Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 017 | Ano 2 | Nov 1997
ENTREVISTA | ZIRALDO ALVES PINTO
ENTREVISTA

Palavra querida, palavra poética

César Fraga

Não concilia com a seriedade sisuda e fingida de certos tipos de escritor. Decididamente

ele não faz o gênero intelectual de semblante grave e exageradamente profundo. Prescinde dessas poses que a vaidade requer e a mídia reitera. Irreverente como um guri levado, como um menino maluquinho, que a gente descobre feliz, Ziraldo dispensa apresentações. Basta dizer que é o criador de Flicts, uma das mais belas, poéticas e imaginativas criaturas que a literatura infanto-juvenil já ofereceu ao Brasil e ao mundo.

Daqui a dois anos Flicts completará 30 anos de muitas edições e já está até num CD-Rom, lançado pela Melhoramentos em 1995. Em 24 de outubro passado, Ziraldo completou 65 anos e nem parece. Também pudera, 40 anos escrevendo com humor, espírito crítico, ternura e coragem, contagia seus leitores de todas as idades com a energia de um menino feliz. Durante a 7ª Jornada Nacional de Literatura, de Passo Fundo, Ziraldo concedeu esta entrevista exclusiva ao Extra Classe.

Flicts é a poesia, é o maravilhoso, o terno. Um espasmo da imaginação que mexe com os ScreenHunter_119 Dec. 06 17.15

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sentimentos humanos essenciais. Flicts é uma das tantas criaturas transbordantes de humanidade com que Ziraldo Alves Pinto, mineiro de Caratinga, faz um carinho nas gentes de todas as infâncias. Cartunista, escritor, jornalista, desenhista, fundador do extinto Pasquim – jornal alternativo que nos anos 70 combateu a ditadura militar com irreverência e deboche – é um dos mais bem-sucedidos autores brasileiros. Ele ainda é um dos mais vendidos no país, já tendo ultrapassado há muito tempo a casa dos milhões de exemplares. Admirado por crianças e adultos, ele diz o que pensa.
Autor do também já clássico

O menino maluquinho, que além de inúmeras edições, já teve várias adaptações para o teatro e uma para o cinema, Ziraldo conta uma carreira de mais de 40 anos e 72 títulos publicados, grande parte deles dirigida ao público infantil. Porém, entre suas obras para o leitor adulto destaca-se

O pipoqueiro da esquina, em parceria com o poeta Carlos Drummond de Andrade. Para o teatro escreveu Os cangurus e Feira do adultério. As suas mais recentes publicações são Vovó Doçura e Uma Professora Maluquinha, os infantis mais procurados nas livrarias nos últimos meses. O mesmo Ziraldo que tem a sensibilidade de encantar crianças com ternura e jeito maroto é um guerreiro que faz do humor picante, por vezes até desbocado, uma arma contra a hipocrisia e as “babaquices” que afetam o Brasil.

EC – Como você encara este projeto de lei de imprensa e as ações judiciais retirando publicações das prateleiras depois de editadas?
Ziraldo – Os caras querem esta tal lei de imprensa para fazer a chamada censura branca. A retirada da biografia do Garrincha das livrarias prova que não precisa lei de imprensa. As pessoas que se sentiram ofendidas ou com direitos sobre a imagem do Garrincha utilizaram a justiça comum. Pode-se até achar que o juiz julgou mal, mas com essa lei, este tipo de juiz filho da puta e repressor, vai ter mais força ainda. Nos EUA, a 1ª emenda da constituição deles diz que não se fará leis sobre liberdade de expressão.

EC – Quem vai fazer parte da revista “Bundas”e quando sai o primeiro exemplar?
Ziraldo – A idéia é preencher um pouco do espaço deixado pelo Pasquim, por isso já sei que vou contar com Jaguar, Luiz Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Angeli, Sampaulo, Edgar Vasquez, Glauco, Laerte e muitos outros. Não esperem coisa bagaceira, que o negócio vai ter alto nível e será um sucesso, devendo o primeiro número ser editado até janeiro do próximo ano. Um detalhe, ela será semanal e colorida.

