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Nº 017 | Ano 2 | Nov 1997
ESPECIAL

Escola assume educação sexual

 

Foto-Helena-RochaFamecosPUCRS

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Uma das novidades da Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação brasileira nasceu velha. A LDB determina que os estabelecimentos escolares adotem a orientação sexual no período letivo. Acontece que a educação sexual já faz parte da realidade das escolas.

Diretores, professores, orientadores educacionais e pedagógicos começaram a sentir pressão, principalmente dos adolescentes e até mesmo de crianças, com perguntas simples, tímidas, envergonhadas e mesmo picantes.

“Como nascem os nenês?”, quis saber um aluno das séries iniciais da Escola de 1º Grau São Luís, na Avenida Teresópolis. A professora, grávida, começou a explicar. O volume das perguntas foi aumentando e, no final, vestida de calça e bata, de pernas abertas, ela mostrava por onde nasciam os bebês. “Mas ele passa por esse espaço tão pequeninho?”, admirou-se outra criança.

“Nós, professores, temos de estudar, pesquisar, nos preparar para essas situações”, explica a professora Zuleica Rangel, da 4º série do São Luís. Ela trocou o espanto com as perguntas pela necessidade de dar explicações de modo sereno, conforme o interesse do aluno. “Eles perguntam se, quando uma mulher está grávida, pode ter relações; porque os meninos têm o sexo para fora (“por que tem saco, tia?”).

Muda a escola, os alunos, mas as indagações continuam, em maior ou menor grau, conforme a necessidade e a liberdade dada para se chegar às respostas. Mas será que os professores estão preparados para dar essas respostas? A LDB preocupou-se em fazer com que o assunto entre no currículo de alguma forma. Mas como isso será feito? E quanto à formação dos professores?

A psicóloga Karla Nylande, que trata da sexualidade de adolescentes e adultos em seu consultório e no Gapa, afirma que o professor tem de entender a sua própria sexualidade para poder orientar. Ela diz que ninguém está preparado para fornecer respostas a garotos ávidos por informação. “Isso é uma construção, mas eu aposto nisto, porque têm professores excelentes, tanto na escola privada quanto pública”.

Zuleica Rangel concorda que nenhum professor nunca está preparado o suficiente. “Competência a gente mostra na medida que o aluno busca essa competência. O caos é a gente se julgar preparado. A cada dia, surgem coisas novas e tudo é uma questão de adaptar os conhecimentos que se tem”.

Há alguns poucos anos, se um estudante fizesse perguntas do tipo “o que a professora sentiu quando teve a primeira relação?” ou “como se sente tendo orgasmo?”, ou ainda “que gosto tem a porra?”, no mínimo seria convidado a sair da aula ou quem sabe até mesmo fosse expulso da escola. Mas a vida já su-plantou isso. E a professora Sandra Gomes Correia, da rede pública municipal, com mestrado em Sexualidade Humana – que já ouviu essas perguntas – acha que o melhor a ser feito é preparar professores para que as respostas sejam dadas. Porque quem faz uma pergunta, busca uma resposta.

Embora ainda estejam tateando sobre o que a LDB deve determinar com exatidão, escolas públicas, privadas e profissionais da área têm uma opinião consensual: orientação sexual não deve ser inserida no currículo como disciplina, nos moldes de Português, Matemática ou Geografia. Não deve valer nota ou contar presença. Deve, isso, sim, ser trabalhada sempre que houver oportunidade, em todas as matérias e todos os professores precisam estar atentos para quando este momento chegar.

Uma menina de 10 anos passa a aula toda apalpando os seios, que estão crescendo. A professora nota, mas acha melhor não dizer nada. “Quando se trabalhar o corpo humano, ela vai poder manifestar suas preocupações”, diz. Outra garota, de oito anos, adora se masturbar. “Até a pontinha da cadeira é motivo para ela começar”, explica Carmela Gallicchio Azevedo, orientadora educacional do São Luís. Carmela procurou a mãe da criança, que disse ser este o mesmo comportamento da menina em casa. Que ela não sabe como agir com a filha e, por isso, fica quieta.

