Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 021 | Ano 3 |Mai 1998
ESPECIAL
ESPECIAL

Utopia Balzaquiana

Renato Hoffmann e Luiz Carlos Barbosa

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Porto Alegre é uma cidade evocativa. O sol de outono é indolente nas suas ruas e praças. Há 30 anos esta atmosfera era ainda mais acentuada, havia mais casarios e apenas um viaduto, braço da Duque de Caxias sobre uma ladeira de dois lados, cheia de ruas transversais. Esta é a situação geográfica, topográfica da Borges de Medeiros, e talvez explique a decisão tática das lideranças estudantis para o itinerário da passeata, nestas quadras que seguem da Jerônimo Coelho em direção a Rua dos Andradas e à Praça XV de Novembro. Porto Alegre era assim para o Rio Grande do Sul.

O desenho urbano mudou. Naquele tempo, a Praça do Portão saia da Riachuelo em direção à esquina da Duque com a João Pessoa. Era maior e ficava na frente do quartel da temida Polícia do Exército, que se estendia até a André da Rocha. Era área arriscada. O centro era mais adequado para a manifestação. Nestas tardes de 1968, os calouros, os bichos, com rostos pintados, entravam na universidade, que na época significava URGS (ainda sem o “F”), no compasso das palavras de ordem que traziam dos colégios Júlio de Castilhos, Pio XII, Sévigné, Parobé e Infante D. Henrique. Com extravagância, serviam guaraná Champagne num urinol, ofereciam aos passantes e anunciavam que era presente da ditadura militar. Os estudantes de Porto Alegre combatiam assim a ditadura do Brasil.

O terreno do mata-borrão, uma construção de madeira com esta forma, que ficava na esquina da Andrade Neves com a Borges, em frente ao Cine Vitória, onde até poucos dias estava a matriz da extinta Caixa Econômica Estadual, muitas vezes serviu de refúgio na hora da correria, já que as bolinhas de gude não arrefeciam a ação da cavalaria da Brigada Militar. E assim Porto Alegre e seus estudantes compartilhavam as mesmas expectativas políticas e existenciais dos rebeldes de Paris, naquele explosivo maio de 1968.

Surpreendentemente, nesta época, conforme censo de 1969, a capital do Rio Grande do Sul já possuía mais de 1 milhão de habitantes – 1.055.380. Alguns pobres até usavam gravata e uma fatiota meio gasta. Os bondes da Carris cruzavam a cidade, provocando faíscas no fios e tinindo sob os trilhos. Era a condução do povo trabalhador, que morava no IAPI, na Glória, no Partenon. Até mesmo a pobreza tinha mais dignidade.

A população das ilhas do Guaíba que estudava ou trabalhava no centro, vinha de barco e descia numa pracinha no lado da Usina do Gasômetro que, neste período, ainda fornecia energia para a cidade.

O porto de Porto Alegre era um porto sem muro. A Rua dos Andradas era a praia dos intelectuais e estudantes, que se misturavam aos bancários, funcionários públicos e jornalistas, em lugares que se chamavam Bar, Café e Restaurante. E tinham mesas, para conversar e ler a Folha da Tarde, que circulava de tarde. Nos arredores da URGS, particularmente no cruzamento da Sarmento Leite com a Osvaldo Aranha, em frente a Faculdade de Arquitetura, afirmava-se a Esquina Maldita do Alaska, depois do Estudantil, do Marius e de um outro bar que fechou mais tarde com o nome de Copa 70.

O território era minguado, mas a alma da juventude era graúda. Nestes fragmentos, os jovens gaúchos que viviam em Porto Alegre se fizeram companheiros de viagem de rebeldia e ruptura de tantos outros espalhados pelo mundo: o espírito revolucionário que sacudia e vinculava em uma só expectativa, Paris, Vietnã, Cuba, Rio de Janeiro, Washington, Praga, São Paulo, insurgia-se também em Porto Alegre, desafiando a di-tadura militar e dando a sua contribuição para reinventar a política, a sociedade e a vida.

