussão do caráter e da função das forças de segurança, tradicionalmente treinadas para reprimir os movimentos sociais. O movimento grevista no setor descortina o grau de desmonte do Estado brasileiro e a crise proporcionada pelo modelo econômico adotado no país. Os agentes de segurança a cada dia adquirem consciência da virtual condição de cidadania. O problema é que agem do seu jeito, atuam com a cultura que lhes foi transmitida ao longo dos anos, particularmente no período da ditadura militar: a cultura da violência. Aliás, este é mais um indicador de que o Estado brasileiro precisa ser reformado. Mas, ao contrário do que propõe a retórica neoliberal, a sociedade reivindica um Estado que valorize o funcionalismo e qualifique o serviço público em benefício do cidadão. Deve ser assim na Educação, na Saúde, na Previdência. Deve ser assim na área da Segurança Pública, com um modelo de polícia que reconheça a condição de trabalhador do agente de segurança, mas que, sobretudo, obedeça ao Estatuto dos Direitos Humanos, do qual o Brasil é signatário. Uma polícia orientada para a defesa e segurança da cidadania, certamente apresentará suas reivindicações com igual consciência cidadã.

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