Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 034 | Ano 4|Agost 1999
HISTÓRIA
PELO RIO GRANDE

Casa, comida e emprego

Da Redação

Milhares de manifestantes da Marcha dos Sem pedem o empeachment do presidente Fernando Henrique e criticam papel da imprensa

A Marcha dos Sem, ocorrida no dia 23 de julho, vai ficar na história. Não tanto pelo número de pessoas (10 mil, segundo os organizadores; 3 mil, segundo a Brigada Militar) ou pelas palavras de ordem pedindo a cabeça do presidente Fernando Henrique Cardoso, mas pela polêmica que causou. A manifestação organizada por entidades de classe e coordenada pela CUT/RS levou operários, professores, estudantes, agricultores, funcionários públicos e desempregados de diversos pontos do estado a se reunirem em Porto Alegre para protestar contra a política econômica do Governo FHC e FMI, apoio ao orçamento participativo, por mais empregos e melhores salários. Também foi cobrado pelos manifestantes, mais empenho do governo federal na criação de novas políticas educacional, agrícola e fiscal. A Marcha dos Sem, segundo o presidente da CUT/RS Francisco Vicente, funcionou como uma espécie de preparação para a Marcha dos Cem Mil, que levará a Brasília no próximo dia 26 de agosto uma carta com mais de um milhão de assinaturas pedindo a apuração dos crimes de responsabilidade de Fernando Henrique Cardoso durante a privatização da Telebrás.

“Foi a maior ação de massas do Rio Grande do Sul. Durante a marcha se percebia que as pessoas estavam com disposição de luta pelos seus direitos”, diz o presidente estadual da CUT. Segundo Vicente, a primeira vitória foi os manifestantes terem sido recebidos pelo governador, fato inédito na história da marcha que ocorre há quatro anos. “O primeiro resultado concreto foi o compromisso do Executivo em avaliar uma proposta salarial para o funcionalismo público estadual”, relata.

Em um dos momentos da marcha, quando passava em frente ao Jornal Zero Hora, na Avenida Ipiranga, manifestantes colaram centenas de adesivos nas fachadas do prédio acusando a empresa de ser mentirosa em sua cobertura jornalística. Alguns integrantes da caminhada chegaram a ensaiar uma invasão ao prédio. A maioria, no entanto, se contentou com palavras de ordem. A reação do jornal foi dura: em nota, acusou esses manifestantes de fascistas e garantiu que, apesar da pressão, “preservará sua independência e o equilíbrio na cobertura dos fatos”.

O episódio acabou, de certa forma, ofuscando os objetivos iniciais da Marcha dos Sem. Mesmo assim, o presidente da CUT considerou “legítima” a atitude dos participantes e as caracterizou como exercício da liberdade de expressão. Segundo ele, os manifestantes enxergaram na RBS uma representação da mentira. “Fascista é a atitude de repetir uma mentira tantas vezes que isso passe a parecer verdade. É isso que Zero Hora faz, e esta prática foi apregoada por Goebels (chefe do serviço de comunicação do nazismo) a serviço de Hitler. Será que somos nós os fascistas?” pergunta o líder sindical.

Apesar disso, o ato protagonizado por esses manifestantes recebeu uma condenação praticamente unânime em vários setores. “Somos defensores intransigentes da liberdade de imprensa”, disse em nota o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Celso Schröder. “Uma imprensa livre é condição fundamental para que as sociedades resolvam seus conflitos”, acrescentou o presidente da Associação Riograndense de Imprensa, Alberto André.

Argumentando, Vicente ainda lembrou da manifestação ocorrida em frente ao Palácio Piratini, no início do governo, quando o governador Olívio Dutra foi atingido por ovos partidos da multidão. Segundo ele, o jornal não mostrou a mesma indignação diante desse episódio. “A matéria foi quase elogiosa aos manifestantes. Se nós somos fascistas, eles também foram. Se a prerrogativa de liberdade de expressão vale para um, também deve valer para outro”, argumenta Francisco.

Cultura
Circo da Cultura está Pronto

Começa no próximo dia 17 de agosto o que vários escritores brasileiros consideram ser o maior evento literário da América Latina, a 8ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Compartilham desta posição, entre outros, Carlos Heitor Cony, Moacyr Scliar e Ziraldo. Todos eles declararam-se impressionados, durante a edição de 1997, com o porte do evento com o nível dos debates.

Do dia 17 até o dia 20 de agosto serão discutidos vários assuntos ligados ao tema “Censura e exclusão na literatura e em outras linguagens”. Para isso a UPF e a prefeitura de Passo Fundo (promotores do evento) montarão o tradicional Circo da Cultura, no estádio Inde-pendente. Na edição de 1997, cerca de 3 mil pessoas por dia participaram dos debates. A mesa contará com vários convidados, entre eles os escritores Manoel de Barros, Elisa Lucinda, Gilberto Dimenstein, Domingos Meireles, Roberto Drumond, Sérgio Caparelli, Zuenir Ventura e Luis Fernando Verissimo. Entre os eventos paralelos estão previstas oficinas, cursos, sessões de autógrafos e lançamentos de livros.

O Sinpro/RS é, pela segunda vez, um dos apoiadores da jornada. Estará presente com duas mostras fotográficas e editando um Extra Classe Especial, durante os quatro dias do evento. As incrições para a Jornada de Literatura já estão encerradas. Cerca de 4 mil pes-soas vão participar da Jornada.

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