Na verdade, o Maio de 68 nem foi só maio e tampouco foi apenas 1968. O ano e o mês assinalam o clímax da agitação estudantil em Paris, que engajou o movimento operário francês, uma ampla parcela da população e intelectuais como Sartre. Sob a liderança do estudante alemão Daniel Cohn-Bendit, de apenas 23 anos, as barricadas parisienses transformaram-se, na realidade, em ícone de um processo explosivo que caracterizou os anos 60, sucedeu-se nos mais distintos lugares do mundo e sob as mais diversas bandeiras.

O itinerário humano e territorial foi particular, mas a rebeldia a mesma. Rebeldia que exaltava o internacionalismo da revolução contra a política conservadora dos partidos da esquerda tradicional, especialmente os partidos comunistas, sua cultura sisuda e suas teses de conciliação de classes no âmbito nacional. Rebeldia contra a estética bem-comportada e a moral repressiva burguesa. Rebeldia contra as guerras e as ditaduras. No Rio de Janeiro, quem puxava as passeatas era o quase candidato do PT ao governo, nas eleições deste ano, Vladimir Palmeira, em São Paulo, era José Dirceu, atual presidente nacional do PT. E, em Porto Alegre, a liderança estava com ninguém menos do que o atual prefeito da cidade, Raul Pont, do PT, e o deputado estadual petista Flávio Koutzii, então estudante de economia e um dos dirigentes da dissidência do PCB.

O programa da Revolução

O programa desta revolução? Jamais foi escrito. Nas ruas de Praga, na Tchecoslováquia, lutava-se contra o stalinismo e a invasão dos tanques soviéticos, nos Estados Unidos contra o racismo e a guerra do Vietnã. No Vietnã enfrentava-se o perverso inimigo ianque com heroísmo e sucesso. Cuba era o outro exemplo de resistência e, apesar do assassinato de Che Guevara em 1967, na Bolívia, inspirava o foquismo – isto é, focos guerrilheiros localizados – irradiando a Revolução na América Latina. Na China, a Revolução de Mao Tsé-tung caminhava a passos largos e era um paradigma alternativo à burocracia soviética.

No Brasil lutava-se contra a ditadura militar, a esse tempo comandada pelo general Costa e Silva, numa queda de braço que logo depois esmagaria qualquer resistência democrática, jogando parte das organizações de esquerda à alternativa da luta armada, que logo fracassou com a repressão brutal. Antes que isso acontecesse, aquele outono brasileiro teve tempo de imprimir sua marca na história contemporânea do país. Enquanto Roberto Carlos espalhava melosas e ingênuas canções nas tardes de domingo, a maioria dos artistas era parceira do movimento de uma maneira autônoma, atomizada, contraditória, fragmentada.

Com exceção dos partidos de esquerda na clandestinidade e das organizações estudantis ligadas a eles não havia um programa comum a ser seguido. As dissidências do PCB atravessavam o abalo da derrota e buscavam se afirmar política e ideologicamente, algumas delas, nas teses trotskistas – Léon Trotski, o companheiro de Lênin da Revolução Russa, banido quando Stálin subiu ao poder.

“É proibido proibir”

A contracultura inaugurada pelos hippies norte-americanos, emblematizada pela expressão paz e amor e pela rebeldia estéril de Jimi Hendrix e Janis Joplin, no Brasil, soava pura alienação, mas mesmo assim, o comportamento descompromissado com o status quo afrontava a ditadura. A estética do jeans desbotada, dos cabelos e saias longas ganharam ressonância com a Tropicália da banda dos Mutantes de Rita Lee. E o pessoal da Tropicália, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, ao mesmo tempo em que desprezava certas referências da Bossa Nova e seduzia quadros como Nara Leão, fazia acenos amigáveis à turma da jovem guarda.