“A menina me disse que faz por que é bom e o jeito foi botar a classe inteira sentada no chão plano, toda vez que o professor percebesse que ela ia começar. A psicóloga Karla Nylande tem uma forma bem objetiva para resolver os dois casos: “quanto à menina que passa a aula massageando os seios, é de se perguntar se está doendo. Se não for isso, dá para cortar, porque pode chamar a atenção dos outros alunos e talvez seja isso o que ela quer. Pode ser um jogo de sedução. E quando à garota que se masturba em classe, deve-se explicar para ela que isso deve ser feito no banheiro ou no quarto. Porque, se não, mobiliza todo mundo”.

Para Karla, orientação sexual é algo que deve ser dado em casa e na escola. Mas muitos pais sentem-se constrangidos em tratar desses assuntos com seus filhos e delegam a responsabilidade para a escola. “As crianças estão deixando de ser crianças cada vez mais cedo. Elas recebem muitas informações, ficam sozinhas em frente à TV e não tem com quem discutir o que recebem. Acho que esse papel caberia à família, mas como isso não transita entre os familiares, a escola assume esse papel”, afirma Carmela.

Adolescentes participam de encontro nacional

Airton Júnior Menezes da Rosa tem 17 anos e está na 8ª série da Escola Municipal Jean Piaget. Por conta de sua participação no grupo de orientação sexual da escola, ele foi escolhido para par-ticipar do Encontro Nacional de Adolescentes (ENA) em Uberlândia (MG), em julho passado. “Nós estávamos nos preparando para o encontro regional agora no final do ano, em Viamão. Aí, ficamos sabendo desse em Uberlândia, o grupo quis participar e eu fui sorteado”, lembra.

A participação de Airton foi tão marcante que ele foi convidado, mais tarde, para uma reunião com os organizadores do encontro, na Unicamp, em São Paulo, quando avaliaram o encontro realizado e passaram a preparar o próximo, ano que vem em Rio Claro (SP). “A gente discutira várias coisas: sexualidade, drogas, doenças sexualmente transmissíveis. O que aprendi lá vai ser repassado para os outros alunos”.

Foram quatro dias de discussão e Airton inclusive ministrou uma oficina: “Adolescentes: o que eu quero dizer”. O garoto gostou de ter conhecido gente de todo o Brasil, de trocar experiências. “Aprendi que Aids não tem cara quando conheci uma menina lá que tinha a doença. A aparência dela é saudável e eu só fiquei sabendo quando a gente já tava indo embora”.

Airton vinha tentando entrar no grupo desde o ano passado, mas não conseguia vaga. “É muito concorrido. Mas a gente discute sobre tudo. São experiências gostosas que mostram que o adolescente tem capacidade para levar sua vida sozinho. Lá no encontro era a gente mesmo que preparava o almoço”. Ele mora com os pais e cinco irmãos. Admite que o pai e a mãe tinham vergonha de discutir esses assuntos com os filhos. “Agora, eles têm mais liberdade, até quando eles não querem falar eu puxo o assunto e faço isso com meus irmãos também”.

O psicólogo, psicodramatista e mestre em Educação Ricardo Castro e Silva, iniciou mais um curso para um grupo de professores da rede municipal, com vistas à formação para orientação sexual. Paulista, ele vem a Porto Alegre há oito anos e percorre todo o Brasil com este trabalho. Ele também é um dos responsáveis pelo encontro nacional dos adolescentes. Ricardo é integrante de Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual, – GTPOS – uma ONG com 10 anos e sede em São Paulo, iniciada pela deputada federal Marta Suplicy (PT/SP).

Ricardo lembra os anos 60, quando o trabalho de orientação sexual foi banido para só se reorganizar nos anos 80. “Hoje, a molecada vai longe com esse trabalho. É um trampolim para a cidadania”. Mas ele sabe perfeitamente que a repressão não acabou e acredita que o trabalho ajuda a compreender melhor os novos mecanismos da repressão.

“A repressão hoje se faz de outras formas: abandono, incentivo à vida sexual precoce, e a própria TV é repressiva por ser extremamente permissiva. A permissividade paralisa, porque invade, ultrapassa os limites, nem pergunta se pode ou não”.

Uma de suas alunas no curso é a professora Rosângela Reichelt, da Escola Municipal Lauro Rodrigues, no Jardim Ingá. Ela considera a orientação importante por estar em contato direto com os alunos. “Isso é uma coisa que aflora na sala de aula. Se o professor não está preparado para responder, se quebra”. Como professora volante, ela está sempre em contato com várias turmas.

