Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 015| Ano 2 | Set 1997
PERFIL

Parceiro da vida

O jornalista, poeta e compositor Demosthenes Gonzalez, aos 83 anos completos em agosto, segue fiel a uma época de rebeldia e boemia. Adora um bate-papo com amigos. Assuntos: política, música e poesia, as paixões do parceiro de Lupicínio Rodrigues.

 

 

 

 

 

 

Quem o vê trabalhando na assessoria de imprensa da Prefeitura de Porto Alegre não imagina que aquele senhor tranqüilo, de passos lentos e olhar gentil, carrega um pedaço da história do Brasil. Reconhecido atualmente como o parceiro e compadre do mestre da dor-de-cotovelo, Lupicínio Rodrigues, sua trajetória começa no governo Getúlio Vargas, aos 20 anos.

Para combater o fascismo instalado na década de 30 pelo governo Getúlio Vargas, Demosthenes não se importou com as conseqüências e ingressou na campanha – infrutífera – para evitar que Olga Benário, mulher de Luís Carlos Prestes, judia e alemã, fosse deportada para a Alemanha e entregue aos nazistas. O então estudante de Direito e militante da Aliança Nacional Libertadora experimentava a primeira prisão.

Depois perdeu a conta das prisões, de onde fugiu muitas vezes. “Era o rei da fuga”, se diverte. “Todo mundo fugia, era só dar sopa”. Mas a vida naquela época não era diversão. Também recorda os tempos em que foi torturado. Fixou para sempre na memória as 48 horas em que ficou no “cristo redentor”. Quer dizer, de braços abertos na frente do torturador armado de um charuto e um cacetete. “Eles queriam saber tudo, principalmente o que a gente não sabia”.

Na prisão, conviveu com gente que hoje está nos livros de História. Conheceu Olga Benário na sala de detidos na Polícia do Rio de Janeiro. “Saindo de lá, fomos para a Casa de Detenção.” Na chegada cruzou com o escritor Gracialiano Ramos, tuberculoso. “De tanto dormir no chão e no cimento”, acusa Demosthenes.

Ficou na Ilha Grande por quase oito anos, até 1947. Quando tudo acalmou na Ilha, as autoridades permitiram algo curioso. Pôde construir uma casinha para morar. A primeira foi de pau-a-pique que, mais tarde, transformou-se em quadro que está na sala do pequeno apartamento onde mora, no bairro Floresta. Depois, ele fez uma de alvenaria, muito confortável para os moldes da Ilha.

“Na Ilha, tinha pessoas comuns, era uma colônia correcional. Para lá iam bicheiros, marginais de toda a espécie, além dos cangaceiros e presos políticos, que habitavam as galerias. Tinha a dos integralistas, a dos comunistas, a Suíça (quem abandonava uma das alas) e a da quinta coluna (os acusados de espionagem)”. Na Ilha, Demosthenes encontrou o comunista argentino Rodolfo Ghioldi, o líder brasileiro Carlos Marighela e o irreverente proprietário do jornal A Manhã, Aparício Torelli, o Barão de Itararé.

COMPOSITOR – Apesar de tudo, o jovem Demosthenes nunca deixou de lado a poesia. “O compositor já nasce assim. Desde pequeno fazia versos”. Talvez influenciado pela mãe, pianista e professora de Radamés Gnatali. “Na minha casa, sempre havia música”. O nome, quem deu foi o pai, admirador do grande orador grego. Demosthenes escreveu a vida toda. Tem vários livros, alguns publicados, outros prontos, foram perdidos ou a polícia queimou por julgar subversivos. Mas esse ano, ainda, editou dois, pela Editora Alcance. Entre seus títulos estão Roteiro de um boêmio – Vida e obra de Lupicínio Rodrigues; Sabedoria de envelhecer (de comportamento); e Rua verde – Lições do cárcere. Está preparando para lançamento em 98 Ofício de Viver.

“Quando entrei, vi que tinha um homem nu tocando piano e outra mulher nua dançando. Aí, um mordomo afrescalhado, também nu, disse que eu tinha de tirar a roupa.”

Sua vertente principal é a música. 200 letras assinadas e catalogadas. Mas a maioria se perdeu. “Quando me meti com o negócio de partido, comecei a viajar. Ofício de compositor era mal visto na época. Era sinônimo de bêbado e cantora, sinônimo de prostituta. Não eram profissões dignas”. Demosthenes deu e vendeu muita música. Várias fizeram sucesso, mas não levaram seu nome.