Os festivais da canção tinham lugar para todos, ainda que a vaia fosse sintoma de alienação, como disse Caetano Veloso depois da reação da platéia a sua música “É proibido proibir”. Este slogan que, para os jovens franceses, era quase um princípio fundante da rebeldia, no Brasil da ditadura militar era apenas inconseqüente, ainda mais quando se podia erguer o punho e cantar “Caminhando”, de Geraldo Vandré. Leila Diniz tornava-se a musa da sensualidade e modelo para as jovens brasileiras que embarcavam no feminismo e buscavam a liberdade sexual. O teatro e a literatura eram mais engajados. Antônio Callado, Ferreira Gullar eram os emblemas dos escritores militantes contra a ditadura militar que Nelson Rodrigues elogiava nas suas crônicas. Encena-se a dramaturgia de Brecht e o diretor Zé Celso Martinez desafiava o Comando de Caça aos Comunistas e levava ao palco “Roda Viva”, a peça que fez de Chico Buarque compositor da resistência. No Cinema, Glauber Rocha, ainda um rapaz, rodava “Terra em Transe”.

Em Porto Alegre, os teatros de Arena, nos altos do Viaduto Otávio Rocha, e Clube de Cultura, na Ramiro Barcelos, eram a trincheira que, na URGS, eram principalmente os centros acadêmicos da Filosofia e da Arquitetura – os mesmos que, dez anos depois, em 1978, no governo João Figueiredo, começaram a consolidar a retomada da luta pela redemocraticazação do país, pela anistia aos presos e exilados.

Anos de chumbo

O assessor parlamentar da bancada do PPS na Câmara de Vereadores, Cláudio Weyne Gutierrez era militante estudantil em 1968. Para ele, as manifestações estudantis daquele ano no mundo foram o resultado do acúmulo de anos anteriores. Gutierrez estudava no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, a maior escola pública do Estado. Começou a participar do Grêmio Estudantil do Julinho junto com o amigo Luiz Eurico Tejera Lisboa, o Ico. O corpo de Luiz Eurico seria encontrado em 1979 e reconhecido como o primeiro de uma longa lista de militantes assassinados durante os anos de chumbo.

O movimento estudantil, até então dominado pelo PCB, passa a se referenciar nas dissidências, no PCBR, na POLOP, POC, MTR, AP (organização ligada à Igreja Católica) e Possadistas (grupo trotskista inspirado no teórico argentino J. Posadas). Dois anos antes, o VI Congresso do PCB, havia exposto o “racha” interno e as dissidências passado a se organizar em grupos. A juventude rompera definitivamente com o partido e criara novas organizações. A base da Dissidência-RS eram os colégios Julinho, Parobé e Infante D. Henrique.

Em 67, as Uniões Estudantis e os Centros Acadêmicos foram declarados ilegais. Os universitários reagiram, fundando o DCE Livre. Em seguida ao fechamento do Grêmio Estudantil do Julinho, em abril, os secundaristas iniciaram um período de grandes passeatas. “Instalamos o Grêmio Livre numa barraca em frente à praça, interrompíamos as aulas a todo instante e promovíamos assembléias e passeatas”, lembra Gutierrez. Ele e Ico Lisboa acabaram expulsos do Julinho.

Com o reorganização da UNE, em 68, o movimento estudantil se recupera. As principais lutas eram contra os acordos MEC-Usaid – a Reforma do Ensino – e pela gratuidade do ensino. Os estudantes também se rebelavam contra a proibição do uso de minissaias e de cabelos compridos nos colégios. As posições históricas da entidade, a favor das reformas de base, e a rebelião natural dos jovens contra o autoritarismo e sua abertura às novas idéias contribuíram para a retomada das manifestações.

Os estudantes fizeram campanha de abaixo-assinado pedindo a reabertura dos Grêmios. Gutierrez e Ico acabaram presos, processados pela Lei de Segurança Nacional (LSN) e, dois anos mais tarde, condenados sob a acusação de tentativa de reabertura de entidade ilegal.

Era época de guerra no Vietnã, da Organização Latino Americana de Solidariedade (OLAS), do livro Revolução na Revolução, de Régis Debray, do assassinato de Che Guevara na Bolívia, e dos Tupamaros uruguaios. A palavra de ordem era o foco guerrilheiro. Gutierrez passou a integrar uma organização foquista. “Nossa missão era conseguir armas e uma área rural para o foco; fazer contato com outras organizações e promover ações revolucionárias na cidade”, descreve. Ativistas em tempo integral, os militantes se armavam através de ações de massa e de “desapropriações”.

