Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 028 | Ano 3| Dez 1998
PERFIL

Protagonista na vida

Renato Hoffmann

Jornalista, escritor, músico, cineasta e professor. Com tantas atividades, é natural que a agenda de trabalho do porto-alegrense Carlos Gerbase, que faz 40 anos em fevereiro de 1999, esteja sempre cheia. Depois de alguma insistência, o ex-aluno dos colégios Bom Conselho e Anchieta acha um tempo para a entrevista, entre uma banca de monografias na Faculdade dos Meios de Comunicação da PUC-RS, onde leciona há 18 anos, e uma viagem. Na hora marcada, ele aguarda em sua sala, no primeiro andar da nova sede da Casa de Cinema, produtora da qual é um dos sócios desde 1987. Aproveita para escrever um release sobre seu mais recente projeto, um longa metragem que começa a filmar em meados do ano que vem.

O filme “Intolerância” é um projeto de dois anos e meio que está em fase de captação de recursos para a produção. Até agora, conseguiu amealhar cerca de R$ 500 mil, via leis de incentivo à cultura e ao audiovisual. No final do ano, teve o reforço de um prêmio oferecido por uma empresa que, quando for pago, será suficiente para completar o orçamento de R$ 1,6 milhão. “Esse filme foi uma decisão nossa de apostar num longa metragem”, explica o roteirista. “Depois de dez anos, achamos que se a gente não fizesse um longa agora, num momento de retomada do cinema brasileiro, a gente não faria mais.” O início das filmagens está programado para maio de 1999.

CORAGEM – Quando entrou na faculdade, Gerbase pensava em ser um jornalista tradicional. Lá pelo sétimo semestre, foi trabalhar como repórter na extinta Folha da Tarde. Gostava de escrever e nessa época já redigia seus primeiros contos. Depois de um ano, descobriu o que realmente queria fazer – cinema. No final dos anos 70, conheceu alguns companheiros com quem mais tarde mudaria a história do cinema gaúcho. Entre eles, Nelson Nadotti (hoje morando no Rio de Janeiro), e Giba Assis Brasil (seu sócio na Casa de Cinema). Os dois estavam produzindo um longa metragem em super-8 chamado “Deu Prá Ti Anos 70”. De lá prá cá, sempre esteve envolvido com a produção audiovisual, seja em super-8 , 16 mm, 35mm, ou em vídeo.

“Eu não tive com o cinema uma aproximação acadêmica, ou do cara que é cinéfilo, que adora um diretor e vai ver como é que ele faz pra fazer parecido”, explica. “Minha influência básica no cinema chama-se Nelson Nadotti, porque era um cara da minha idade com uma câmera super-8 e com coragem suficiente para fazer e exibir seus filmes”, continua. “Eu entrei no cinema pela via mais prática possível; já escrevia contos e o Nelson me disse que bastava separar o conto em cenas, pegar uma câmera e filmar aquilo, transformar em imagens e sons”, revela. “Meu modo de ver o cinema é extremamente simplista, a gente fez vários filmes dessa maneira.”

CONFESSIONAL – A geração de cineastas da qual Gerbase fez parte ainda hoje é importante, porque apresentou uma proposta estética inovadora, diferente do cinema gaúcho que existia até então. “Os curta-metragistas iam para o Festival de Gramado com seus curtas, geralmente documentários, que tinham uma proposta estética completamente diferente da nossa”, coteja. “A gente começou a fazer filmes bastante confessionais, falando sobre a nossa geração, e que tiveram uma comunicação muito grande com o público.”

Avesso a rótulos, o diretor de Sexo e Beethoven (1980) não aceita o estigma de cineasta cult. “Chamavam o cinema que a gente fazia de alternativo e realmente era isso, porque a única alternativa que nós tínhamos era o super-8”, ironiza. “Quando tivemos oportunidade de fazer filmes com bitolas maiores, a gente foi fazer, não houve um planejamento.” O premiado diretor e roteirista surpreende quando afirma que nunca teve vontade de estudar cinema. Na vida dele as chances aparecem, e ele encara.

POR ACASO – A oportunidade de se tornar professor surgiu em 1981. “Tinha só 21 anos e nunca havia pensado nisso.” O convite foi do então diretor da Famecos (a faculdade de comunicação da PUCRS), Antônio Gonzalez, que na época era seu colega na redação da Folha da Tarde. “Eram aulas práticas, eu tinha que fazer filmes com os alunos e isso era uma coisa que eu sabia fazer”, recorda. “Para mim, era apenas um emprego melhor do que eu tinha, com a vantagem de que eu ia fazer filmes.”

