Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 018 | Ano 2 | Mar 1998
PERFIL
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Ah! Se os políticos fossem como Bisol

Márcia Camarano

José Paulo Bisol

!bisol1.jpg (14547 bytes)É difícil e talvez dispensável descrever a candura e a vivacidade de José Paulo Bisol. Numa poltrona da sala de casa, num discurso de palanque ou aparecendo na telinha da tv, tem a mesma voz, o mesmo olhar e a mesma conduta expressiva, amistosa e sublime. Sua grandeza de caráter, manifesta nos pequenos gestos do cotidiano e nas atitudes decisivas da vida pública, fazem dele um cidadão tão humano que a instituição da política brasileira o rejeitou. Vítima da mídia e de outras covardias ainda mais dolorosas, assimilou o isolamento político sem rancores e com uma altivez sem rompantes. Recolhido à vida particular e ao trabalho jurídico, dedica-se à literatura, à reflexão social e se declara feliz. Embora não descarte possibilidades, não tem ambições para pretender cargos públicos ou políticos. Pior para a sociedade e para a política que, com certeza, seriam bem melhores se pudessem contar com a contribuição de Bisol, para usar uma palavra tão modesta quanto ele.

Aos quase 70 anos – que completa em outubro -, o ex-senador, ex-deputado estadual, desembargador e professor universitário aposentado José Paulo Bisol é um homem tranqüilo e íntegro. O ex-cronista de rádio e tv diz que está em fase de reconciliação com a vida, à espera da velhice e dedicando-se à literatura. “Alcancei uma tranqüilidade que me permite ser feliz”, pronuncia num tom de satisfação contida, calma, honesta.

Mas não é fácil. Só mesmo a sujeitos com o espírito de Bisol, quem sabe, seja permitido chegar a essa condição. Ele abraçou as ciências jurídicas por uma razão aparentemente comezinha: não suportar as injustiças do mundo. “O paradigma de meu sentimento de justiça é meu pai carroceiro. Vejo em cada pobre do mundo meu pai puxando sua carroça”, confidencia, com uma humanidade surpreendente, caso ele não se chamasse José Paulo Bisol.

Ele nasceu em Porto Alegre. Seu pai era um colono de Caxias do Sul. “Bisol é um nome provençal, mas meus antepassados são da Itália”, esclarece. Pouco depois dele nascer, a família – pai, mãe, uma irmã e dois irmãos – foi para Santa Maria tentar a vida. “Lá, me dei conta de que estava no mundo, foi onde vivi minha infância e adolescência”.

As dificuldades não impediram uma infância feliz, pois ela lhe proporcionou a primeira paixão da vida: o futebol. “Joguei e joguei muito bem. Era meia cancha pela esquerda. Isso salvou a alegria da minha infância. O que me faltava em matéria de gratificações, o futebol me deu, porque eu brilhava mesmo, era exceção”. Ele só não pagou todos os estudos com a arte da bola porque cedo rebentou os joelhos, onde tem cinco cirurgias.

Mas, ao mesmo tempo em que se deleitava nos campos de futebol, o olhar arguto não tirava a atenção da vida que o pai levava, distribuindo vinho com uma carroça puxada por três cavalos. “Em minha casa, se teimava em pensar que integrávamos a classe média mas, na verdade, éramos bastante pobres”.

Ainda na juventude surgiu outra paixão, a literatura, segundo ele, talvez a mais importante. Bisol sempre gostou muito de ler e escrever. Tinha uma biblioteca grande, mas há dois anos, ele se separou e ficaram os livros. Desse casamento tem três filhos, Jairo, Ricardo e Tula. Há um ano, está casado com a procuradora do estado aposentada, Vera Lúcia Zanette, 49 anos.

Não se ressente com a perda da biblioteca: “vou comprando, vou lendo, repondo”. Bisol sempre leu de tudo e é conhecido por sua vasta bagagem cultural. Não guarda números, mas a memória é fantástica para conceitos. “O que li há quinze anos, tenho presente”.

Como escritor, sua primeira experiência literária foi a poesia. “Tenho livros editados e continuo escrevendo. A primeira obra se chama “Sim à Vida”, editado em 57, “por um amigo, não fui eu”. Outro traço marcante em Bisol: não se exibe, é extremamente modesto, retraído, quando o assunto é ele mesmo. O amigo de quem fala é o crítico literário Paulo Hecker Filho, que o acompanha desde a juventude. O livro era de poesia moderna, ele estava sempre bem atualizado. “Participei dos Grupos Quixote e Crucial, que fizeram história”, lembra Bisol.