Ficar – A psicóloga Karla Nylande sabe bem o que é isto e dá muita força para o trabalho. Seu maior receio é que as escolas tratem a sexualidade como algo estritamente biológico. Pelo jeito, seu temor é infundado. “A sexualidade diz respeito ao nosso prazer e desprazer e está muito ligada à educação”. O “ficar” dos adolescentes é uma nova forma de descobrir o corpo um do outro, saber onde tocar, onde se sente mais prazer. Eventualmente, isso pode levar ou não a uma relação sexual”, ensina Karla. Na classe média, os adolescentes “ficam” para reconhecer seu corpo, as zonas erógenas.

Para ela, independente de preconceito, as diferenças existem sim quando a diferença de classe entra em cena. Meninas de classe social mais baixa estão preocupadas em ter um namorado, em se mostrar e acabam não tendo informações necessárias sobre assuntos sérios, como Aids. Também acabam engravidando mais cedo. Com as mulheres há mais repressão.

Já os meninos não apresentam tanta diferença de classe, porque existe uma cultura de gênero que os incentiva para as descobertas. Karla atende garotos e garotas de classe média e alta em seu consultório e os meninos de camada baixa procuram o Gapa, onde ela dá plantão. “Por incrível que pareça, muita mãe traz seu filho, porque ela não consegue falar sobre o assunto e procura a ajuda de um profissional”.

Valorização da vida

A conotação religiosa é forte quando orientação sexual é assunto nas escolas particulares. Mas isso não quer dizer que o tema fique restrito ao aspecto biológico. “Por ser católico, o Colégio São Luís tem todo um enfoque religioso. Mas nossa preocupação é tanto comportamental quanto biológica. Tudo dentro dos padrões que a gente cultiva enquanto escola católica”, esclarece Zuleica Rangel.

O Colégio Anchieta, um dos mais tradicionais de Porto Alegre, abriga 2.800 alunos de classe alta ou média alta. De orientação jesuítica, a escola sempre se preocupou em fornecer algo mais do que o exposto no currículo, “preparando os alunos para a vida”, como relata o vice-diretor acadêmico, irmão Celso Schneider. A partir de 1989, o colégio passou a desenvolver o “Projeto de Valorização da Vida”.

Segundo Schneider, “a orientação sexual não é tratada de maneira estanque”, mas é absorvida por esse projeto ao lado de outros centros de interesse. “Essa educação começa na pré-escola, onde é passada uma série de hábitos para serem valorizados em relação a higiene, ecologia, alimentos e, gradativamente, vai avançando nas séries subseqüentes. A partir da 4ª série, é tratada a questão da sexualidade e drogas, mas sempre dentro do propósito de valorização da vida”, acentua.

Esse projeto vai ampliando-se até ultrapassar os muros da escola, ganhando as ruas, onde os alunos interagem com a sociedade. “A partir da 5ª série, eles assumem uma atividade concreta, como visitas a comunidades carentes, à Aldeia SOS, preparo e distribuição de sopão em uma vila próxima ao colégio, ronda noturna nas sinaleiras, onde levam lanche e conversam com as crianças pedintes. Então, para nós, a sexualidade e a orientação sexual é algo visto dentro deste projeto mais amplo”.

Irmão Celso Schneider afirma que o Anchieta está aguardando a regulamentação da nova LDB para promover mudanças no trabalho feito até agora. “Não só quanto a isto, mas quanto a outras modificações que ainda não vieram”. O Regimento Interno da escola será reformulado em 98, tendo em vista as inovações da LDB.

COMPORTAMENTO – Desde que passou a incluir a discussão sobre sexualidade na vida escolar, a direção do Colégio São João, com 1.450 alunos, localizado na zona norte da cidade, viu diminuir sensivelmente o grau de agressividade e ansiedade entre seus estudantes. “Quando o aluno tem muitas dúvidas, não consegue conversar com ninguém, fica trancado e isso gera agressividade, mentiras”, constata a psicopedagoga Sônia Fialho.

Orientação sexual também não é assunto que esteja no currículo do colégio, mas é tema de aula há três anos, dentro de dois projetos. Um para o maternal, “Infância e Sexualidade”, e o outro, para o 1º e o 2º graus, “Adolescência, Sexualidade, Afetividade”. Sônia Fialho esclarece que esse é um trabalho conjunto de todo o serviço de orientação educacional da escola.