Além da PUC-RS, onde hoje leciona no curso de especialização em Cinema, Gerbase passou pelos colégios Israelita e Anchieta. “Fiz alguns trabalhos com os alunos que eu guardo até hoje com o maior carinho”, orgulha-se. Durante três anos, esteve na UFRGS como professor substituto, dando aulas de Cinema, mas se demitiu, indignado com o baixo salário dos professores da universidade. “Hoje acho que é a matéria que eu domino melhor é Introdução à Fotografia. Quando entrei, era absolutamente verde, mas depois de 15 anos, me sinto tranqüilo.”

REPLICANTE – A música é o passatempo predileto do pai de Iuli, oito anos, de Livi, cinco, e de Iami, três. “Levo as meninas ao colégio, vou buscar, faço bastante coisas com elas”, informa. “Nesses momentos, aproveito para fazer a formação musical delas”, diz, lembrando que quando era pequeno os irmãos mais velhos sempre ouviam MPB, Jazz e Rock. No começo dos anos 80, ele e alguns amigos ficaram fãs do punk rock, um gênero musical que tem como regra o “faça você mesmo”. “Uma coisa da qual você gosta fica mais legal ainda quando você faz”, pontifica o ex-baterista e atual vocalista da banda Os Replicantes – o nome é uma referência explícita ao cinema, retirado do filme “Blade Ranner”, de Ridley Scott .

O devotado instrutor musical das filhas é um músico autodidata. “A gente não teve aquela fase de aprender a tocar, aquele negócio de formação da banda, de escolher repertório. Nenhum de nós sabia tocar qualquer instrumento. Absolutamente nada.”, confessa. “Eu comprei uma bateria pingüim, do Plínio – irmão do Giba Assis Brasil – que não tocava mais, o Heron e o Cláudio Heinz foram para a loja comprar um baixo e uma guitarra. O Cláudio ainda arranhava alguma coisa no violão, e o Heron nunca tinha pego um instrumento na vida. Ele não sabia nem que o baixo tinha quatro cordas. Nós tínhamos uma imensa capacidade de transformar barulho em música.”

ENERGIA – Poucos meses depois de rodar pela primeira vez, na rádio Ipanema, um de seus primeiros sucessos – “Nicotina” –, a banda entrava em estúdio para gravar o primeiro disco. “A reação foi muito forte, tanto de pessoas que odiaram, quanto daqueles que adoraram”, relembra. A partir daí, a banda começou a fazer shows, “com a maior cara-de-pau, porque nós éramos tecnicamente muito precários.” Em compensação, “tínhamos uma coisa que nenhuma outra banda tinha: uma energia muito grande”, pondera.

Descobertos pelo produtor Tadeu Valério, da gravadora RCA, Os Replicantes chegaram a iniciar uma carreira profissional, com direito a turnês e participações na série Rock Grande do Sul, além de álbuns próprios. No início dos anos 90, com a saída do vocalista Wander Wildner, Gerbase largou as baquetas, foi para a frente do palco e virou cantor. A mudança na formação serviu para a banda reencontrar-se com suas origens. “Nós fazemos música porque gostamos, o que pintar além disso, ótimo”, decreta o vocalista. Os Replicantes continuam fazendo shows, mas com menos freqüência do que antes.

TORRADAS – Capaz realizar performances radicais com sua banda, o músico admite que não é o mesmo quando o palco é a cozinha. “No máximo, faço umas torradas para as minhas filhas”, reconhece. Nessas horas, quem brilha é a mulher, Luciana, “Ela sim, cozinha muito bem”, elogia. Luli, como é conhecida, também é expert em viagens. “Por ela, a gente viajava para fora do país uma vez por semestre”, exagera. Com um ritmo de trabalho incessante, o casal encontra nos festivais de cinema a chance de conhecer novos lugares. “Há dois anos fomos à Holanda (Festival de Rotterdam) e à França (Festival Internacional de Clermont-Ferrand), mostrar o filme ‘Deus Ex-Machina’”, conta. Alguns roteiros têm revelado surpresas para este típico morador do Bom Fim, famoso por sua agitação cultural. “Miami passava aquela idéia de praia, de uma coisa meio brega, mas tem uma vida cultural muito interessante”, descreve. “Nova Iorque é diferente, é Porto Alegre vezes dez”, compara. “Eu me sinto em casa em Nova Iorque, tem muita coisa para se ver e para se fazer.”

