Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 015| Ano 2 | Set 1997
EDITORIAL
EDITORIAL

Traição semântica

As palavras nos traem, implodem nossas melhores intenções. Sem que se perceba, elas revelam a nossa alma – ou melhor – o conteúdo ideológico com o que interpretamos a realidade. Às vezes, até mesmo sem nos darmos conta. Aliás, é assim que nascem os preconceitos, desta incorporação de idéias que se esgueiram por trás das palavras e que transitam em nosso pensamento sem que possamos submetê-las à nossa consciência. É razoável. São tantas as atribuições e atribulações que não se presta a atenção devida aos significados intrínsecos e associados às palavras, às analogias, às sutilezas da linguagem.

Não nos damos conta da infinidade de expressões que empregamos, repetitivamente, pelo simples fato de que crescemos ouvindo-as, tão arraigadas estão no senso comum.

Porém, quando debatemos a educação das crianças, quando reconhecemos sua batalha colossal na construção do conhecimento, estas questões afloram de maneira contundente. A revelação das armadilhas semânticas evidenciam que hábitos rotineiros, diálogos prosaicos do nosso cotidiano se inscrevem no mais cruel conservadorismo, porque, ou denunciam nossa perversidade, ou descortinam nossa ingenuidade. De qualquer forma, este conservadorismo, esta inconsciência, esta não-cidadania é cruel porque atinge exatamente nossos alunos, nossos filhos, jovens com os quais temos a responsabilidade de contribuir para sua educação cidadã.

A matéria de capa deste Extra Classe, sem se propor diretamente a este assunto, acaba por tangenciá-lo e suscitar esta reflexão. Quantas palavras revestidas de valores ideológicos – no sentido da falsificação da verdade – pronunciamos ao nos dirigirmos aos nossos pequenos e jovens? Certamente grande parte daquilo que dizemos no nosso dia-a-dia, tão somente pelo fato de que ninguém está livre do senso comum.

Por isso mesmo, esta reflexão pode não ser original, mas é um alerta para todos nós, comprometidos com uma educação cidadã e que sabemos como é delicado ser um dos agentes da educação.

Pois bem, dizer que, sem brincadeira, agora é sério equivale a opôr seriedade e brincadeira como se esta dicotomia, este antagonismo fosse inequívoco ou verdadeiro. É como se afirmássemos que aquilo que é sério é triste, destituído de prazer, de sentido lúdico. E isso não procede, é falso. Na antigüidade primitiva, as colheitas – uma atividade fundamental de sobrevivência naquelas condições dadas – eram uma festa cheia de jogos e rituais lúdicos.

A noção de seriedade corrente – consolidada no senso comum como natural – integra uma ruptura histórica determinada, aquela em que o ser humano se torna, ainda que ignorante de seu rebaixamento, dilacerado pela condição de mercadoria, escravizado pelo trabalho e por relações sociais alienadas. Por trás de ingênuas expressões se escondem valores que escravizam, perpetuam preconceitos e culpas. Não é isso que se quer para as crianças e jovens que pretendemos que se eduquem. Isso é crucial, mas nem por isso precisamos nos martirizar. Basta ficarmos atentos às armadilhas da semântica, com muita seriedade e muito prazer em educar.

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Existem capítulos obscuros na História do Brasil. Em geral, quem observa tal situação são os historiadores e pesquisadores mais insistentes, porque os cronistas oficiais, regularmente, não têm muitas perguntas a fazer. Limitam-se a organizar a versão dos poderosos e ponto final. Felizmente, uma geração de investigadores sociais que chega à maturidade intelectual está substituindo pontos finais por reticências e pontos de interrogação. O massacre da República de Belo Monte, com o fim de Canudos e Antônio Conselheiro, em 1987 é um daqueles capítulos em que se tentou um ponto final. Um século depois do fato histórico outras interpretações adquirem autoridade para explicá-lo não como um fenômeno messiânico, manifestação estúpida do atraso nacional, mas como um processo político e social articulado com o fim da escravidão e o início da República no Brasil – seu clima conspiratório e suas intrigas palacianas. Com a colaboração do professor e historiador Mário Maestri Filho, esta edição registra a data e debate o tema.

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