Mataram Edson Luís

Já organizados, esses militantes mantinham relações com grupos guerrilheiros de São Paulo, como a VPR, do capitão Lamarca, e a ALN, de Carlos Marighela e a fração armada da VAR-Palmares. “Nosso arsenal causava inveja até à VPR paulista. Tínhamos metralhadoras, pistolas, rifles e revólveres.” O “aparelho” era um apartamento no bairro Bom Fim. Nos encontros para troca de experiências e treinamento de militantes aconteciam doações de material de guerrilha, como dinamite. “O foquismo foi uma doença social”, declina Gutierrez.

O movimento estudantil era o principal celeiro de ativistas. Em 67, a esquerda chegou à direção da União Gaúcha dos Estudantes (UGES). Os guerrilheiros tinham a simpatia do presidente da entidade, Andrés Fávero. Porém, em outubro de 68, no Congresso de Santa Rosa, a direita retomou a entidade com apoio aberto da repressão e do governo estadual. Simultaneamente, em São Paulo, a polícia dissolvia o congresso clandestino da UNE e prendia seus principais líderes. O movimento estudantil entrava em declínio.

A morte do estudante Edson Luís, em março de 68, inaugurou a fase das manifestações e da radicalização das ações de guerrilha. No dia 21 de abril, feriado de Tiradentes, cerca de 40 estudantes atiraram coquetéis molotov em jipes da Brigada Militar, em Porto Alegre. Eles enfrentaram as tropas de Choque e de Cavalaria com barras de ferro, estilingues e bolinhas de gude. “Nossos militantes eram menosprezados pelos grupos mais organizados e chamados de “Exército Brancaleone”, conta o ex-guerrilheiro.

Após um intervalo de calmaria, as ações foram retomadas. No final de junho, o encontro dos Grêmios Estudantis, no auditório Araújo Vianna, coincidiu com a sexta-feira sangrenta, no Rio de Janeiro. “Antes de cada manifestação, formava-se um ambiente de guerra civil, os órgãos da segurança pública espalhavam o terror pelas rádios.” Em agosto, ainda realizaram mini-passeatas em paradas de ônibus e comícios-relâmpago no centro da cidade.

No segundo semestre, a repressão se intensificou, e as ações armadas refluíram. Em crise, as organizações guerrilheiras viveram um período de fusões e desmantelamento. Gutierrez entrou para um grupo ligado à VPR-SP. Ico foi para o comando estadual da Vanguarda Armada Revolucionária (VAR). O comando da VPR “caiu”, como se dizia na época, depois da espetacular fuga do capitão Lamarca de um quartel, no interior de São Paulo, com um caminhão cheio de armas. Gutierrez decidiu se esconder no Uruguai.

“A radicalização da época tinha justificativas que hoje não existem mais”, analisa. O movimento tinha motivações diferentes daquelas dos jovens franceses. A luta era contra a ditadura e os acordos MEC-Usaid. “O Maio francês e a Primavera de Praga só vieram somar àquela impressão de que uma revolução mundial estava acontecendo.”

Porto Alegre era uma cidade com tradição de luta política. A Legalidade, em 61, e a resistência ao golpe de 64 eram episódios recentes. Ainda havia bondes circulando e o Centro tinha uma agitada vida noturna. Os cafés e livrarias eram pontos de encontros e discussões políticas. Entre uma ação revolucionária e outra, a juventude levava uma vida normal. Namorava, ia aos cinemas, teatros, bares e boates. Também amavam os Beatles e os Rolling Stones, “curtiam” Chico Buarque, Tom Jobim e Geraldo Vandré, e torciam pelas músicas preferidas nos Festivais da Canção.