Admirador dos clássicos na adolescência, o escritor já leu bem mais que atualmente. “Tive uma sede de leitura lá pelos 20 anos, tentei conhecer os grandes autores do século XIX, do Realismo. Li Eça de Queiroz, Zola, Flaubert” . Nas férias, garante que devora de cinco a seis livros, mas nas bancas só procura revistas de fotografia, música e informática. “Praticamente não li nada de poesia e sou um ignorante quase completo em ensaios de filosofia”, acrescenta. O gosto assumido pela ficção influenciou os primeiros contos que escreveu. Tem um livro do gênero publicado pela LP&M, “Comigo Não” (1983). Atualmente, dedica-se mais à crítica de cinema, às novelas multimídia para pages da internet e às crônicas para a revista eletrônica Não (http:www.nao-til.com.br) que edita com os inseparáveis amigos da Casa de Cinema Jorge Furtado e Giba Assis Brasil.

O endereço do cinema gaúcho

Criada há 11 anos, a Casa de Cinema surgiu com uma proposta original. Seria um lugar onde ficariam os filmes para serem distribuídos e um local que também facilitasse a produção. “Nós dizíamos na época que era o endereço do cinema gaúcho, um ponto de referência”, situa Gerbase, um dos fundadores. Uma das leis nunca escritas daquele grupo inicial, e que dura até hoje, é que a Casa nunca faria publicidade. “Era uma coisa que a gente poderia ter feito até com certa tranqüilidade, tínhamos ótimos diretores, mas nós tínhamos consciência de que se a gente fizesse isso, jamais faria cinema.”

Aqueles que optaram pelo mercado da publicidade acabaram saindo e, há mais ou menos seis anos, a Casa de Cinema virou empresa. Mantendo todo o acervo e a distribuição de filmes, passou a fazer, além de cinema, televisão. Em 1993, Gerbase foi contratado pela Rede Globo. Entre outros trabalhos, foi co-roteirista das minisséries “Memorial de Maria Moura”, de Raquel de Queiroz, e “Engraçadinha”, de Nelson Rodrigues. A parceria entre a Globo a Casa de Cinema rendeu a assinatura gaúcha na produção, em 1997, de alguns episódios da “Comédia da Vida Privada, de Luis Fernando Verissimo. Em 1999 vai ao ar a minissérie “Luna Caliente”, adaptação da obra do argentino Mempo Giardinelli, com roteiro de Gerbase, Jorge Furtado e Giba Assis Brasil.

POLÍTICA – Trabalhar com publicidade era uma questão de princípio, participar de uma campanha eleitoral nem passava pela cabeça de Carlos Gerbase. Até que, em 1992, o pessoal da Casa de Cinema – todos petistas – decidiu apresentar algumas idéias ao candidato do PT a prefeito Tarso Genro. Acabaram sendo convidados a fazer os programas de tevê. Foi a primeira das quatro campanhas realizadas pela Casa, três delas vitoriosas. A única derrota foi em 1994, numa disputa emocionante em segundo turno, entre Olívio Dutra (PT) e Antônio Britto (PMDB). “Até hoje eu acho que com mais uma semana de campanha o Olívio ganharia aquela eleição”, lamenta o cineasta.

Acostumado a levantar troféus com seus filmes – já arrebatou uma dúzia de kikitos só no Festival de Gramado – Gerbase reagiu com humildade aos elogios recebidos após a vitória de Olívio na eleição deste ano. “Esse negócio de transferir os méritos do Olívio para a Casa de Cinema é uma tentativa de desmerecer a proposta vencedora e o candidato que a representava”, analisa. Ele também rejeita o “título” de marqueteiro do PT. “Os marqueteiros tradicionais dizem que não existe marketing político, existe marketing. Para eles, vender um candidato, um carro ou um sabonete é mesma coisa. Eu discordo. No PT, se houvesse uma frase, seria a seguinte: “não existe marketing político, existe política.”

Um dos fatores que contribuíram para o sucesso das últimas campanhas, segundo Gerbase, é o relacionamento íntimo entre o PT e a Casa de Cinema. “Tu tens que conhecer o jogo político local e como é que as pessoas reagem ao tipo de propaganda que tu faz.” Depois de todos esses anos, ele acredita que os coordenadores das campanhas petistas aprenderam a avaliar a reação da militância e dos eleitores às idéias da Casa de Cinema.

Porém, os profissionais de comunicação sabem como levar as propostas do partido ao público da maneira mais eficiente possível, usando todas as ferramentas que estiverem à disposição, inclusive instrumentos do marketing. “Pesquisas de opinião qualitativas, por exemplo, é um recurso que nós usamos. Agora, elas não decidem tudo o que a gente vai fazer. Elas apenas identificam o lugar comum, e se tu ficares só no comum numa campanha de esquerda, tu estás perdido”, ensina. “A vitória é uma soma de esforços, desde o militante que vai para rua com a bandeira, dos movimentos sociais, até os profissionais envolvidos na produção dos programas. Uma coisa importante é nunca descolar a campanha da tv da campanha das ruas. Isto a gente aprendeu desde cedo.”

