Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 023 | Ano 3 | Jul 1998
L. F. VERÍSSIMO

Veríssimo

Veríssimo

Um homem chega num balcão e tenta chamar a atenção da balconista para atendê-lo:

– Senhorita…
– Um minutinho.
O homem vira-se para outro ao seu lado e diz:
– Ih, já vi tudo.
– O que foi?
– Ela disse “um minutinho”. Quer dizer que vai demorar. No Brasil, um minuto dura sessenta segundos, como em qualquer outro lugar, mas um minutinho pode durar uma hora.
O homem tenta de novo.
– Senhorita.
– Só um instantinho.
– Ai.
– O que foi?
– Ela disse “um instantinho”. Um “instantinho” demora mais que um minutinho. Parece que um minutinho é feito de vários instantinhos, mas é o contrário. Um “instantinho” contém vários “minutinhos”. Senhorita!
– Só dois segundinhos!
O homem começa a se retirar.
– Aonde é que o senhor vai?
– Ela disse “dois segundinhos”. Isso quer dizer que só vai me atender amanhã.
Dois homens acorrentados numa masmorra. Um terceiro homem é acorrentado junto a eles. O primeiro homem pergunta:
– Quantos anos você pegou?
– Não é tão ruim. Eu peguei perpétua.
– Você está aqui há muito tempo?
– Uuuuuuuuuuuuuuuu…
– Tanto tempo assim?
– Espera, ele não terminou.
– uuuuuuuuuuuuuuuu…
– Tanto tempo assim?!
– Só posso dizer uma coisa: quando me prenderam, recém começavam a discutir a reforma agrária no Brasil.
– Com todo este tempo aqui, vocês dois devem sentir uma falta danada de mulher.
Os dois se entreolham. Depois, o primeiro diz para o recém chegado:
– De quê?

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Só para escritores:
Quando a mulher do escritor entrou no escritório, encontrou o marido satisfeito.
– Acabo de bater o ponto final do meu livro! – disse ele.
– Que maravilha! – disse a mulher.
Mas depois ficou intrigada.
– Você não disse que não estava conseguindo escrever?
– Disse.
– Não disse que estava bloqueado, agoniado?
– É.
– E de repente escreveu tudo de um jato?
– Não, não. Ainda não escrevi o livro. Mas o ponto final já está aí!

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Ipojucan

Não fiz o teste com o Aldir Blanc, vascaíno notório. Mas tenho certeza que se tivesse lhe perguntado quem foi o maior jogador brasileiro de todos os tempos, ele responderia em cima:

– Ipojucan.

A história do futebol brasileiro está cheia de ipojucans, jogadores que nunca tiveram o reconhecimento merecido e cuja reputação sobrevive apenas na lembrança dos seus contemporâneos. O próprio Ipojucan não foi um ipojucan típico. Chegou a jogar na Seleção, nos anos 50. Teve um pouco de glória. O Ipojucan autêntico raramente chega à Seleção ou a qualquer outro tipo de consagração. Vira lenda justamente porque não fica famoso. Só tem a fama póstuma dos injustiçados.

É preciso tempo para que a fama retroativa dos ipojucans se consolide. Com o tempo, passam de grande jogador a fenômeno e chegam a “maior de todos os tempos”, uma classificação fácil de fazer porque comparações objetivas são impossíveis. Não sei se o Ipojucan do Vasco merece sua reputação. Nunca o vi ao vivo, só naqueles filmes de Niemeyer. Um negro alto, do tamanho de zagueiro, mas jogava no meio-campo. O Aldir Blanc recém fez 50 anos, também não deve ter visto Ipojucan jogar. Mas deve ter sido criado ouvindo a lenda.

Uma vez elegi um semi-ipojucan. A Placar fez uma enquete e eu escalei Claudiomiro, do Internacional, no centro do ataque da Seleção Brasileira de todos os tempos. Não que o considerasse o melhor centroavante da nossa história, ou mesmo um fenômeno. Apenas achava que ele merecia alguma forma de posteridade, já que suas qualidades – um vigor impressionante e chutes mortais com dois pés de qualquer distância – nunca tinham sido devidamente notadas. Mal sabia eu que meu voto barraria a entrada de Zico na Seleção de sonho da Placar. Volta e meia grupos de flamenguistas ainda tentam organizar uma expedição punitiva até a minha casa.

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