Era também a época dos Centros Populares de Cultura e as peças teatrais eram visadas pelos rivais de extrema-direita do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). O grupo, que já havia agredido e seqüestrado os atores da peça Roda Viva, em São Paulo, voltou a atacar durante a apresentação do espetáculo em Porto Alegre. Por isso, os militantes de esquerda eram escalados para fazer a “segurança” dos teatros Leopoldina, de Arena e do Departamento de Arte Dramática (DAD), da UFRGS.

O esgotamento da ação política abriu espaço para a discussão de temas ligados ao comportamento. “A sociedade era moralista, fomos uma geração de transição”, compara. ” Não tínhamos noção do potencial transformador de toda aquela efervescência”, constata Gutierrez.

Itinerário da Rebeldia

Estrela vermelha na Rua da Praia

Nos anos 60, o escritor Arnaldo Campos, hoje diretor do Instituto Estadual do Livro, tinha uma livraria na Rua da Praia, em frente à Praça da Alfândega. Era uma sala pequena, de sete metros de fundo por três de largura. No prédio centenário funcionava a sede municipal do Partido Social Democrático (PSD). O presidente do diretório era o professor Francisco Machado Carrion. Entre seus vizinhos estavam a Casa de Pianos Éboli e, logo adiante, o Clube do Comércio e uma confeitaria famosa na época. A Matheus funcionava 24 horas e seu proprietário orgulhava-se de ser o inventor da refeição em pé, rivalizando com aqueles estabelecimentos que tinham uma placa Bar, Café e Restaurante, que se chamavam Belo Horizonte, Montanhês, Neve do Sul, Dona Maria, Treviso. No balcão da Matheus, sem bancos, comia-se sanduíche de pernil. Era um reduto de boêmios, intelectuais, prostitutas que faziam ponto na rua Sete de Setembro e passavam por ali para uma refeição antes de ir para casa.

Campos abriu a livraria Vitória em 1961, e mudou o nome para Coletânea em 1964. Integrava o Partido Comunista do Brasil (PC do B) identificado com a linha chinesa e sob liderança de João Amazonas, um de seus clientes mais assíduos. A cisão do Partido Comunista Brasileiro (PCB), refletia as divergências entre União Soviética e China.

Na primeira semana de abril de 1964, após o golpe militar, a Vitória foi fechada. Campos e o sócio Brutu Gemignani tiveram de se esconder. Quarenta dias depois, a polícia fez a primeira de uma série de apreensões do material da loja – basicamente obras do pensamento marxista. Campos foi chamado a depor, ficou surpreso e ao mesmo tempo decepcionado, porque seu nome não constava nos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). “Naquele tempo, a repressão ainda estava muito desorganizada”, explica.

Entre os freqüentadores e clientes, a Vitória era conhecida como “Corredor de Pequim” ou “A Estrela Vermelha da Rua da Praia”. Era o ponto de encontro de intelectuais de esquerda e professores universitários. À exceção da Livraria Farroupilha, que ficava na rua Andrade Neves e pertencia ao PCB, não havia onde encontrar a literatura de esquerda. O nome Vitória era uma homenagem a uma editora de obras marxistas da época .

A Vitória não pode ficar sem nome

Logo após a reabertura da livraria, em Maio de 1964, Campos recebeu a visita de um oficial de polícia, que trazia uma ordem expressa: deveria mudar o nome do estabelecimento. O policial justificou: “afinal, os vitoriosos não foram vocês.” Campos e o sócio decidiram apenas retirar a placa da entrada. Apostavam que os fregueses fiéis manteriam a tradição da Vitória. Um mês depois, outro oficial voltou à livraria e determinou a colocação de um novo nome.

Surgiu ali a Coletânea, expressando a realidade do período. Diante da dificuldade de trabalhar com obras marxistas, o livreiro diversificou o acervo com romancistas como Mario Puzzo, Jorge Amado e Erico Verissimo. Também abriu espaço para obras consideradas “de direita”, entre elas um livro de Suzane Laban sobre Carlos Lacerda, que tinha na capa uma foice e um martelo e vendia bem. Numa das apreensões que se seguiriam, a polícia recolheu a obra, sem saber que nada tinha a ver com a esquerda.

