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Nº 015| Ano 2 | Set 1997
MOVIMENTO
MOVIMENTO

México busca experiência da Administração popular

Márcia Camarano

Ao contrário do que a mídia faz parecer, ganhar eleições não é o final de tudo, mas o começo. E o começo é sempre difícil quando o vencedor cumpre a façanha de derrubar quem sempre esteve no governo. É justamente esta a situação de Cuauhtémoc Cárdenas, eleito recentemente prefeito da cidade do México, uma das mais pobres e populosas do mundo, com sérios problemas de degradação ambiental. Para enfrentar os problemas munido de referências concretas – a exemplo do próprio Cárdenas que se reuniu com o prefeito Raul de Pont de Porto Alegre, no final de agosto – o sociólogo mexicano Sérgio Zermeño veio conversar com dirigentes municipais da capital gaúcha. “A troca de experiências é muito importante. O que nos interessa é compartilhar vivências entre nossas cidades”, disse o sociólogo, especialista em zapatismo.

Ele falou para uma resumida platéia de 60 pessoas, onde estava o prefeito Raul Pont e a secretária da Cultura, Margareth Moraes. Causou espanto os números trabalhados por ele. Com 18 milhões de habitantes, a Cidade do México possui 12 milhões vivendo abaixo da linha de pobreza e, desses, seis milhões em extrema pobreza. “Isso é brutal, mas é a cidade que Cárdenas terá para administrar com muito poucos recursos”, asseverou. As proporções são gigantescas, se compararmos com Porto Alegre, que possui um milhão e 400 mil habitantes.

Segundo ele, os vendedores ambulantes tornam impossível a vida do novo prefeito, pois promovem “enormes manifestações de anarquia e destroços, ocasionando grandes prejuízos e desordem. Para resolver os problemas mais urgentes, Zermeño considera fundamental o exercício constante do fazer política.

O sociólogo reconhece que o panorama político é muito delicado para a continuidade do projeto de Cárdenas e do próprio Partido Revolucionário Democrático, que elegeu o prefeito. Daí a urgência em viajar e ver de perto as experiências de outras cidades latino-americanas governadas por partidos de esquerda e centro-esquerda. “Daqui posso levar informações de experiências de sucesso, como é o caso do Orçamento Participativo, e ver de que forma podemos ensaiar e praticar esses elementos lá”.

Para Zermeño, a dificuldade de governar uma grande cidade latino-americana, com uma concentração tão grande de pobreza, exige que se busque alternativas exitosas em todos os cantos do mundo. Ele cita exemplos dentro da própria Cidade do México, como as colônias, que se auto-organizaram, criaram projetos autônomos e produtivos. “Há produção coletiva em vários projetos e neles estão incorporados todos os segmentos da sociedade, como mulheres, juventude e igreja”.

Aliás, um dos grandes desafios é levantar o nível das condições de vida da juventude, especialmente no que se refere a trabalho. O sociólogo conta que os jovens, na sua maioria, fazem qualquer coisa que possibilite levar uns trocados para casa. “Acreditamos que a esperança está na auto-organização e no auto-desenvolvimento”.

Zermeño analisa que o mais adequado seria descentralizar o poder e as políticas, a fim de que se resolvesse os principais problemas do país. Para ele, as grandes dificuldades do México atual começaram com a implantação da política neoliberal, em 1982. “E a grande contradição hoje está entre a sociedade que quer se organizar para resolver seus problemas e as políticas neoliberais desenvolvidas pelo governo, que entende que qualquer forma de organização é confronto”.

Estudioso do zapatismo, o sociólogo acredita que o movimento cometeu um grande erro, pois tinha 17 municípios sob seu domínio. Mas, em 94, resolveu brincar de expandir fronteiras e ocupar 45 presidências municipais. O resultado foi a desestabilização política e econômica do país.

Zermeño considera que os movimentos sociais hoje em seu país são muito débeis, incluindo o zapatismo armado. Para ele, o “cardenismo” não é uma política nacional, mas uma possibilidade. E a Frente Zapatista deverá trabalhar com o cardenismo se quiser o desenvolvimento das populações.

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