Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 017 | Ano 2 | Nov 1997
L. F. VERÍSSIMO

Vai a…

Veríssimo

Uma vez o Clayton Ramil me pediu para fazer uma letra de música e eu fiz uma trova entre Deus e o Diabo. Nunca aproveitada e perfeitamente esquecível, tanto que a esqueci. Salvo por uma estrofe. Reagindo à descrença do outro quanto ao seu poder de estar em todas as partes ao mesmo tempo, Deus dizia ao Diabo, irritado:

“Vai ver se Eu não estou lá na esquina!”

Me lembrei da estrofe porque estava pensando nas várias maneiras que o homem tem de despachar seus semelhantes com um insulto, mandando-os a outro lugar. Desde uma banheira ou box de chuveiro até a presença da pessoa que, exercendo a profissão de prostituta, o que torna impossível saber com precisão quem é seu pai, lhe deu a luz. Aliás, estas exortações sempre se caracterizam pela imprecisão ou pela completa impossibilidade fisiológica. Todo mundo tem a obrigação de saber onde está sua mãe, ou pelo menos onde ela faz ponto, mas e quando se manda o outro ao excremento? Que excremento? Onde? De que ou de quem? Como a alusão é “ao” excremento em geral e não a uma determinada porção, subentende-se que em algum lugar existe um depósito feito especialmente para receber pessoas rechaçadas, que só depois, presumivelmente, devem ir tomar banho. E aproveitar para lamber o sabão.

Algumas tarefas são absolutamente irrealizáveis. Como uma pessoa pode se catar, por exemplo? E de que imaginável jeito alguém pode praticar a autofornicação, mesmo sendo contorcionista? Quando se manda alguém para o Inferno pelo menos é a um lugar específico. Mas a exata localização do Inferno é uma antiga questão teológica até hoje não resolvida. (Acho que na trova que eu inventei, o Diabo mandava Deus ao Inferno mas de forma sutil. Dizia: “Apareça lá em casa…”).

Enfim, pensamentos vazios sem qualquer proveito social. Deve ser a primavera.

Condenados

Não se despreze o valor de uma boa frase. Francis Fukuyama chamou a queda do comunismo e o triunfo da economia de mercado de “o fim da História” e está faturando com o achado até hoje. A frase é absurda, mas é sintética, oracular e suficientemente categórica para irritar tantas pessoas quanto encanta, daí seu sucesso. E fez de Fukuyama o Confúcio do neoliberalismo, embora eu duvide que muitos dos novos gerentes leram o que ele escreveu até o fim.

Li um comentário sobre o último livro de Fukuyama, “Trust”, cujo subtítulo é “As virtudes sociais e a criação da prosperidade”. Uma das suas teses sobre o desenvolvimento do capitalismo confere com a de analistas neomarxistas como Barrington Moore e Perry Anderson – com outros objetivos e outras conclusões, claro – e tem a ver com a influência de padrões culturais de sociedades précapitalistas no tipo de capitalismo que criam. Assim o que Fukuyama chama de “sociabilidade espontânea” de culturas como a japonesa, a americana e a alemã – que levam à confiança (“trust”) em indivíduos e corporações sem laços familiares – contrasta com o “familismo” de sociedades como a chinesa e a coreana, onde corporações impessoais são mais difíceis e o estado tem que gerenciar a economia. A antipatia congênita entre classes na Inglaterra sobreviveu na divisão entre capital financeiro e capital industrial, o “familismo amoral” do Sul da Itália sabotou qualquer tipo de progresso, etc. Esse atavismo social também determinaria as relações de produção: a ligação vitalícia do empregado japonês com sua empresa é uma continuação do shogunato, o complicado sistema assistencial alemão vem das guildas medievais, etc, etc.

Fukuyama puxa sua tese para suas previsíveis sardinhas, que não têm nada a ver com as dos neomarxistas, mas o que nos interessa é o que ela prediz para o Brasil. Como o nosso padrão cultural dominante é escravagista, estaríamos condenados a um capitalismo de engenho, a senhores insensíveis e escravos irremediáveis por mais que tentássemos ser outra coisa, até o fim da História. Ou a volta da História, dependendo de que lado do Fukuyama você está.

Anedotas

Pode-se dizer das anedotas o mesmo que se diz da matéria. Em todas as teorias conhecidas sobre a evolução do Universo sempre se chega a um ponto em que a única explicação possível é a da geração espontânea. Do nada nasce alguma coisa. As anedotas também nasceriam assim, já prontas, aparentemente autogeradas. Você não conhece alguém que tenha inventado uma anedota. Ou, pelo menos, uma boa anedota. Os que contam uma anedota sempre a ouviram de outro, que ouviu de outro, que ouviu de outro, que não se lembra onde ouviu.

Os humoristas profissionais não fazem anedotas. Inventam piadas, frases, cenas, histórias, mas as anedotas que correm o país não são deles. São de autores desconhecidos mas nem por isso menos competentes. Uma anedota geralmente tem o rigor formal de um teorema. Exposição, desenvolvimento, desenlace. Claro que variam de acordo com quem conta. A anedota continua a tradição homérica, da narrativa oral, que transmitia histórias antes do livro. Existem contadores eméritos. E casos pungentes de grandes contadores que, com o tempo, vão perdendo a habilidade, até chegarem ao supremo vexame de um dia esquecerem o fim da anedota.

— Aí o sacristão pegou o desentupidor de pia e…e…e…

— E o quê?

— Esqueci.

— Não!

Pior do que isso é o contrário. O contador decadente que passa a só lembrar do fim das anedotas.

— Como era mesmo aquela? Termina com o homem dizendo pro índio “fica com o escalpo mas me devolve a peruca”. Puxa…

Há quem diga que todas as anedotas são variações sobre dez situações básicas, que existem há séculos. Dizem mesmo que Deus, depois de dar a Moisés a tábua com os Dez Mandamentos, o teria chamado de volta e dito:

— E esta é a das anedotas…

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