Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 018 | Ano 2 | Mar 1998
EDITORIAL
EDITORIAL

Tragédia anunciada

Uma rapaziada alegre estava chateada e não gostou de um outro rapaz que passeava por uma rua da praia de Capão da Canoa. Decidiu que deveria bater no garoto e exercitar suas práticas em artes marciais. O rapaz morreu com o crânio estourado e a turminha saiu do anonimato nas páginas policiais, designada de gang da Praça da Matriz. Com o escândalo da violência soube-se que a rapaziada, entre a qual muitos menores de idade, era filha de gente importante, personalidades públicas.

Mais recentemente, outro grupo de jovens enfastiados, moradores de Brasília, resolveu brincar de Nero e atear fogo num mendigo que afinal de contas não serve para nada. Não fosse um erro de alvo, talvez o caso nem tivesse chegado à imprensa. O mendigo não era um miserável de rua e sim um outro humilhado, um índio pataxó que participara de uma manifestação e de uma audiência com os poderes. Os jovens em questão são filhos de gente importante da capital federal.

Dois fatos de um mesmo fenômeno contemporâneo: a ação de gangs. Não deveria surpreender mas admira a estratificação social desta gurizada: é um pessoal bem confortado, com dinheiro, casa, saúde, comida, roupa da moda e boas escolas. Mas muito mal educado, pelo que se vê, não apenas nas ruas, mas dentro dos muros dos próprios colégios que parecem indiferentes à educação para a cidadania, mais preocupados com o negócio do ensino.

Semelhante flagrante em sala de aula revela alunos arrogantes, intolerantes e agressivos. Dotados de poderes indiscriminados, esses jovens de 14, 15, 17 anos, não apenas chegam ao ponto de humilharem os professores, mas a patrocinarem até mesmo suas demissões.

A conexão entre a violência praticada por jovens ricos e a indisciplina entre os estudantes de classe média e alta, tema da reportagem desta edição, não é arbitrária. Em maio de 97, a Redação de Extra Classe soube de um caso numa tradicional escola de Porto Alegre. A partir de então passou a acompanhar o assunto, conversando com professores, educadores, cientistas sociais e psicanalistas. No relato dos professores verificou-se verdadeiras ocorrências em escolas de Porto Alegre. Notou-se que, com algumas exceções, os alunos são tratados na condição de clientes e as escolas transformam-se em prestadores de serviços, sem qualquer compromisso com um projeto educacional voltado à formação ética e moral.

Sob a égide dos programas de qualidade total e da predominância do produto ensino sobre a função social da educação, o que conta é a disputa do aluno-cliente, que deve ficar satisfeito com a mercadoria. Nesta condição, o ensino deixa de ser reflexão e produção de conhecimento para se tornar um objeto de consumo que equivale a bons equipamentos e preparação técnica dirigida exclusivamente à disputa de mercado. É como se os centros de pesquisa abandonassem a pesquisa experimental e se dedicassem somente à pesquisa aplicada àquelas áreas industriais imediatamente mais lucrativas.

Foi uma reportagem difícil de realizar. Exigiu paciência e um trabalho intermitente de pesquisa. Uma das dificuldades foi conseguir o depoimento dos professores, receosos de represálias. Até o final de 97 não se tinha nenhum caso capaz de romper o anonimato. Quando a professora Márcia, da Escola Província de São Pedro, foi demitida por justa causa, em virtude da indisciplina de uma aluna, obteve-se a primeira situação fora do off.

A investigação jornalística deste quadro produziu inúmeras reflexões, como o abandono da juventude e da adolescência. Mas, talvez, uma das mais relevantes seja aquela que constata a substituição da escola autoritária por uma escola irresponsável, exatamente numa época em que a estrutura familiar também deixou de ser uma referência moral significativa. Há 30 anos, quem não aprendesse certos valores em casa, obrigatoriamente aprenderia na escola. Hoje, a escola está absolutamente descompromissada com valores humanos universais. Evidente que o resultado disso é grave. Envolve drogas, violência e ausência de qualquer parâmetro de sociabilidade. Mas donos de escolas, pais e poder público parecem ignorar que o professor pode ser a vítima imediata, mas a tragédia anunciada é muito maior.

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