“Trabalhamos, primeiro, com os pais e, além disso, é feito um trabalho efetivo com os professores. A comunidade escolar é integrada ao trabalho, durante o ano todo”. Sônia diz ainda que, além do projeto, o tema é abordado nas disciplinas escolares. “Em Português, é aplicado um texto sobre o assunto, por exemplo”. Conforme ela, é importante que essa formação seja dada no dia-a-dia, “para que os estudantes tenham consciência do belo da vida”.

O resultado do trabalho proposto, reitera Sônia, é que diminuiu a agressividade entre os próprios alunos, principalmente entre os 12 e os 15 anos. “Se esse trabalho não fosse realizado, existiria muitas rixas entre meninos e meninas. Antes, nós sentíamos o problema e procuramos verificar o que seria possível fazer para melhorar esse comportamento. O resultado não foi de um dia para o outro. Houve muito estudo e pesquisa, até chegarmos a esse nível”.

A partir de 1995, a sexualidade passou a fazer parte da vida escolar dos alunos do Colégio Maria Imaculada, na Avenida Padre Cacique. “Neste ano, um professor da UFRGS veio dar palestras sobre o assunto e, em 96, contratamos a psicóloga Terezinha Rech, que nos prestou assessoramento”, lembra a diretora, Edite Ebbesen.

O trabalho, no entanto, se concentrou em 75 alunos da 6ª série e 76 da 7ª. “Os questionamentos foram em torno do que eles tinham necessidade e interesse em saber. Foi uma manhã inteira com eles”, diz Edite. Ela esclarece que o trabalho é feito somente com essas duas séries porque é a idade em que eles ficam curiosos.

“Este ano, eles assistiram a um vídeo e palestra sobre adolescência e auto-estima. Procuramos dar ênfase às alterações físicas e psicológicas”. Também uma empresa de absorventes higiênicos foi até à escola, quando distribuíram pacotes de absorventes para as meninas.

Edite detalha que a disciplina de Ciências lidera o trabalho e que o Serviço de Orientação Educacional (SOE) tem de dar o amparo, oferecendo informações e envolvendo as demais matérias. “Nossa base curricular é estruturada na área das Ciências, mas como esse é um assunto que não pode ser tratado em um só período, os demais professores cedem o seu tempo”.

Trabalho em sala de aula com preservativo

Um grupo de sete alunos, todos com 10 anos, acabam de realizar um trabalho sobre Aids com a professora Zuleica. O assunto aguçou mais a curiosidade deles sobre a doença, sobre sexo, sobre a vida. “A gente tem de ter intimidade para perguntar e nós temos intimidade com a tia. Ela nos responde”, avalia a menina Roberta. As crianças riem mais de nervosas do que do fato, ao lembrarem uma reportagem que leram para o trabalho em que uma menina pergunta para o pai o que é “pau duro”.

A coleguinha Taiana lembra que eles aprenderam que é muito importante o uso de camisinha nas relações sexuais para que a Aids seja evitada. “A gente mostrou uma camisinha para ilustrar o trabalho. Sabe, tia, a gente encheu a camisinha, mas quando ela esvaziou, não voltou para o lugar”.

Henrique é o único menino do grupo. Ele ameaça fazer uma pergunta, mas fica com vergonha, logo denunciado no seu rostinho vermelho. Taiana se entusiasma e questiona: “se a gente tomar banho de piscina com alguém que tem Aids, será que pega?”. Todos se aliviam com a resposta de que não pega.

“Tia, a Rochele já menstruou”, comenta Renata. Rochele, a mais alta da turma, admite que ficou intimidada quando percebeu essa novidade no seu corpo. Ela não sabia o que era e ficou com medo de perguntar para a sua própria mãe. Agora, ela já sabe o que é, mesmo assim, parece ainda sentir-se incomodada quando tocam no assunto. Para os meninos, tudo é novidade, tudo é engraçado.

LDB ainda vai regulamentar tratamento do assunto

A LDB prevê um tempo para que as escolas façam adaptações. Agora, no período de férias, o corpo docente do Colégio São Luís estará estudando as modificações que a escola irá proceder e estruturando o trabalho para 98. “Nós sempre trabalhamos a educação social e, a partir do ano que vem, mais do que nunca. Até agora, era algo diluído, preparando para a vida”, observa Zuleica Rangel, que trabalha há 12 anos com a 4ª série. Sempre que trabalha o corpo humano surgem as curiosidades.

