Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 018 | Ano 2 | Mar 1998
L. F. VERÍSSIMO

“Pocker face”

Veríssimo

“Pocker face”

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Não há porque temer uma fujimorização do Éfe Agá. O Fujimori é que deve estar pensando seriamente em fernandohenriquezar. Da próxima vez não fechará o Congresso, o que sempre pega mal. Economizará incômodo e gasolina de tanque deixando o Congresso aberto mas desmoralizado, e governando no seu vácuo. Éfe Agá inventou a fujimorização virtual, que é melhor do que a real porque pode ser feita e negada ao mesmo tempo. Usa o “jogo democrático” da negociação política com o parlamento e quem, salvo um preciosista, poderá dizer onde termina a barganha legítima e começa o suborno? A própria barganha ilegítima tem defensores sérios. Éfe Agá seria apenas um realista lidando com uma classe política notoriamente viciada, adotando seus meios para fins nobres. Mas no processo destrói a pouca esperança que restava de qualquer regeneração das nossas práticas. Afinal, se USP e cangaço ensinam a mesma coisa, de onde virá a salvação?

Pôquer

Ninguém conhece a alma humana melhor do que um jogador de pôquer. A sua e a do próximo. Numa mesa de pôquer o homem chega ao pior e ao melhor de si mesmo, e vai da euforia ao ódio numa rodada. Mas sempre como se nada estivesse acontecendo. Os americanos falam do “poker face”, a cara de quem consegue apostar tendo um “Royal Street Flush” ou nada na mão com a mesma impassividade, embora a lava esteja turbilhonando lá dentro. Porque sabe que está rodeado de fingidos, o jogador de pôquer deve tentar distinguir quem tem jogo de quem não tem e está blefando por um tremor na pálpebra, por um tic na orelha. Ou ultrapassando a fachada e mergulhando na alma do outro. Não se trata de adivinhar seu caráter. Não é uma questão de caráter. O blefe é um lance tão legítimo quanto qualquer outro no pôquer. Os puros são até melhores blefadores, pois só quem não tem culpa pode sustentar um “poker face” perfeito sob o escrutínio hostil da mesa. Há quem diga que ganhar com um blefe supera ganhar com boas cartas e que é no blefe que o pôquer deixa de ser um jogo de azar, e portanto de acaso, e se torna um jogo de talento.

Já fora do pôquer o blefe perde sua respeitabilidade. É apenas sinônimo de engodo, geralmente aplicado a pessoas que não eram o que pareciam ou fingiam ser. A história dos presidentes do Brasil desde Jânio tem sido uma sucessão de blefes. Jango também foi um blefe, na medida em que aparentava ter um pôquer que não tinha. O golpe de 64 foi um blefe para quem acreditou nele. Tancredo foi um blefe involuntário. Sarney não foi um blefe completo porque ninguém esperava que ele fosse muito diferente. Collor foi um blefe deliberado que mantém até hoje a versão política do “poker face”, que é uma cara de pau sustentada mesmo sob a ameaça do ridículo.

E chegamos à social-democracia brasileira no poder, que pode até estar agradando a muita gente mas é outro blefe em relação às expectativas que criou e ao que podia ter sido. Ou talvez esse blefe tenha uma história antiga, e a gente é que não tinha notado.

Cachorro

O marido chega em casa e descarrega na mulher sua revolta contra o patrão, a mulher descarrega no filho sua inconformidade com o marido, e o filho chuta o cachorro, que não pode nem morder o patrão para completar o ciclo. A esquerda brasileira é um pouco como o cachorro nessa clássica corrente da frustração: apanha mesmo quando não tem nada a ver com a história.

Pedras do muro demolido de Berlim foram atiradas com alegria vingativa na esquerda brasileira, como se ela estivesse no poder na Europa Oriental. A privatização das estatais esta sendo vendida como uma correção no rumo errado que a esquerda, de alguma maneira, impôs ao país, quando a estatização da economia começou no governo filofacista do Estado Novo e aumentou no governo inaugurado em 64 – cujo primeiro chefe do planejamento, nunca é demais lembrar, foi o Roberto Campos. A esquerda brasileira pode muito bem se sentir como aquela heroína difamada de Molière que sofria as desvantagens sociais de uma má reputação sem ter passado pelo prazer de adquiri-la. Se ao menos tivesse tido um gosto do poder equivalente à influência que lhe atribuem…Mas não há, na história do Brasil, um único episódio em que a esquerda teve poder o tempo suficiente para cometer os pecados que está pagando. Ela podia até reivindicar o poder só para errar bastante e justificar, retroativamente, o castigo.

De acordo com a sentença simplista, são só gastos com as estatais que impedem o governo de investir em saúde, educação, etc. Como todo mundo sabe que estatais são coisas de socialistas obsoletos, está explicado: a responsabilidade pela dívida social do Estado com a Nação é da esquerda. A esquerda também é culpada da aglutinação dos conservadores no centrão que nos desgoverna desde sempre. Ou seja, a esquerda é responsável pela direita.

A única vantagem da esquerda brasileira sobre o cachorro chutado é que, como vive dividida em facções, tem o consolo de poder morder a si mesma. Para se vingar.

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