Nos finais de tarde, o ponto de encontro da intelectualidade era na porta da livraria. Entre os freqüentadores e clientes estavam os atores do teatro Equipe, Lara de Lemos, Ítala Nandi, Mario de Almeida e Paulo Cézar Pereio, e o diretor Fernando Peixoto. Também freqüentavam o espaço os jornalistas da extinta Folha da Tarde (Caldas Júnior), P.F. Gastal, Ruy Carlos Osterman, Sérgio Jockymann e José Onofre. “Às vezes vinha tanta gente que era preciso fazer revezamento para entrar”, lembra Campos.

Com o aperto da repressão política, a livraria passou a funcionar como ponto de contato entre pessoas visadas. Havia até uma espécie de caixa postal para receber os recados. Essa atividade fez Campos ser citado com freqüência nos processos instaurados contra presos políticos.

O carioca Arnaldo Campos chegou a Porto Alegre em 1955, quando a cidade ainda era uma província mas já dava ares de metrópole. Ele sente saudade do tempo em que se podia atravessar a avenida Borges de Medeiros, olhando para o céu azul. Havia ainda poucos prédios altos e Campos enxergava o Guaíba da janela de seu apartamento, na rua Duque de Caxias. E do comissário de polícia que escrevia no Correio do Povo sobre os menores abandonados – todos devidamente identificados pelo nome – que dormiam sobre as lonas que protegiam as mercadorias no Cais do Porto.

TFP manda apreender livro erótico

Um dos focos de manifestações estudantis, em 1968, era o Restaurante Universitário da UFRGS, na avenida João Pessoa – ironicamente, hoje abriga um departamento da Polícia Civil. Os manifestantes daquele período ainda digeriam o impacto dos episódios de 1967, principalmente o assassinato de Che Guevara, na selva boliviana. Ninguém sabia o que aconteceria, caso a guerrilha chegasse ao poder na Bolívia, como havia chegado em Cuba. De qualquer maneira, a morte do Che foi um abalo na perspectiva revolucionária.

A partir daí, ganham força as teses reformistas. Afinal, se o Che, com toda sua experiência e carisma, havia fracassado era porque o caminho das armas seria inviável na América Latina. Os que pregavam a chegada ao poder pela via pacífica, através das eleições, eram chamados de revisionistas.

O Brasil atravessava um processo de crescente repressão política e de censura. O que fazia os militantes agirem era a indignação contra a falta de liberdade. Antes de 68, Campos distribuía em Porto Alegre o jornal A Classe Operária, órgão de divulgação do PC do B. O Colégio Júlio de Castilhos tinha tradição de rebeldia. Mas, segundo Campos, as manifestações de 68 em Porto Alegre não tiveram o mesmo vigor do Rio de Janeiro ou de São Paulo. “Talvez porque a experiência desses locais, e mesmo o Maio francês, não tiveram conquistas expressivas”, especula.

O que restou de mais significativo, avalia, foram algumas mudanças nos valores sociais. “Com o advento da pílula anticoncepcional, as mulheres passaram a freqüentar bares sozinhas e a reivindicar liberdade sexual”, aponta. A revista Cláudia, de circulação nacional, tinha uma colunista chamada Carmem da Silva, que influenciou o comportamento feminino. Muito admirada pelas feministas da época, e amiga pessoal de Campos, Carmem esteve diversas vezes em Porto Alegre e suas palestras atraíram centenas de mulheres.

Das inúmeras histórias sobre apreensões de livros na Coletânea, Campos destaca uma que envolve Carmem da Silva. A polícia recolheu a coleção “A Era Vargas”, do historiador Hélio Silva. Por coincidência, o autor estava em Porto Alegre, acompanhando a colunista, e ficou indignado com ação da polícia. Bem relacionado entre os militares, Silva levou Campos ao Rio de Janeiro para um encontro com o então ministro da Justiça, Mem de Sá. Em seu protesto ao ministro, Silva desabafou: ” não foi para isto que nós fizemos esta revolução.” O historiador havia apoiado o golpe, acreditando que o comunismo representava uma ameaça à liberdade de expressão. De repente, constatava que o regime que ajudara a criar estava aprendendo seus livros.