ARTISTAS – Companheiro de Lupicínio desde guri, de jogar bola na rua. “Não gosto de dizer que tenho música junto com ele, porque não gravamos. Fizemos juntos a Boemia”, simplifica. Mas a verdade foi captada, certa vez, pelo falecido humorista Carlos Nobre, que publicou e, portanto, registrou: “Chega a ser comovente a preocupação do Demosthenes em divulgar e enaltecer a obra de Lupicínio Rodrigues, esquecendo-se da sua própria, que é da melhor qualidade”.

A cantora Alda Castro acaba de lançar seu CD A Voz Romântica, onde gravou três músicas de Demosthenes Gonzalez, Canção para o Meu Amor, Distância e Senhora Desilusão, o carro-chefe do trabalho. Alda gosta de lembrar os tempos em que cantou junto com Lupi e conheceu Demosthenes. “Comecei a divulgar a música dele na década de 60. Ele é um sentimental, homem doce e sensível. Um amigo em todas as situações”, atesta.

Dado pelo filho de seu parceiro. “Tive oportunidade de vivenciar essa convivência de meu pai com Demosthenes”, assinala o advogado e também compositor Lupicínio Rodrigues Filho. Eles são compadres, meu pai foi padrinho de casamento da filha dele”, depõe Lupinho – como é conhecido entre os amigos – recordando os tempos de infância, brincando junto com Sérgio, filho do jornalista. “Quando o pai faleceu, eu passei a conviver com o Demosthenes em função de toda a obra de Lupicínio, que ele catalogou. Ele está dando continuidade àquele trabalho”.

Iniciou na profissão de jornalista como apanhador de boneco, uma função já extinta. “Quando morria uma pessoa, tinha de pegar a foto. Foi como comecei, em 1936, em A Noite, no Rio de Janeiro. Passou a fazer reportagens, porque tinha facilidade com as palavras. Foi um dos fundadores da Revista do Rádio, um grande sucesso que, na época, chegou a rivalizar com O Cruzeiro.

Também publicou os tempos vividos na Ilha Grande. Uma reportagem até hoje guardada tem o título Fugir, eis o verbo. A mais pitoresca história talvez seja a entrevista com Luz del Fuego, a diva que dançava nua enrolada em cobras. Era década de 40 e a reportagem saiu com o título “Eu não sou imoral”. Difícil mesmo foi conseguir a entrevista.

“Ela estava de mal com o diretor da Revista do Rádio. Como eu queria falar com ela, inventei uma história, que a Elvira Pagan (outra vedete) tinha feito uma fofoca dela. Então, ela disse que ia me receber, mas que seria de acordo com às suas normas”. A surpresa aconteceu logo ao chegar na casa de Luz del Fuego. “Quando entrei, vi que tinha um homem nu tocando piano e outra mulher nua dançando. Aí, um mordomo afrescalhado, também nu, disse que eu tinha de tirar a roupa. Meu fotógrafo disse que não tiraria, mas eu falei que jornalista não tinha dessas coisas e fiquei pelado. O fotógrafo teve que tirar a roupa. Foi quando entramos no quarto dela e fizemos a reportagem. Era uma grande vedete e uma grande mulher. Inovadora”.

A maior parte de sua vida profissional se deu no Rio de Janeiro e São Paulo. “Onde a polícia deixasse”. Na metade dos anos 50, voltou para Porto Alegre, onde nasceu, com a incumbência de abrir a sucursal da Revista do Rádio, começando também a atuar na Rádio Farroupilha. Desde 1986, é funcionário da Epatur, cedido para o gabinete de imprensa da prefeitura.

NOITE – No Restaurante Dona Maria, na José Montaury, existe até hoje a “mesa da diretoria”, onde sentavam Lupicínio, Demosthenes, Hamilton Chaves e o chargista Sampaulo. Ele ainda costuma freqüentar o lugar, mas sem a assiduidade de antigamente. “Vou aonde tem um vinho tinto”. A noite continua sendo uma de suas grande paixões. “Andei e ando muito por aí. Gosto muito de bar. O de minha preferência agora é o Restaurante Angra dos Reis, perto de minha casa. E também a Cantina Roma, todos os sábados, almoço lá”.

Há outros menos votados, como o Gambrinus e o Chalé da Praça XV. “Onde eu vou, tenho um grupo de amigos. Quem quiser falar comigo, que vá ao Angra dos Reis, à noite. Estou sempre lá. Demosthenes sempre apreciou uma boa e bonita companhia feminina, mas não gosta muito de falar no assunto. “Não bota isso aí”. Os cinco filhos estão crescidos, todos casados.

Se tivesse de escolher entre a música, a política e o jornalismo, Demosthenes ficaria com todas as alternativas, que marcaram para sempre a sua vida. “O que eu quero mesmo é viver”.

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