Ficha técnica

Filmes

MEU PRIMO (super-8, 45min, 1979) – roteiro, direção, still – Melhor filme nos festivais Abertura 8 (Curitiba, 1979) e I Festival do Cinema Amador de Osório (1979)

SEXO E BEETHOVEN (super-8, 20min, 1980) – roteiro, direção, still – Melhor filme super-8 gaúcho no Festival de Gramado-1980

AMOR SEM DOR (super-8, 19min, 1981) – roteiro, direção, still – Melhor filme técnico-científico no II Festival de Cinema Amador de Osório (1981)

INVERNO (super-8, 90min, 1983) – roteiro, direção, montagem – Melhor filme super-8 no Festival de Gramado-1983

INTERLÚDIO (35mm, 8min, 1983) – roteiro, direção, still

VERDES ANOS (35mm, 93min, 1984) – direção – Prêmio Revelação do Festival de Gramado-1985, Prêmio São Saruê-1986 (Federação dos Cineclubes do Rio de Janeiro), Prêmios de Roteiro e Elenco do Festival de Caxambu (Minas Gerais)-1986

PASSAGEIROS (35mm, 8min, 1985) – roteiro, direção – Melhor curta gaúcho e Melhor montagem de curta gaúcho no Festival de Gramado-1986

AULAS MUITO PARTICULARES (35mm, 10min, 1988) – roteiro, direção, montagem, still

O CORPO DE FLÁVIA (35mm, 15min, 1990) – roteiro, direção – Melhor fotografia de curta gaúcho no Festival de Gramado-1990, Melhor Filme do júri popular e Prêmio Revelação para a atriz Ana Moura no Festival do Maranhão-1990 (13.o Guarnicê de Cine-Vídeo)

DEUS EX-MACHINA (35mm, 25min, 1995) – roteiro, direção – Festival de Gramado 1995: Prêmios Assembléia Legislativa (curtas gaúchos) – Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro, Melhor Montagem; Prêmios Nacionais (Kikitos): Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro, Melhor Montagem, Melhor Música Original, Melhor Ator (Leverdógil de Freitas), Prêmio da Crítica; Festival de Brasília 1995: Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Roteiro, Melhor Montagem, Prêmio Especial do Júri pela Contribuição à Linguagem Cinematográfica; Festival de Rotterdam (Holanda) 1996 – convidado oficial na mostra Curtas-metragens brasileiros; Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand (França) – Menção Especial do Júri Internacional; 19º Guarnicê de Cine-Vídeo (São Luís/Maranhão) 1996 – Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem (Júri Oficial), Melhor Filme/Bloco dos 4 Melhores (Júri Popular); Rio Cine Festival: melhor ator (Leverdógil de Freitas), prêmio técnico: melhor roteiro.

SEXO & BEETHOVEN – O REENCONTRO (35mm, 16 min, 1997) – roteiro, direção.

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Vídeo e TV

Co-roteirista da minissérie em 24 capítulos MEMORIAL DE MARIA MOURA, baseada na obra de Rachel de Queiroz, produzida pela Rede Globo de Televisão, veiculada em maio e junho de 1994 Co-roteirista da minissérie em 16 capítulos ENGRAÇADINHA, baseada na obra de Nelson Rodrigues, produzida pela Rede Globo de Televisão, veiculada em abril e maio de 1995.

Co-roteirista do especial VIDIGAL – Memórias de um Sargento de Milícias, baseada na obra de José Manuel de Macedo, adaptada para o teatro por Millôr Fernandes, produzida pela Rede Globo de Televisão, veiculada em outubro de 1995.

Co-roteirista da série COMÉDIAS DA VIDA PRIVADA – episódios “As Idades do Amor”, “Mulheres” e “Anchietanos”, produzidos pela Rede Globo de Televisão, veiculados em 1997.

Co-roteirista da série educativa TRÂNSITO, produzida pela RBS-TV e veiculada em 1996.

Co-roteirista da minissérie LUNA CALIENTE, baseada na obra do escritor Mempo Giardinelli, produzida pela Rede Globo de Televisão.

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Internet

Roteirista e diretor da novela multimídia on-line A GENTE AINDA NEM COMEÇOU, produzida pelo ZAZ (www.zaz.com.br) e veiculada de dezembro de 1996 a março de 1997.

Roteirista da novela multimídia on-line FAUSTO, produzida pelo ZAZ (www.zaz.com.br) e veiculada de maio a julho de 1997.

Crítico de cinema do ZAZ (www.zaz.com.br) desde julho de 1998.

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