Quando é que Bisol se interessou por política? Desde sempre. Desde que teve idade o bastante para enxergar as injustiças da vida, emblematizada pela vida dura que o pai levava. Na passagem da adolescência para a juventude, no período universitário, ele assistia ao movimento sem interesse especial. Sua vida estava voltada para as artes. Não se abstinha do movimento político, mas não participava do ponto de vista de direção ou orientação. Política, para ele, é mais uma forma de lutar contra a pobreza.

“Não tenho vocação política, não gosto de política , jamais gostei, no sentido da atividade. Claro que o pensamento político me interessa”, reconhece. Bisol nega que essa posição seja conseqüência do que passou na campanha eleitoral de 1994, quando candidato a vice-presidente da República na chapa de Lula. Ele foi atacado política, pessoal e moralmente por uma campanha nebulosa e sistemática através da mídia nacional. “Muito antes eu já não gostava”, reitera. Ele cita uma frase do professor Darci Ribeiro para explicar sua posição. “Ele disse uma vez que não fazia política por vocação e sim por indignação. E eu fiz política só por indignação”.

Nos treze anos de atividade parlamentar, como deputado estadual e senador, sua preocupação básica era a pobreza. Primeiro, pelo PMDB, pois no início dos anos 80, quando foi eleito deputado, eram apenas duas siglas e essa era a que abrigava a oposição. No pluripartidarismo, ele optou pelo PSB. No balanço desse período, Bisol admite que deu sua contribuição num processo político da definição dos interesses sociais.

ORADOR – “A minha filosofia política perdeu nesse processo, mas perder faz parte da vida”. Como senador, feriu interesses tortos e enraizados no Congresso e, acabou isolado. Mais do que isso, foi vítima de uma campanha de difamação para despejá-lo do mundo político, que se evidenciou na manobra que o retirou da chapa majoritária para a presidência da República em 94. Naquele momento que marcou a vida brasileira, Bisol foi acusado de favorecer um município do centro do país, onde tinha um sítio, o que, no final das contas, nunca foi provado.

A verdade é que este foi o pretexto para começar o processo. Havia quem temesse a eleição de Lula e a influência de Bisol nas decisões importantes do país. Ele nunca foi perigoso pelo partido que representava, mas pelas coisas que dizia. O que era de difícil compreensão a muitas pessoas, o senador tornava simples, pois é dele o talento para a oratória e o convencimento.

No final daquele episódio, ele acabou processando vários veículos de comunicação. “O principal detalhe disso tudo é que não tenho nenhum ressentimento. Nem em relação à mídia, o que não impede que tenha um pensamento crítico a respeito”. O segundo detalhe, ele acrescenta, é ter sido “uma campanha de destruição moral inédita na história da mídia na América, que durou 60 dias, dia a dia, em todos os jornais, todas as rádios, em todas as emissoras de televisão do Brasil”, recorda com precisão.

“Mas eu saí inteiro e, depois disso, verifiquei que meu conceito cresceu, até pelo número de convites para fazer palestras, vindos de todos os cantos do Rio Grande do Sul e também de outros estados”. “Vivem me pedindo para falar sobre mídia”.

Bisol também não guarda nenhum ressentimento em relação aos partidos que o acompanhavam naquela caminhada, PT e PSB. O primeiro, por aceitar tão rapidamente a retirada da candidatura, sem promover nenhuma averiguação sobre a veracidade dos fatos e, o segundo, seu partido, que o escanteou quando ele ainda representava a sigla no Senado.

“Em política, as solidariedades pessoais não existem. As definições são sempre a partir do interesse partidário. E, com isso, eu conheci a solidão política por duas vezes. Uma, na CPI do Orçamento, em que a maior parte dos meus colegas de Congresso se voltaram contra mim e até meu partido saltou fora”. Bisol admite que foi abandonado pelo PSB, mas continua filiado e agora mesmo, a convite do deputado estadual Beto Albuquerque, está fazendo um trabalho na comissão de revisão da Assembléia Legislativa. O senador talvez até guarde mágoas, mas costuma perdoar. Porque não foi só na CPI do Orçamento que o PSB o abandonou.

Depois de sua candidatura a vice ter sido retirada, o diretório regional do PSB do Rio Grande do Sul deliberou que ele assumisse a candidatura para o Senado. Seria inclusive uma oportunidade para se defender e, com a sua competência, poderia inclusive se eleger. Mas um importante dirigente do PSB desconsiderou a deliberação e manteve a candidatura ao Senado de Fúlvio Petracco.

Os amigos de Bisol não esquecem destes fatos, mas o ex-senador prefere arquivar o assunto. Diz apenas que “qualquer pessoa que não se chamasse José Paulo Bisol diria ‘tá bom, vou renunciar, mas eu quero ser candidato a senador’. E eu me elegeria. Mas eu não fiz isso, porque acho que essas coisas são os outros que devem decidir e os outros não tiveram coragem”.