Academia de Ciências do Leprosário

Nessa altura, a maioria das editoras já praticavam a auto-censura. A exceção era a Civilização Brasileira. “O Ênio Silveira, dono da editora, era um cara tinhoso, tipo erva daninha”, compara Campos. “Em 68, fez cinco mil exemplares de um livro com textos escolhidos de Lênin, mas a polícia invadiu a gráfica e destruiu tudo.” Diante do autoritarismo, a literatura continua respondendo à necessidade de expressão. “O conto foi um gênero literário muito importante nesse período”, explica Campos. “O texto conciso levava mensagens para os bons entendedores.” Também despertavam interesse as obras de brazilianistas, como Thomas Skidmore.

A sobrevivência das editoras e livrarias passa a depender das publicações eróticas, ignoradas pelos militares. Um dos títulos mais vendidos no Brasil em 68, “Mulher Sensual”, trazia conselhos para esquentar o relacionamento sexual. No Rio Grande do Sul, vendeu cinco mil exemplares em menos de dois meses. Por pressão da Tradição, Família e Propriedade (TFP), organização de direita, o livro acabou proibido pelo Ministério da Justiça, mas continuou sendo distribuído com capas falsas.

Ávidos por textos engajados, os universitários liam Herbert Marcuse e Régis Debray, ou ainda os Diários do Che, editados pela Zahar. Os censores demoraram a perceber o conteúdo revolucionário dessas obras, o que permitiu sua livre circulação por algum tempo. Grupos de intelectuais reuniam-se no Bar Farroupilha, na esquina da Av. Borges de Medeiros com a rua Fernando Machado, para debater “A necessidade da Arte”, de Ernst Fischer. O local, apelidado de “Academia de Ciências e Letras do Leprosário”, era ponto de embarque da linha de ônibus que levava à Colônia de Itapuã.

Havia ainda os esquemas de comunicação com editoras estrangeiras, através de pessoas que viajavam à Europa. Alguns originais chegavam da França às mãos de um dos mais antigos livreiros de Porto Alegre, Edgardo Xavier, na Livraria Leonardo da Vinci, antes mesmo de serem editados.

Um tempo de ilusões perdidas

Os acontecimentos de 1968 tiveram início alguns anos antes, a partir dos “rachas” ocorridos no Partido Comunista Brasileiro (PCB). A maioria dos militantes das novas organizações que surgiam, como a Política Operária (Polop) e Ação Popular (AP), estavam indignados por terem sido mal orientados pelo Partidão. Antes de 1964, Luís Carlos Prestes costumava afirmar: “já temos o poder, só nos falta o governo.”

“Aquele foi, sobretudo, um tempo de ilusões perdidas. A avaliação de conjuntura indicava que o socialismo, mesmo controlado pelos reformistas, avançava em todo o mundo”, lembra o arquiteto Jaime Rodrigues, em 1968 vice-presidente do DCE Livre da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Os exemplos da China e de Cuba animavam os sonhos revolucionários e a vitória da URSS na corrida espacial, ao colocar um satélite em órbita antes dos norte-americanos, reforçava essa certeza. Paralelamente, o colonialismo dava sinais de esgotamento, com as guerras da Coréia e da Argélia. Para os jovens de 68, os golpes militares na América Latina eram indícios do desespero do capitalismo.”

Os anos seguintes ao golpe se caracterizam pela ruptura de padrões comportamentais em todos os sentidos: sexual, familiar e político. O poder absoluto dos pais sobre os filhos é questionado, a pílula anticoncepcional consolida a derrubada do tabu da virgindade. A transformação dos valores sociais atinge todos os campos e produz contradições. Mesmo para alguns jovens rebeldes de 68, só uma coisa podia ser mais aterrorizante que cair nos porões das forças de segurança. Era quando tinham de enfrentar o assédio de alguma namorada. “A gente ainda tinha uma cultura machista muito arraigada e ficava apavorado quando a proposta para transar partia das gurias”, lembra o arquiteto.

