Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 025 | Ano 3 | Set 1998
EDITORIAL
EDITORIAL

Como assim?

“Collor-Itamar-Cardoso: a lei do mais forte” poderia ser o título de uma novela policial de qualidade literária duvidosa e muitos clichês. Mas talvez narrasse, no devido nível, as recentes mudanças no mundo do trabalho, no Brasil, mais ou menos assim: “O caçador de marajás era um tipo durão. Sempre atirava primeiro e depois de puxar o gatilho anunciava que só tinha uma bala na agulha. Estourou a fechadura antes de bater e derrubou a porta, abrindo caminho para os jogadores de outros cassinos darem as cartas. Ambicioso demais acabou provocando discórdia na família e acabou apunhalado por um dos seus. Fez o trabalho sujo e preparou o território. Mas o seu sucessor, um sujeito meio displicente, que não abria mão do bom divertimento e esquecia de comprar as cartas no momento certo, acabou perdendo muitas jogadas, deixando que os seus próprios parceiros assumissem o controle do jogo, que tentaram fazer a reforma do cassino no estatuto. Não deu certo, mas logo um deles tornou-se o chefão na marra. Com fama de doutor de anel no dedo e muita lábia, inclusive em vários idiomas, tomou conta da situação com a proteção dos habituais jogadores da casa e dos aventureiros de fora. Sabia negociar com categoria, blefava como ninguém e conhecia bem o preço das rodadas. Revelou-se um cara frio e hoje toda a criadagem sabe bem qual é o seu lugar.”

A literatice, obviamente, poderia ser mais categorizada, não tivesse a única função de disfarçar o mau humor, o incômodo, a contrariedade com o rumo das coisas. Sim, porque não há humor que resista, não só pelo rumo das coisas propriamente, mas também pela inércia, pela apatia da sociedade que se entrega, docilmente, feito um condenado inocente, que deseja a hora fatal. O fato é que desconcerta a subversão da noção de modernidade que se impôs à humanidade.

No âmbito da mídia, com inserção praticamente hegemônica no senso comum, as mais decisivas utopias democráticas dos últimos 100 anos, transformaram-se em dogmas retrógrados e estreitos. A temida e reprovável sociedade da barbárie tornou-se sinônimo de modernidade. Nas últimas duas décadas, a reconstrução da democracia no plano político e institucional, no Brasil, não ampliou a mobilidade social, a qualidade de vida, não expandiu nem direitos individuais nem coletivos. Paradoxalmente, correspondeu a um processo de exclusão social e, mais recentemente, de cassação de direitos sociais históricos. Há uma tendência perigosa no padrão da cultura política dominante do não-questionar, como se fosse legítimo afirmar que “o mundo é o que é”. Sob o argumento recorrente da globalização, exclusivamente através da internacionalização dos mercados, como um destino fatal da humanidade, justifica-se como inevitável a fome, a miséria, o desemprego.

Sob a antiga e tradicional lógica mercadológica, elevada à centésima potência, considera-se natural que a competição elimine os “despreparados”. No caso, os despreparados são os pobres, as mulheres, os negros, os imigrantes, os jovens, os velhos, os países periféricos da América, da Ásia, da África. Enfim, todos àqueles que não têm as mesmas condições e oportunidades para a disputa. Desta forma, ressurgem sob a dissimulação de modernidade, a barbárie do darwinismo social. Adota-se, para “administrar” a sociedade, os mesmos paradigmas da seleção natural. Os fracos, os incompetentes devem desaparecer. Esta é a lei de mercado, que se apresenta como universal e definitiva, é que passa a presidir o mundo do trabalho no Brasil e em tantos outros lugares do planeta. É disso que tratamos na reportagem de capa desta edição, revelando que a barbárie contemporânea faz tábula rasa de uma longa e dolorosa trajetória de lutas sociais que institucionalizou, por um lado, o Estado de Bem-Estar Social e, por outro, o estatuto dos Direitos Humanos. Diante da barbárie, indagamos: modernidade, como assim?

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