EC – As suas sessões de autógrafos tanto aqui no estado como em todo o país são concorridíssimas. Você considera que esse sucesso também se deve ao fato de você ser um autor pertencente ao eixo Rio/São Paulo?
Ziraldo – Não. Na verdade o escritor de maior sucesso no Brasil atualmente mora em Porto Alegre, que é o Luiz Fernando Veríssimo. O próprio Josué Guimarães, o Érico Veríssimo e Mário Quintana são conhecidos em todo o país sem nunca terem saído daqui. O Jorge Amado não saiu da Bahia assim como o Câmara Cascudo também não saiu do Recife. Eu acho que isso não pesa muito. O que acontece é que a grande mídia, concentrada nestes centros, não divulga com a mesma intensidade o que não ocorre à sua volta. Há um cacoete de dar importância ao próprio umbigo. Para entrar no noticiário em Porto Alegre você tem de matar a própria mãe. Este é um vício da imprensa não só brasileira, mas da norte-americana também. Sinceramente me parece muito difícil que este quadro se modifique.

EC – Como você acha que está o nível dos teus leitores aqui no sul considerando os contatos que você teve e a oportunidade de vivenciar em sessões de autógrafos e debates?
Ziraldo – As perguntas e considerações que me têm sido feitas, na sua maioria tem sido bastante pertinentes. Por exemplo, outro dia me perguntaram sobre a diferença entre o Menino maluquinho e o Calvin. Isso é coisa de gente bem informada e interessada de fato na obra. E este é um assunto que eu sempre quis abordar e ainda não havia sido questionado a respeito.…

EC – E qual foi a sua resposta a esta pergunta?
Ziraldo – É que o Menino maluquinho é católico, com características tipicamente latinas de um garoto criado por pai e mãe afetuosos. Enquanto o Calvin, que não tem este nome à toa, é um calvinista de personalidade árida. O pai é provavelmente um protestante sem muita paciência com crianças. O nome do Aroldo na verdade é Robes, que vem de Robespierre, um típico calvinista.

EC – Quantos livros vendidos?
Ziraldo – São 72 títulos em 18 anos de carreira editorial que devem totalizar uns quatro milhões de livros vendidos. Isso comparado ao mercado de discos, não significa muito. Um CD de sucesso vende isso em meses.

EC – Existem algumas escolas e creches que usam o nome do seu personagem O Menino Maluquinho sem autorização. Quando você toma conhecimento move algum processo?
Ziraldo – De forma alguma. Eu me sinto é lisonjeado quando isso acontece. É claro que o correto seria que estas pessoas pedissem uma autorização. Mas em muitos casos, elas não conhecem este procedimento por falta de informação. Mas aí eu penso que é melhor que tenham o nome do Menino Maluquinho do que de algum general. Isso significa que o meu trabalho faz sentido e que há identificação com ele. Inclusive há uma escola em Montevidéu, no Uruguai que leva o nome de Ziraldo. Este é o maior orgulho da minha vida. O que me incomodaria é se ninguém ligasse para o que eu faço depois de mais de quarenta anos de trabalho. Isso sim me deixaria magoado.

EC – O que comove mais, a reação do público diante de você e das suas obras ou fatos que lhe remetem a experiências pessoais?
Ziraldo – Eu sou uma pessoa igual a todo mundo e estou habituado ao meu dia-a-dia. Já estou acostumado com essa rotina de sair e dar autógrafos. Para eu poder me emocionar nestas situações não é muito fácil. Outro dia fiquei comovido com uma menininha dançando com roupa de bailarina e eu lembrei da minha filha, na mesma situação, há muitos anos atrás, em uma apresentação da escola. No mês passado, esta mesma filha deu à luz ao meu terceiro neto. Pensar nisso me emociona.

EC – Você costuma matar as personagens, a exemplo de Angeli com a Rebordosa?
Ziraldo – Todo personagem é como o ser humano. Ele nasce, cresce e morre. A Super Mãe, por exemplo, deixou de existir. Só ressuscita para aparecer em comerciais do dia das mães.