Para ela, esse é um estímulo ao seu próprio trabalho. A professora pesquisa e estuda, a fim de estar pronta para as respostas. “Tudo é feito conforme o grau de interesse e a explicação vai até onde as crianças querem ir”. Esse ano, Zuleica promoveu inclusive seminários sobre Aids e veio inclusive aluno de fora para assistir. “Têm crianças que não obtêm informação sobre isso em casa, então aqui é a verdadeira educação sexual”.

Mas não é só quem está entrando ou já está na adolescência que se interessa pelo tema. No maternal da escola, a professora ouviu a pergunta: “porque eu tenho pichurinho e ela tem pichureca?”. E, conforme a orientação da escola, o interesse do aluno é atendido, tudo explicado com a máxima clareza, para que não floreçam equívocos. “No maternal, eles trabalham o sexo dentro de sua própria fantasia”, explica Carmela Azevedo, lembrando que nessa faixa etária, de 4 a 6 anos, é comum um mostrar o tico para o outro.

No São Luís, cada professor faz seu trabalho quando sente necessidade. Todos os anos é realizado um apanhado sobre o que os estudantes querem saber. Coisas como drogas, sexo, violência. Esses temas são abordados por um médico, que dá palestras para 7ªs e 8ªs séries. A promoção do absorvente também chegou àquele colégio, num trabalho só com as meninas. Elas fizeram perguntas sobre ovulação e a possibilidade de ficarem grávidas.

Carmela destaca que, aos 11 anos, na 5ª série, as meninas estão mais aguçadas quando se trata de sexualidade. Salientam-se na maneira de vestir. “Elas precisam ser trabalhadas e, nessas horas, conversamos sobre a valorização delas como mulher”. Zuleica acrescenta que, enquanto os meninos nessa idade querem chutar bola, as meninas querem pegá-los.

Condição de cidadania

Há seis anos, a sexualidade é tratada com toda seriedade na rede municipal de ensino de Porto Alegre. Tanto que, em 1995, foi instituída a Lei Municipal nº 7583, que determina o conteúdo de Educação Sexual nas escolas de 1º e 2º graus. O município de Porto Alegre saiu na frente da LDB, pois a lei decreta que a rede municipal desenvolverá o conteúdo de Educação Sexual – sexualidade humana – sob a denominação de Orientação Sexual, caracterizando-se por “ação planejada, sistemática e transformadora, que visa à promoção do crescimento pessoal a partir de valores éticos, do compromisso com o próprio bem e o bem comum, baseados em relacionamentos de respeito às individualidades”.

Diz a lei que o trabalho será feito por profissionais da educação com formação específica para seu desempenho, interessados no desenvolvimento humano e em sua capacidade de realizar mudanças sociais. A formação a que se refere a lei é fornecida pela Secretaria Municipal de Educação como forma de garantir a unidade do trabalho em toda a rede. O trabalho é desenvolvido em caráter sistemático e permanente no currículo escolar, como conteúdo e não como disciplina, no espaço de um turno semanal.

liberdade – A implantação do programa passa por uma discussão colegiada, com a participação de toda a comunidade escolar, via Conselho Escolar. A obrigatoriedade no currículo, no entanto, não implica obrigatoriedade para o aluno participar em horário alternativo ao seu estudo regular. Além de outras providências, a lei determina os conteúdos básicos de Orientação Sexual: Desenvolvimento psicosocial; Saúde reprodutiva, Relações interpessoais; Afetividade; Auto-imagem; Relações de gênero.

“Essa lei veio complementar um trabalho que vinha sendo realizado desde 1990”, explica a psicóloga da SMED, Jeane Jacoby. Desde 1991, a secretaria promove um curso de formação para professores, que após seu término, agem como multiplicadores do que aprenderam em suas escolas. “A sexualidade não pode ser encarada como uma disciplina, uma matéria. Porque, senão, seria tratada por um único professor, de forma cartorial. Achamos que esse é um conteúdo interdisciplinar, que pode ser abordado em qualquer momento”, ressalta Jeane.

