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Nº 031 | Ano 4 | Maio 1999
OPINIÃO
OPINIÃO

A guerra da Otan contra a Iugoslávia

Paulo Vizentini, de Leiden (Holanda)

O ataque da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) à Federação Iugoslava, divulgada como “guerra de Kosovo”, revela questões importantes no plano local e global, respectivamente de caráter sociológico e estratégico. Em primeiro lugar, é importante considerar que o objetivo imediato do conflito consiste em colocar tropas da Otan em Kosovo e promover a independência de Montenegro, cortando o acesso da Iugoslávia ao mar e estabelecendo uma ligação terrestre entre membros da Organização na região, da Hungria (recém aderida ao tratado militar ocidental) à Grécia. É bom lembrar que a aliança atlântica já mantém tropas na Bósnia, Albânia e Macedônia. Assim, há anos o que restou da Iugoslávia se encontra sob cerco dos Estados Unidos. Esta ação faria parte de um plano mais amplo de isolar a Rússia dentro da massa continental eurasiana, tirando o máximo proveito de sua atual debilidade (a este respeito, é indispensável ler o último livro de Brzezinski, assessor do ex-presidente Jimmy Carter). Serviria, ainda, como instrumento adicional de domínio dos americanos sobre a União Européia (e a sua nova moeda, o Euro).

Trata-se da primeira ação oficial da Otan que, justamente em seu cinqüentenário, passou de organização defensiva à ofensiva, sem levar em consideração a ONU (Organização das Nações Unidas). Por outro lado, os social-democratas da “Terceira Via” européia (Blair, Jospin e Schröeder) são sintomaticamente os maiores apoiadores da ação. Aqui da Europa, pude observar imensa campanha de propaganda (sobretudo através da CNN e BBC) montada para legitimar o desencadeamento do conflito, bem como sua evolução: a demonização de Milosevic, os elogios ao Exército de Libertação do Kosovo (ELK), a paralela desmoralização dos kosovares moderados como Rugova a montagem de uma ampla operação guerrilheira na região, com o objetivo de provocar a reação do exército iugoslavo para, finalmente, produzir sangue e refugiados, alimentando a mídia unificando os albaneses iugoslavos em torno dos radicais, que contam com apoio logístico da Otan. O impasse das negociações, por sua vez, deveu-se à recusa iugoslava em aceitar tropas da Otan em seu território, embora aceitasse discutir uma eventual força da ONU.

Ao ser surpreendido por grandes manifestações contra os bombardeios, na Europa ocidental e na Iugoslávia – e com a derrubada de um bombardeiro “invisível” -, o Ocidente passou a organizar, uma semana depois, manifestações com bandeiras albanesas, americanas e inglesas. Sem dúvida, houve um erro de cálculo na operação. A Rússia, consciente da razão maior da guerra, esboçou a reação que lhe era possível. E a capacidade de resistência dos líderes e da população iugoslava reforçaram um impasse que se prolonga. Pede-se, então, ao menos, a cabeça de Milosevic, “o único culpado” de tudo.

Evidentemente que o fenômeno de fragmentação, que afeta os perdedores da “globalização”, propicia a aparente forma étnica com que o conflito eclodiu.Mas este é um fenômeno que afeta também outras regiões, sem que se conheça tal escalada. Basta lembrar o genocídio de Ruanda ou o massacre dos curdos que continua (mas a Turquia é membro da Otan…). Assim, a razão maior é estratégica, pois sem o apoio da Otan o ELK jamais teria podido desafiar as forças iugoslavas. Aliás, este movimento está ligado à máfia albano-kosovar, que controla parte substancial do tráfico de drogas, prostituição e outras atividades criminais nas grandes cidades da Europa. Assim, embora o Ocidente insista em mostrar o drama dos refugiados como a causa do conflito, obviamente a razão é outra, inclusive porque os refugiados são uma conseqüência da guerra, e não o contrário. Igualmente como no caso do Iraque, trata-se também de uma política de destruir uma economia diferente do neoliberalismo, ou ao menos o que resta dela.

Com a guerra a Otan cresce, expande seus limites e a presença norte-americana se afirma sobre a Europa, e uma série de princípios (ou pretextos) passam a substituir o Direito Internacional. A destruição sistemática da Iugoslávia desde 1991 é o exemplo mais flagrante dessa estratégia. Lamentavelmente, até mesmo parte da esquerda morde a isca de um discurso falacioso, calcado na suposta ilegitimidade dos dirigentes iugoslavos ou em discutíveis crimes de guerra, que somente são imputáveis aos que se opõem à nova hegemonia norte-americana. Nenhuma palavra sobre quase um milhão de sérvios expulsos da Croácia em 1995. Milosevic foi eleito democraticamente e representa, ao menos, o que haveria de menos pior nos Bálcãs hoje. Assim, seu crime maior é o de defender os interesses de seu país e povo, atitude pouco comum entre os dirigentes latino-americanos. É por isso que alguns intelectuais pós-modernos, juntamente com os conservadores de sempre, têm dito: depois de Pinochet, há que julgar Fidel Castro e Milosevic. Amanhã a vítima poderá ser algum presidente democrático-popular que venha a ser eleito no hemisfério Sul, que não se adapte à “nova ordem mundial”.

Assim, o drama dos kosovares, por mais doloroso que seja, constitui um fenômeno planejado e manipulado, e a verdadeira questão em jogo é a expansão e afirmação daquilo que está sendo chamado de “a aliança militar mais bem sucedida da história”. E o que sobrar da Iugoslávia será algo ainda pior: um nacionalismo ressentido, que perderá a noção racional da política e que ainda sobrevivia da estrutura federal e socialista que Tito forjou. Isto que muitos denominam de “nacionalismo sérvio” está sendo construído de fora para dentro, em conseqüência da “globalização” fragmentadora dos países periféricos, da pressão norte-americana baseada em interesses estratégicos e do acerto de contas que a Alemanha faz com o país e o movimento político que a expulsou da parte ocidental dos Bálcãs na Segunda Guerra Mundial. Mais uma vez, vence o princípio de “dividir para governar” e de “confundir para vencer”.

* Paulo Vizentini
professor da Ufrgs , é especialista em História Contemporânea Internacional.
Atualmente leciona na Holanda, como professor na Universidade de Leinden

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