Outra vez seu nome está cogitado para o Senado, mas ele afirma que não mexeu uma palha sobre isso. “Não estou pessoalmente fascinado, seduzido por essa idéia. Pelo contrário, estou pensando apenas em escrever meus poemas. Já tenho alguns prontos. E, também sobre a mídia; estou preparado, com toda a teoria elaborada para escrever sobre isso. Não vou contar a história que passei”. Ele pretende fazer um estudo social da mídia, da relação da justiça com a mídia. “No Rio Grande do Sul, ela é uma e, nos outros estados, é diferente”. Bisol acredita que, em alguns estados, a pressão da comunicação intimida alguns juízes. “Mas que aqui isso não acontece. O Rio Grande do Sul sempre teve uma magistratura mais qualificada, sem desrespeito às outras, muitas excelentes”.

E se lhe fizessem um convite para concorrer a um cargo eletivo? Ele pára e pensa. “Se houver coesão entre os partidos de esquerda, é possível que aceite”, responde.

Seria justo para alguém que, afinal, tem uma trajetória de vida ligada à Justiça. Tão logo se formou em Direito, com vinte e poucos anos, foi ser pretor em Farroupilha. Em seguida, fez concurso para juiz. Fez toda carreira, passando pelo Tribunal de Alçada, chegando a desembargador pelo Tribunal de Justiça. Ele não conta, mas todas as promoções foram por merecimento, não por tempo de carreira. Está aposentado há duas décadas. Decidiu isso quando o então presidente Ernesto Geisel fechou o Congresso e criou um Conselho de Controle da Magistratura. “Achei aquilo um absurdo, tirar a independência do juiz. Tinha tempo e me aposentei”.

Logo depois, a comunicação entrou na sua vida. Foi convidado a participar da direção da RBS TV. “Aceitei, mas não me adaptei à função. Aí, eles me ofereceram a oportunidade de permanecer, com uma crônica que eu já fazia na Rádio Gaúcha, dentro do Programa TV mulher”. Foi um programa de prestígio no início dos anos 80, apresentado por Maria do Carmo, hoje deputada estadual pelo PPB. Bisol fazia sucesso com seu quadro inovador na época, dando conselhos na área da família para pessoas humildes, sem conhecimento dos seus direitos.

“O que tem de curioso na mídia é que está estruturada em parâmetros comportamentais. Se você vai ser apresentador, tem que ter um modo de falar, de olhar. E eu não tinha padrão nenhum. Fazia meus comentários espontaneamente, sem script e, graças a Deus, as pessoas gostavam”. Ficou enquanto durou o programa. “Até hoje, as pessoas me abordam perguntando porque ele não volta”.

A ex-apresentadora de tv, Maria do Carmo, tem saudade do programa TV Mulher. Bisol era o encarregado de dar as respostas sobre os direitos da mulher”. Quando ele chegou, recorda ela, havia um espaço aberto para esclarecer às mulheres. “Bisol começou respondendo uma, duas cartas e daqui a pouco, já estava com mil nas mãos”. Ela lembra dele como uma pessoa inteligente e admirável. “Sua maneira humana cativou as pessoas, carentes de informações jurídicas, falava sobre relação familiar, separação, adoção, fidelidade, enfim, uma série de coisas que as pessoas queriam saber”. Para ela, Bisol “é de um caráter e dignidade incalculável. Tenho grande admiração por ele, não só pela inteligência, cultura, mas pelo seu humanismo. Que bom se todos os políticos tivessem o perfil de Bisol”.

Quando era juiz também publicava poemas e artigos na imprensa. Também participava como gremista. Era vice-presidente do clube e freqüentava os programas esportivos. “O Grêmio perdia muito e os gremistas não queriam ir para a televisão na época. Então, eu ia”. A coisa ficou tão repetida que o convidaram para fazer uma crônica diária de cultura e esporte na TV Educativa.

“Aí, houve reclamações, porque eu não tinha o curso de jornalista. Alguns me defenderam, como o Cândido Norberto”. Então, resolveu voltar à universidade, junto com o filho Jairo. Acha difícil retornar à comunicação. “O pessoal me convida, depois vem me dizer: ‘não podemos, porque não permitiram’. Se alguém pensa em me levar de volta, o poder central da mídia trata de impedir ostensivamente”.