EC – Ela surgiu como uma caricatura sua ao que seria a sua idéia de mãe?
Ziraldo – Primeiro ela surgiu em função dos meus colegas de quarto, logo que me mudei do interior para a cidade do Rio de Janeiro, com 16 anos. Eu achava que os caras eram todos veados, pois estavam sempre indo falar com mamãe para isso, mamãe para aquilo. Foi aí que ela nasceu e ganhou vida. Ela era a mãe deles. Existe uma diferença entre a mãe do interior e a mãe urbana. A interiorana prepara o filho para ser mais independente e batalhar a própria vida, já a urbana é mais possessiva.

EC – Por quê você é contra a interpretação de texto nas escolas?
Ziraldo – Não é exatamente contra a interpretação, mas sim da maneira como a coisa é administrada. Um texto possui várias leituras subjetivas e o que geralmente ocorre nas escolas é que as respostas do livro do professor não oferecem flexibilidade suficiente, o que torna a coisa um verdadeiro absurdo. Por isso eu digo às professoras: se querem que as crianças apreciem a leitura esqueçam os exercícios de interpretação de texto.

EC – Como foi a sua infância?
Ziraldo – Eu me criei em uma cidade do interior de Minas Gerais, na época ainda não havia televisão. Às sete da noite as ruas ficavam deserta. Metade da população ia para o cinema. Era um lugar com quatro mil habitantes e a lotação do cinema era de dois mil lugares. O interessante é que as mulheres casadas ficavam em casa fazendo comida enquanto os maridos se divertiam. Depois da sessão, as pessoas iam dar uma volta na pracinha antes de dormir. Sabe que era divertido.

EC – Qual é o segredo para se comunicar com as crianças?
Ziraldo – Eu só fui conseguir entender e ler os olhos de uma criança quando já era avô. Pois é com idade avançada que a nossa própria infância fica mais presente. Pois quando se é mais jovem, nossa cabeça e ambições estão totalmente voltados para o futuro. As coisas práticas da vida não permitem que o jovem adulto consiga se colocar na situação de criança para tentar enxergar sob a sua ótica. Por isso, acho que somente com a idade avançada é que as imagens da infância podem voltar com nitidez, permitindo uma aproximação maior com os pequenos. O Carlos Drummond inventou um verbo ótimo para estas situações, o “outrar”. É preciso se colocar na situação do outro antes de estabelecer qualquer julgamento severo em relação a ele, e em se tratando de crianças, é fundamental.

EC – Como você vê a questão da violência na sala de aula?
Ziraldo – Estive recentemente nos EUA, fazendo uma visita às escolas em função de uma avaliação do Menino Maluquinho. Lá as crianças são insuportáveis. Em conseqüência da chamado american beauvoir, método utilizado por eles, onde se acredita que não se deve magoar a criança em hipótese alguma, existem professoras que são esfaqueadas em sala de aula. Aqui as coisas ainda são bem diferentes. Também acredito que em determinadas situações, em confronto direto com os pais, é necessário bater, desde que seja para estabelecer limites e por motivos justos.

EC – Causa alguma angústia esta tecnologia que cria um brinquedo como o Tamagotchi, que substitui um animal de verdade?
Ziraldo – Não me angustia. É que as coisas agora acontecem com um pouco mais de velocidade. Eu envelheci vendo as novas gerações sendo impactadas com uma porrada atrás da outra. A capacidade de adaptação do ser humano ao novo é uma coisa impressionante. E esse brinquedo é só um reflexo disso. Uma criança de quatro anos não precisa nem de manual para operar naquele negócio. Um adulto possui uma dificuldade natural e é ai que está o choque. Quando surgiu a Internet havia e há um certa polêmica. Mas só na cidade onde nasci já tem mais de quatrocentos internautas. Observe a velocidade como as pessoas assimilaram o telefone celular, os computadores, vídeos e outras coisas. Não há limite para a adaptação hu-mana. O que muda é o que está a volta do homem. Em essência, continuamos os mesmos.

 

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