Isto, contudo, não quer dizer que o professor não planeje o que vai ser abordado e de que forma. Pelo efeito multiplicador, todos os professores podem abordar o tema no momento que for interessante para o aluno. Participa o estudante que tem interesse em saber.

drogas – Jeane lembra a época em que o assunto passou a preocupar a SMED. “Em 1989, com o início da Administração Popular, vimos que esse era um tema que as escolas abordavam eventualmente, de forma pontual, quando surgia uma necesidade. Nós víamos alunos envolvidos com drogas, problemas de gravidez precoce, Aids, mas não existia um trabalho sistemático sobre isso.

É importante salientar que as 87 escolas municipais que abrigam 47 mil alunos estão situadas nas zonas periféricas da cidade, onde predominam as classes mais carentes. Para trabalhar o tema Aids, os professores compreenderam que era preciso abordar algo mais abrangente que é a própria sexualidade dos adolescentes. “Do interesse puro e simples em fazer esse trabalho até se chegar na lei foi um caminho longo”, reconhece a psicóloga.

“Quando surgiu a lei, nós até nem a queríamos, porque eram poucos professores. Mas ela foi aprovada, está aí e acabou servindo de estímulo para nossas atividades”. Já é o quarto curso de formação de professores que a SMED está desenvolvendo, atingindo 75 professores que, mais tarde repassam seus conhecimentos para adolescentes, colegas, pais, funcionários. Tanto faz se é escola regular (1º grau), escola especial (portadores de necessidades especiais), escola infantil ou Seja (Serviço de Educação de Jovens e Adultos).

agressividade – O curso se baseia na idéia de que teoria e prática andam juntas. A concepção de sexualidade é dissecada pelo lado biológico, afetivo e social. “Percebemos que, com essas informações, a postura do aluno muda, até na forma de atuar em aula. Porque sabe que tem um período em que pode conversar coisas da vida dele”, garante a professora Maria do Carmo Nogueira, que tem especialização em Sexualidade Humana. Ela acrescenta que são os alunos que escolhem as temáticas. Os professores sempre começam pelo interesse dos estudantes.

“Alunos de sexualidade são diferentes. Eles têm mais facilidade na escola e com a própria vida. A filosofia de trabalho é participativa, com dinâmica e vivência. Não é aula teórica pura”. São grupos de interesse, ou seja, não são todos os alunos da escola. Cada grupo tem, em média, 25 adolescentes a partir dos 12 anos, em todas as escolas municipais.

Sandra Gomes Correia, professora com mestrado em Sexualidade Humana, está certa de que esta proposta da rede municipal é muito avançada. “A maioria das escolas têm projetos com conteúdos delimitados. Agora, o nosso é um trabalho inovador porque envolve todos os segmentos da escola”. Ela ainda salienta que o trabalho é avançado por estar articulado com uma proposta pedagógica que visa formar um cidadão pleno, capaz de fazer escolhas.

preconceito – A interação com a comunidade se dá, por exemplo, através da autorização que os pais têm de dar para que seus filhos freqüentem o grupo. “A autorização serviu para atrair os pais e discutir o projeto com eles”, conta Maria do Carmo. A partir da aceitação e da permissão, o trabalho está cada vez mais incorporado à sociedade. Um dos objetivos é respeitar as diferenças, combatendo toda forma de preconceito.

O secretário José Clóvis Azevedo afirma que, além do tema sexualidade, a SMED, através do Projeto Escola Cidadã, busca a cidadania plena. “A sexualidade é uma parte disso”. São trabalhadas questões ligadas ao comportamento, relações humanas. Adão Pinheiro, assessor pedagógico da Secretaria, acrescenta que essa necessidade “de se construir a cidadania ganha mais peso quando se percebe que é um trabalho feito na periferia – onde as escolas municipais estão inseridas. São pessoas mais marginalizadas. Quando se fala em acesso à cidadania, logo se pensa na classe média. Mas precisamos repassar isso também para as comunidades carentes, pois é ali que se verifica a violência sexual com mais freqüência, nas suas mais diversas formas”.

O secretário e seu assessor perceberam que o fruto do trabalho está na forma do aluno discutir os assuntos de sexo com tranqüilidade e de forma mais clara e menos preconceituosa. “Sem a visão tradicional, de que tudo deve ser discriminado”, complementa Azevedo. Pinheiro revela ser impossível tratar a sexualidade descolada do contexto social. “A sexualidade da pessoa passa pela lógica social”.

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