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Nº 026 | Ano 3 | Out 1998
EDITORIAL
EDITORIAL

Precisava ser assim?

Pensando bem seria cômodo acreditar na desculpa do governo de que somos apenas vítimas da crise internacional. Nenhum brasileiro ainda empregado ficaria chateado, desconfiado de que foi traído. Os que já estão desempregados teriam talvez um conforto e não o sentimento mesquinho de revolta. Afinal, o presidente que se reelegeu como exterminador da inflação, prometendo acabar também com o desemprego, não governa a Malásia ou os Estados Unidos. Governou e governará por mais quatro anos o nosso conhecido Brasil, inflacionado de demandas sociais históricas que se manifestam nas ruas, nas escolas, na porta dos hospitais, na previdência social. Os mais consternados poderiam exclamar entre pesarosos e condescendentes: “coitado do Fernando Henrique Cardoso, a vida anda difícil mesmo para todo mundo”.

A reportagem de capa desta edição conversou com economistas e professores para esmiuçar a conjuntura econômica nacional, analisar até que ponto a situação brasileira é resultado da chamada crise mundial e antecipar a repercussão do ajuste na política econômica do governo. Mas as medidas anunciadas no chamado pacote não permitem ilusões. Perderemos recursos da saúde, da educação e os Estados e Municípios serão apertados pela redução dos repasses federais.

A crise é nossa mesmo e o argumento da globalização é apenas uma meia verdade para justificar uma opção política. O pacote atende às exigências do Fundo Monetário Internacional porque o país se meteu num brete e precisa de financiamento externo para equilibrar as contas públicas e honrar compromissos. Isto é, necessita de dólares para pagar os especuladores que resgatarem suas aplicações no Brasil para cobrir as perdas sucessivas nos falidos tigres asiáticos e na Rússia capitalista.

Como se vê na interpretação de especialistas, o Plano Real e o conjunto da política econômica do governo inseriu, deliberadamente, o Brasil nos quadros da economia internacional, abrindo o país ao capital especulativo. Decorre daí a freqüente lembrança da quebra do México em 1994. Possivelmente o Brasil não repetirá o México porque neste caso estão em jogo os interesses de boa parte dos países latino-americanos – especialmente da Argentina – e até dos Estados Unidos. Aliás, o empréstimo do FMI, alinhavado junto com o G7, contempla a pátria de Bill Clinton.

Mas a internacionalização da economia brasileira de forma precipitada, provocando a desestruturação da cadeia econômica interna – particularmente do parque industrial – não era a única alternativa e nem será definitiva. Talvez se este debate sério sobre o tema tivesse substituído o marketing na campanha eleitoral gratuita, os brasileiros já pudessem começar a experimentar uma outra opção. Decididamente, não precisava ser assim.

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É neste quadro de dificuldades que o governador eleito do Rio Grande do Sul, Olívio de Oliveira Dutra, terá de enfrentar o desafio de implementar um projeto alternativo de desenvolvimento. Recai sobre seu governo uma responsabilidade colossal com a população gaúcha, que acalenta uma enorme e imediata expectativa por mudanças. Não será fácil a tarefa de satisfazê-la, uma vez que a dívida do Estado é superior a R$ 17 bilhões, a arrecadação de ICMS – o principal tributo estadual – vem caindo e deverá continuar em queda com o recrudescimento da crise em âmbito nacional. O que todos esperam é que, com a determinação verificada na campanha eleitoral, a sociedade gaúcha contribua para que o governador Olívio Dutra repita o desempenho que demonstrou como prefeito de Porto Alegre, saneando as finanças e investindo nas reivindicações reclamadas pelos cidadãos.

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