Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 030 | Ano 4 | Abr 1999
L. F. VERÍSSIMO

Idéias sem futuro

O problema com as idéias muito simples é que elas se complicam. Basta você ter uma idéia simplesmente genial para começarem a aparecer as dúvidas e as restrições que acabarão por derrotá-la. É por isso que o Brasil está na mão desses pês, agás e dês que sabem tudo e não acertam nada. É porque eles complicam. Nós, os simples, não somos ouvidos.

Eu li que o ACM tinha comentado que o valor do salário-mínimo era inferior ao custo da sua gravata. E tive o estalo. Por que não estabelecer o valor das gravatas do ACM como parâmetro para o salário-mínimo? Por lei, o salário mínimo seria sempre igual ao preço da gravata mais cara usada pelo ACM, no Senado, durante um mês. Um salário-mínimo igual a uma gravata do ACM – ou GACM, como fatalmente seria chamado o índice. Como, por lei, o salário não pode mudar para menos, mesmo que o ACM, por birra, aparecesse um dia com uma gravata de 1,99 valeria o preço da Hermés. Ou, para livrar o país de uma vez por todas do arbítrio do ACM, poderia-se fazer uma média do preço das gravatas de todos os senadores em plenário durante o mês e usá-la para calcular o mínimo. A qualquer ameaça da bancada governista de só usar gravata borboleta, para baixar a média – ou, ignorando o regimento da casa para ajudar o Governo, o que acontece muito, aparecer no plenário sem gravata – a oposição investiria em gravatas caras para ajudar o trabalhador, ganhando, inclusive, uma justificativa social para sua elegância. Mas já me avisaram que a contabilidade seria difícil e que a idéia certamente acabaria numa proposta patronal aos trabalhadores de trocar o salário por uma gravata mensal – de vereador. Quer dizer, complicaram.

Não vou nem falar na minha idéia de fazerem telefones celulares descartáveis e comestíveis. Quando acabasse a carga do celular o usuário compraria outro e o antigo, com alto valor calórico, seria usado para reforçar a dieta da população menos, assim, favorecida pela revolução tecnológica e as privatizações. Já sei o que vão dizer. Muitos não-favorecidos não teriam paciência para esperar e comeriam os celulares ainda novos, com a orelha do usuário junto. Outra grande idéia sem futuro.

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Pegou mal. Não foi ninguém ali na esquina, nem você ou eu. Foi o nosso presidente quem disse. O próprio Michel Camdessus, que acumula o cargo de diretor-gerente do FMI. Ele disse que o Brasil está nesta enrascada porque o presidente que o antecedeu, Éfe Agá, preocupou-se mais com a sua própria reeleição do que em fazer o que precisava ser feito. O Plano Real foi, como o Plano Cruzado, sacrificado por interesse eleitoreiro e morreu por falta de decisão política. Não quero fazer intriga, mas o Camdessus chamou o Éfe Agá de neo-Sarney. Eu brigava.

Mas é sempre assim, a administração que começa culpa a administração anterior pelas suas dificuldades. Se o recém-empossado Governo Camdessus não der certo sempre poderá dizer que as indecisões e os erros do Governo Éfe Agá criaram uma situação insanável, na qual ninguém daria jeito.

Camdessus pode ter mantido Malan na Fazenda justamente por isso, para que ninguém esqueça que a culpa vem de longe, se ele também fracassar. Não há outra explicação lógica para a permanência de Malan.

Mas eu acho curioso quando as pessoas falam, e falam muito, em “falta de decisão política” para impor programas econômicos até o fim, no Brasil.

Políticos não teriam muito gosto em impor medidas necessárias mas impopulares, que exigiriam sacrifícios e os tornariam também impopulares. A falta de decisão política seria uma forma de resistência passiva a receitas desumanas de economistas desalmados, que contrariam a índole brasileira.

Como o povo brasileiro não tem feito outra coisa senão se sacrificar por repetidos programas econômicos que mudam quase nada, como a emergência social brasileira cresce em vez de ser atenuada por uma qualquer sensibilidade política, mesmo oportunista, como o bolo nunca aparece para ser dividido e como os políticos estão cada vez mais impopulares de qualquer jeito, temos todos o direito de pensar que o que tem havido não é falta mas excesso de decisão política. Só que errada e inútil.

Mas o Camdessus recém-começou e merece um período de confiança e boa vontade. Afinal, o Éfe Agá teve quatro anos.

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