Mas ele diz que hoje isso não tem nenhuma importância. Fez um programa de rádio na Bandeirantes, mas durou pouco, porque houve pressão. “Não por causa do episódio, mas porque ajuizei as ações”. O ex-senador não tinha dinheiro para processar todos os veículos que o difamaram e escolheu, por isso, os mais representativos, dos lugares mais importantes: Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Não sabe quantos jornais participaram daquela campanha. “Nem queria fazer as ações, meu filho é que insistiu”. Então, mais uma vez, decidiu lutar pela justiça. Para ele, “a melhor forma de conhecer a justiça é ser objeto de uma injustiça”.

Bisol afirma que a mídia se caracteriza pela falta de profundidade, lida com o transitório e ela é transitória. “Não deixa marcas”.

Bisol conhece o Brasil de ponta a ponta, embora não goste de viajar. Foi a política que lhe permitiu isso. Mas nunca saiu do Brasil. “Não gosto de contato superficial. O melhor descanso para mim é a música e o cinema”. Mas também não freqüenta muitas salas porque não tem tempo, talvez por isso tenha instalado um mini-cinema em seu apartamento, onde se dedica a ver filmes e partidas de futebol.

E há em Bisol outros interesses. “Eu gosto dos outros. Não tenho possibilidade de odiar. Também não tenho inimigos. Há pessoas que se consideram minhas inimigas; quanto a isso, não posso fazer nada”. É essa conduta que lhe garante a serenidade necessária para continuar a vida.

Juarez Pinheiro, vereador pelo PT em Porto Alegre, ingressou na política estimulado por Bisol. Eles se conheceram em 1982, quando Bisol era candidato a deputado estadual e Pinheiro estudante de Direito em Rio Grande. Não era filiado a nenhum partido e integrava o Diretório Acadêmico da Universidade. “Ele foi lá fazer uma palestra e aí eu o descobri”, depõe Pinheiro. O então estudante e um grupo de pessoas acharam que aquela era uma candidatura importante e fizeram a campanha na cidade. Resultado: Bisol foi o segundo deputado mais votado em Rio Grande, mesmo tendo ido lá apenas uma vez. Esse episódio também marcou a entrada de Pinheiro na política.

Depois de formado, ele veio para Porto Alegre e logo tratou de estreitar os laços com o deputado. Foi seu assessor e entrou para o PSB. “Conviver com ele foi uma das coisas mais impor-tantes de minha vida, menos pelo excelente conhecimento jurídico que ele tem e muito mais pelo seu senso de humanidade, de respeito às pessoas, principalmente as mais pobres, talvez em face de sua origem, de onde conseguiu escapar”. Para Pinheiro, o que marca em Bisol é sua aguda análise da realidade social e sua forma contundente e às vezes escrachada de enfocar os paradoxos sociais e as injustiças.

ÍNTEGRO – “Às vezes isolado, sozinho no Senado, mas com uma tamanha força de argumento, conhecimento, com toda aquela qualidade de análise, ele conseguia inverter situações impossíveis”. No período do impeachment do ex-presidente Fernando Collor, Bisol conseguiu retratar aquela etapa da história, com um trabalho importante para que Collor fosse retirado. Tentou fazer o mesmo na CPI da Corrupção. “Mas aí mexeu num abelheiro institucionalizado no Congresso Nacional e emblematizou-se como uma pessoa extremamente perigosa ao status quo”, ressalta Pinheiro. Naquele período, o senador chegou a correr risco de vida. Por seis meses, andou com quatro guarda-costas. Conseqüência das denúncias que fez contra colegas envolvidos em ne-gócios escusos. Bisol sempre foi polêmico. Deputado, foi dos primeiros a denunciar um processo corruptório na Assembléia Legis-lativa. “Isso gerou sérios problemas, inclusive entre seus pares do PMDB”, lembra o vereador.

Juarez Pinheiro acredita que a perda da candidatura a vice pelo amigo foi muito dura para ele. “Porém, nada inesperado, em face da postura no Senado. Os setores conservadores articularam-se de forma orgânica”, comenta. Há quem denuncie a existência de um centro de informações que atuou em todo o Brasil com o ob-jetivo de desmoralizar Bisol. A arma usada foi a mídia. Esses setores começaram a se articular quando o senador fez um discurso justificando a violência dos mais pobres. Para ele, compreensível, por se tratar de legítima defesa.

“Quem perdeu com a renúncia de Bisol foi a cidadania, que tinha nele um de seus maiores baluartes, para enfrentar o marketing do poder”, acentua o petista. Pinheiro admira a astúcia, o dom do improviso do amigo. “É brilhante orador, com uma técnica e uma bagagem cultural vasta”. Mas principalmente a capacidade de perdoar, de transigir. Um exemplo disso é Leonel Brizola que, em 1994, não queria sequer subir no mesmo palanque que o socialista. Bisol respeitava isso e não desafiava o pedetista. “Hoje, eles se conversam ao telefone”, testemunha Pinheiro.

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