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Nº 021 | Ano 3 |Mai 1998
MOVIMENTO
MOVIMENTO

O que fazer?

Valéria Ochôa

O 1º de maio sempre foi dia de luta para os trabalhadores. Neste ano de 1998, mais do que nunca requer a busca de energia e respostas a novas situações. O avanço nas taxas de desemprego e da informalidade no trabalho têm colocado um desafio urgente para as entidades sindicais e demais instituições coletivas na virada do próximo milênio: a organização dos excluídos do mercado de trabalho.

Este não é um problema que vai ser resolvido de um ano para outro, segundo o sociólogo Carlos Winckler, 46 anos. “Mas é urgente que se pense e tome iniciativas neste sentido”, assegura. Para isso, o sociólogo diz que as entidades devem reavaliar toda a política econômica dada, estabelecer políticas públicas, de maneira a induzir a formação e reestruturação novamente do mercado de trabalho. “Têm que pensar na reorganização não só daqueles que estão dentro do mercado de trabalho, mas nos que estão na margem”, destaca. “Os sindicatos têm obrigação de colocar alternativas, pensar a relação com a informalidade, com o terceirizado”.

Inclusão – A inclusão dos terceirizados, das micro, pequenas e médias empresas e dos trabalhadores da economia informal na luta por uma sociedade justa é uma medida indispensável neste processo, na avaliação do sociólogo Ângelo Dal Cin, professor da Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos) e coordenador da Secretaria de Comunicação Social do Sinpro/RS. “Os sindicatos têm de abandonar o discurso apenas para dentro de si”, destaca. “Não basta lutar isoladamente pelos interesses da categoria. A cidadania não será exercida por esta ou aquela categoria ou um grupo dela, mas pelo pelo conjunto”.

Carlos Winckler diz que o sindicalismo clássico, com aquelas esperanças do final da década de 70, esvaziou. “O peso político do sindicato diminuiu e há uma crise de identidade porque é uma outra composição de forças sociais que surge”, alerta. “E é este o drama da esquerda no Brasil, hoje”.

Winckler lembra que, entre 1930 a 1970, o trabalho informal equivalia a 20% da População Economicamente Ativa (PEA) e havia uma expansão da condição de trabalhador assalariado com carteira assinada. “Existia uma certa homogeneização do mercado de trabalho”, observa o sociólogo. “Era um mundo em que ainda havia um sonho, de construir um capitalismo reformado no Brasil”.

Nos anos 80, este processo começou a sofrer um certo saturamento. “Há um esgotamento no processo de substituição de importação, de crise de financiamento”, avalia Winckler. Com a abertura do mercado no início dos anos 90, as coisas de complicaram. O surgimento de um novo mundo do trabalho pode ser identificado também pelo crescimento do desemprego, da informalidade.

Se nos anos 80 os assalariados (sem discriminar com ou sem carteira assinada) correspondiam a 62,8% da PEA, em 96, este percentual caiu para 58%, sem considerar os trabalhadores sem registros e os desempregados. Diminuiu o número de pessoas com carteira assinada, cresceu a informalidade, tornando a estrutura do mercado mais heterogênea. “E a identidade do sindicato ainda está ligada à noção de homogeneização do trabalho, a não informalidade”, destaca Winckler. “Se o número de sindicalizados já era pequena, tende a cair e as entidades estão lutando pela sobrevivência”.

Financiamento – O discurso de direita de que este processo é inevitável é combatido por Winckler. “Não é inevitável e nem é a comunidade solidária que vai resolver”, assevera. “No plano institucional tem de se lutar por uma política industrial, estabelecer controle da abertura comercial e sobre a questão cambial. Mas também tem de se pensar na organização da sociedade civil”. Para ele, é através de mecanismos regionais, municipais, que se pode começar um financiamento destas formas de produção. “Se puder começar no governo federal, melhor, mas até lá as pessoas vão morrer de fome”.

Desconstituir o discurso neoliberal onde o princípio fundamental é o da não existência de interesses comuns, de que o que existe são indivíduos com interesses diferenciados, é hoje a tarefa primordial das esquerdas, na avaliação de Ângelo Dal Cin. “A única garantia na construção de uma nova sociedade é a reconstrução de utopias a partir desta nova estruturação do capitalismo, apontando suas contradições e aprofundar a democracia a partir dos patamares já existentes e não o retorno às formas autoritárias de comando de qualquer instituição. “Por enquanto estamos vivendo o fetiche da moeda, da estabilidade a qualquer preço. “Enquanto isso o Brasil vai se esfarelando”, adverte Winckler.

Educadores americanos e os desafios sindicais

Os debates do 16º Congresso da Confederação dos Educadores Americanos, realizado de 27 a 29 de abril, em Quito, Equador, revelaram a precariedade da educação em vários países da América. Sob o tema Desafios sindicais e educação para o século XXI, o encontro reuniu representantes de entidades de trabalhadores em educação do Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, Cuba, Costa Rica, Equador, Canadá, Guatemala, Honduras, Martinica, México, Nicarágua, Porto Rico, Venezuela e Uruguai.

“Os depoimentos de educadores dos outros países davam a impressão que estavam falando sobre o Brasil”, relata o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), Augusto César Petta. Além de Petta, a Contee esteve representada no congresso pelos diretores Wellington Gomes e João Luiz Steinbach, também coordenador da Secretaria de Política Sindical do Sinpro/RS.

Petta diz que o Brasil se destaca no que se refere a organização dos trabalhadores em estabelecimentos de ensino privado. Na maioria dos países, não há sindicato de professores e de trabalhadores de administração nas escolas privadas, apesar da tentativa de criá-las. Um importante papel em relação à organização destes trabalhadores.

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