A frustração em relação à política fazia com que os jovens valorizassem mais os seus problemas. “Éramos uma sociedade mais urbana e Porto Alegre estava sintonizada com estas mudanças”, analisa Rodrigues. Artistas do Rio e São Paulo vinham para cá e se misturavam às pessoas comuns nas ruas e nos bares. “Vivíamos o impasse: ou continuávamos em frente, ou voltávamos à sociedade antiga. Não queríamos meios termos. Essa inquietação era o fermento para o movimento estudantil rebelde.”

Sem ousar lutar não há vitória

Um pouco antes, em 66, a esquerda conquistara os Centros Acadêmicos mais importantes de Porto Alegre, das faculdades de Arquitetura e de Filosofia da URGS, onde se forjaram lideranças como a do hoje deputado estadual Flávio Koutzii. Com o sufoco imposto aos sindicatos, as entidades estudantis eram a brecha que restava para as manifestações de protesto. Os Centros Acadêmicos sofreram intervenções periódicas, até serem declarados ilegais. Os estudantes mantiveram-se organizados, fundando o DCE Livre. Rodrigues foi eleito vice-presidente.

Em 67, o presidente Costa e Silva visitou Porto Alegre. Os estudantes saíram em passeata até o Centro, queimaram as faixas de saudação e foram cercados pelas tropas do Exército. No mesmo ano, outra passeata, desta vez próxima ao Palácio Piratini, degenerou em confronto com a Brigada Militar e os estudantes se refugiaram na Catedral Metropolitana. Em 68, a ocupação do Restaurante Universitário (RU), em protesto pelo preço da comida, terminou com o cerco da Polícia do Exército, mas não chegou haver confronto. Sob a liderança do atual prefeito Raul Pont e de Flávio Koutzii, os estudantes negociaram a saída do local.

Rodrigues foi preso em outubro de 68, quando retirava pacotes de jornais da União Nacional dos Estudantes (UNE), na clandestinidade desde 64, na antiga rodoviária. Ele próprio ajudou o delegado de plantão a justificar a prisão e a determinar o tempo legal de detenção. Isto seria impossível após o Ato Institucional nº 5, baixado em dezembro de 68. O AI-5 instituiu o terror de Estado e cortou a energia rebelde de setores da classe média. “Dali para frente, tornou-se comum encontrar um amigo num dia e, no outro, ficar sabendo que ele havia sumido”, conclui Rodrigues.

Muitas reivindicações de 68 hoje são gozadas pela juventude que nem sabe do que se fez naquele tempo. Outras aparentemente ficaram ainda mais distantes nestes tempos de Aids e neoliberalismo. Mas uma coisa é certa, diz o historiador Mário Maestri, protagonista desta história, no artigo “Brasil, 1968: o assalto às nuvens”, a derrota de 1968 pesa poderosamente sobre a vida nacional: “Aquelas jornadas memoráveis são geralmente lembradas para assinalar os erros, para sugerir que jamais se devia ter combatido, que a batalha fora perdida de antemão – como é o caso de Zuenir Ventura, em seu best-seller 1968: o ano que não terminou”. O mesmo está fazendo a maioria da imprensa brasileira, como se o Maio de 68 fosse um episódio ingênuo, arroubos de juventude. O que esquecem de dizer é que a História não admite esses conceitos rebaixados. E, apesar dos Fukuyamas e tantos outros farsantes, a História ainda não terminou e que, segundo Maestri, “neste maio de 1998, permanece singularmente pertinente a concepção de trinta anos atrás, que sem ‘ousar lutar’, não é possível vencer”. Independente das interpretações o fato é, como definiu o escritor Tabajara Ruas em depoimento à imprensa, “o mundo ocidental ficou um pouquinho melhor depois de maio de 68. Ele tinha 25 anos, era estudante de arquitetura e militante, mais tarde caiu e conseguiu escapar para o exílio. Trinta anos depois ele tem uma certeza: “tínhamos um projeto para o mundo. Éramos felizes (apesar da ditadura que assassinava e torturava, do temor de ser preso). Quem estava do outro lado nunca vai saber o que foi isso.”

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