Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 028 | Ano 3| Dez 1998
ENTREVISTA | GERALDO CANALI
ENTREVISTA

Jornalista quer TVE com sotaque

O jornalista Geraldo Canali, 49 anos, está de volta aos pampas, depois de quatro anos dividindo-se entre o telejornalismo da TV Bandeirantes, em São Paulo, e as aulas no curso de Comunicação Social da UFRGS, em Porto Alegre. Foi convidado e aceitou dirigir a programação da TVE com a missão de ampliar a cobertura da emissora e torná-la mais atrativa.

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Extra Classe – Foi este convite para a direção de programação da TVE que lhe fez voltar a Porto Alegre?

Geraldo Canali – Houve uma coincidência. Aconteceu a cisão com o Paulo Henrique Amorim na Band, por critérios editoriais. Senti que era conveniente voltar. Eu me sentia exilado; era esse meu estado mesmo, de exílio. Como não tinha opções profissionais lá e meu chão é aqui…

EC – Como foi a ruptura com a Bandeirantes?

GC – A minha saída foi negociada. Fiquei lá quatro anos, mas ainda com compromissos em Porto Alegre. Sou professor da UFRGS. Vinha para cá uma vez por semana. Terminava o jornal sábado, eu pegava o último avião, passava parte do domingo com a família, à noite, preparava as aulas que dava às segundas e terças pela manhã e, depois, voltava a São Paulo.

EC – Mas como é essa história de se sentir exilado? O que fazia lá, além do trabalho?

GC – Tinha e tenho bons amigos em São Paulo. Caminhava pelo Parque Ibirapuera. Eu era um dos editores do jornal e apresentador na ausência do Paulo Henrique Amorim. Também tinha participação eventual no jornal da noite.

EC – Mas aí houve a cisão e a saída foi o retorno a Porto Alegre.

GC – O convite do governo coincidiu com a saída de São Paulo. Foi tudo muito rápido, tenho de buscar minha mudança – eu morava atrás do Parque Ibirapuera. Cheguei a montar uma estrutura lá, com a venda do jornal Ôi.

EC – Falando nisso, o Ôi, Menino Deus, um jornal de bairro criado por Geraldo Canali, fez história, pelas matérias polêmicas, desafiando o próprio monopólio da comunicação e vencendo inclusive muitos prêmios de jornalismo. Com tanto sucesso, por que vendê-lo?

GC – Eu não tinha outra saída. A Band me obrigava a ficar mais em São Paulo. Queriam que eu cobrisse férias do Chico Pinheiro, da Carla Vilhena, da Marília Gabriela (estrelas da Band na época). Eu precisava decidir a minha vida profissional.

EC – Mas foi difícil se desfazer do Ôi?

GC – Senti ter vendido. Eu o criei e fiquei com ele por 11 anos. O jornal ganhou cinco prêmios ARI e várias outras distinções. Mas houve dificuldades. Essa foi uma época de pauleira: professor da UFRGS, editor do Ôi e ainda atendia eventualidades em São Paulo. Meu primeiro trabalho naquele Estado foi a posse de Fernando Henrique Cardoso, em 1? de janeiro de 95. Fiquei lá até agora, há pouco.

EC – O que você acha do Ôi, hoje?

GC – É difícil dizer o que sinto sobre ele hoje.

EC – E agora, que você está de volta, o que pretende fazer?

GC – Neste momento, estou me dedicando 100% ao projeto da TVE para o próximo governo, sem abrir mão da UFRGS. Não encaro as opções profissionais como definitivas e perenes. Toda a minha vida foi marcada por tempos. Gosto de realizar projetos, com começo, meio e fim que se viabilizem. E o meu projeto hoje é ficar quatro anos na TVE como seu diretor de programação.

EC – O que vai mudar na programação da TVE?

GC – De momento não vai mudar muita coisa, mas no final de 99 pode-se esperar grandes mudanças. Queremos uma televisão com personalidade própria.

EC – Ela tem cara própria agora?

GC – A gente acha que a TVE, hoje, não tem uma personalidade definida. Pretendemos competir, fazer um produto que tenha audiência. A TVE precisa de uma personalidade mais definida, que valorize as questões regionais. Hoje, ela está muito aculturada, com programações basicamente de São Paulo e Rio de Janeiro.

EC – Haverá muitas mudanças na equipe?

GC – Precisamos ampliar a estrutura física da emissora, isso significa que precisamos de mais gente. Ao lado disso, precisamos aumentar a qualidade técnica, ampliando e melhorando o sinal da emissora, hoje muito limitado no interior.

EC – E o que significa continuar na Ufrgs?

GC – Eu entrei na Universidade por concurso, em 1973. Nesse mesmo ano, fui afastado pelo regime militar. Com a Constituição de 88, fui anistiado e voltei a dar aulas em 89. Meu trabalho, fundamentalmente, é com televisão e seu contexto no Brasil e no mundo. A televisão é o produto deste século. Essas são as razões porque quero continuar dando aulas na Ufrgs.

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