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Nº 014 | Ano 2 | Ago 1997
OPINIÃO
OPINIÃO

O papel dos pais no aleitamento materno

Anete Regina da Cunha

Quando uma criança é concebida, já há na mãe e no pai uma organização de fantasias ou de expectativas ligadas à concepção e ao desenvolvimento da criança. Isto é verdadeiro tanto para as gestações programadas, onde as expectativas são explicitadas pelos pais, através das preocupações com a gravidez, com a escolha dos nomes, com a preferência de sexo, com as expectativas sobre futuras características físicas, perspectivas de profissão e evolução social, e muitas outras expectativas, quanto para as concepções acidentais.

Se do ponto de vista biológico a gravidez começa com a concepção, do ponto de vista psicológico há uma história do pai e da mãe, dentro da qual já estão reservados padrões de relacionamento a serem estabelecidos com a vida da criança.

No início da vida, a relação entre a mãe e o bebê precisa ser simbiótica. Desta relação tão próxima depende a preservação da vida do bebê, pois a mãe necessita entender seu choro, suas necessidades de conforto, alimentação e prazer. A amamentação tem um papel muito importante nessa relação intensa entre mãe e filho, tanto em seu aspecto biológico quanto em seu aspecto afetivo.

Os primeiros dias e semanas após o nascimento constituem um período fundamental para o estabelecimento de uma ligação afetiva sadia entre a mãe e o seu bebê. As primeiras horas e dias se constituem como um período de reconhecimento, quando os dois membros da díade estão explorando um ao outro, conhecendo-se. Assim, mãe e filho precisam ser deixados juntos, num ambiente adequado para que desenvolvam uma ligação afetiva. Quando o pai pode participar, inclusive assistindo ao parto, por exemplo, além de oferecer segurança emocional para a mãe, está também ligando-se afetivamente ao bebê.

Portanto, este período pós-parto é muito delicado tanto para a mãe quanto para o bebê, podendo determinar a qualidade da ligação afetiva que se irá estabelecer entre os membros da díade criança-mãe.

O relacionamento com a mãe é primordialmente qualitativo. Não importa apenas dar o seio, o que importa é como o seio é dado, como as solicitações paralelas são atendidas, ou seja, não se está apenas incorporando o leite da mãe, mas também sua voz, seus embalos, suas carícias. As carícias não só proporcionam intensa sensação de prazer, como vão progressivamente dando à criança a configuração de seu próprio corpo; portanto, vão auxiliando a configuração do esquema corporal. O eu da criança começa a configurar limites, ou seja, a ter existência própria pelo contorno que lhe é dado pelo corpo materno.

O leite e os cuidados com a higiene não são em si suficientes para o desenvolvimento sadio. Mamar deve ser acompanhado de um ritual prazeiroso de conhecimento de uma figura amada e permanente. Ao nível da figura materna, o ponto fundamental é a presença de uma mulher que seja figura estável, que seja capaz de dar amor e que seja, ao nível qualitativo, capaz de compreender e atender as solicitações básicas feitas pela criança. Utilizamos o termo figura materna porque este é o elemento fundamental para a criança. Não importa se a mãe é verdadeira ou não ao nível biológico. Importa, sim, que seja uma figura capaz de criar laços estáveis de amor e de confiança na relação estabelecida com o bebê. O prazer que a mulher tem de dar o seio e a estimulação resultante das amamentações regulares é que constituem a base da manutenção do leite.

É portanto julgamento precipitado atribuir os problemas psicológicos evolutivos à carência de aleitamento materno. Pensamos que o que faltou não foi o leite, mas a mãe, no sentido pleno da palavra.

O incentivo do pai ao aleitamento materno é muito importante. A participação do pai nesta relação estreita entre o bebê e a mãe só trará benefícios para a família. Participar significa estar perto, ao lado da mãe que amamenta o filho, passando por cima de qualquer sinal de ciúme que possa surgir. Participar significa compreender que tão intensa e exclusiva ligação entre mãe e filho é imprescindível e, principalmente, passageira. Participar significa também dedicar-se às tarefas do lar, poupando a mulher de uma sobrecarga de trabalho e ansiedade.

A participação do pai nas tarefas domésticas apresenta uma importância particular. No desencargo de tais funções, a mãe encontra tranqüilidade para insistir na amamentação, permanecendo por um tempo maior com o bebê no colo, ofertando-lhe o seio, propiciando um mamar gostoso, sem pressa. Cabe ao pai querer participar, e à mãe permitir que ele o faça.

A tranqüilidade da mãe apoiada pelo pai, dá lugar ao carinho, ao afeto, ao prazer de ser família. Nessas condições, além de receber alimento, o bebê recebe amor durante a amamentação. O amor recebido vai marcar de forma prazeirosa a relação bebê com a família. A partir desta marca, o bebê deseja repetir a situação de prazer que experimentou, tornando-se ativo para o mundo, para a vida.

Existe um novo homem na sociedade. Assim como a mulher saiu de casa em busca de espaço no mercado de trabalho, o homem busca equilíbrio e harmonia na sociedade, dividindo com a mulher tanto o espaço profissional quanto as atribuições do lar.

Assim como na amamentação, o homem moderno não pode esquivar-se de seu papel, porque a vida não espera, e tampouco anda para trás.

* Anete Regina da Cunha é psicóloga, especialista em Psicologia Clínica Novo Hamburgo/RS

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