Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 034 | Ano 4|Agost 1999
ESPECIAL - ENTREVISTA
ENTREVISTA

O mercantilismo é o fim da arte

César Fraga

Augusto Boal é conhecido em todo o mundo como um ator e diretor de um teatro radical. Daqueles que vai ao fundo das coisas, que faz experiências, que não tem medo de transformar o estabelecido. E é conhecido também, principalmente, por ser o criador do chamado Teatro do Oprimido. A fama e o reconhecimento são atestados pelas dezenas de publicações internacionais e páginas na Internet que fazem referência a Boal, um dos convidados da 8ª Jornada de Literatura de Passo Fundo. Lá, ele apresentará uma de suas famosas aula-espetáculo. Nesta entrevista exclusiva ao Extra Classe, o diretor fala de censura, do comércio na arte, da sua experiência em teatro e do sucesso da sua última montagem, Carmen (em cartaz no Rio de Janeiro)

Extra Classe – O senhor estará presente na Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo com uma aula-espetáculo. O que vem a ser isto?
Augusto Boal – É uma coisa que faço muito na Europa e Estados Unidos e que tem dado bastante certo. É uma experiência bem divertida, tanto para mim como para o público. Nela eu tenho condições de externar a visão que tenho de teatro e de falar do Teatro do Oprimido por meio de fatos reais, que ocorreram comigo ou que presenciei. É uma maneira de contar histórias, todas relacionadas com o ‘fazer teatro’. É o Augusto Boal imbuído da função de conferencista, utilizando o recurso teatral para se fazer entendido. De certa forma, é o homem utilizando a linguagem dramática para se fazer compreender.

EC – Além da sua participação na Jornada de Literatura, a temporada da ópera Carmen (de Bizet) é um sucesso no Rio de Janeiro. Como foi produzir um clássico depois de tantas experiências radicais?
Boal – O que nós fizemos foi manter fielmente as melodias e harmonias originais adaptadas para ritmos e instrumentos brasileiros, como o samba. O resultado, na minha opinião, ficou fantástico. Outra transformação fundamental é que a ópera tornou- se muito mais dramática do que lírica. E, com isso, foram suprimidos ou encurtados alguns trechos musicais. Bem, o resultado com o público foi sensacional e gostaríamos de mostrar isso para o resto do Brasil.

EC – O que é o Teatro do Oprimido?
Boal – Em si, o Teatro do Oprimido é um teatro sem dogmas e realizado por meio de um conjunto de exercícios que ensinam o ser humano a utilizar uma ferramenta que ele já possui e não sabe. O homem traz esta característica teatral dentro de si. O que este tipo de teatro faz é liberar esta capacidade e ensinar à pessoa como dominá-la.

EC – Esta ausência de dogmas o torna mais universal?
Boal – Universal não diria, mas possível de ser realizado em qualquer parte do planeta visto que em toda parte há seres humanos e também há opressão. Por isso, o Teatro do Oprimido, assim como a pedagogia, filosofia, psicoterapia e a política, pode ser praticado em culturas totalmente diferentes, tanto no Brasil como na África. Já existem grupos que o praticam na África, no Japão, em Hong Kong, na Coréia e em praticamente todos os países da Europa. A própria cultura brasileira é especialmente promissora para esta prática, já que não pode ser caracterizada como uma, mas na verdade milhares de culturas.

EC – E o que se quer dizer com esse teatro?
Boal – Não existe isso. O teatro do oprimido não tem uma mensagem específica. Nunca dizemos faça assim ou faça assado. É um método de descoberta do desejo e de ensaio de realização deste desejo.

EC – Como ele surgiu?
Boal – Ele surgiu em São Paulo, no início dos anos 70. Em sua primeira forma chamava-se Teatro Jornal. Foi quando pela primeira vez eu trabalhei com um grupo no Núcleo 2 do Teatro de Arena. Era um espetáculo que ao mesmo tempo ensinava a fazer teatro a partir de jornal e que procurava dar ao espectador não um produto acabado, mas os meios de produção. Depois tive uma experiência na Argentina, com o Teatro Invisível, que é uma forma de utilizar o teatro dentro da realidade sem revelar que é teatro. Ou seja, os espectadores intervêm na cena como se ela fosse um fato real.

EC – Esta proposta de teatro lhe trouxe problemas com o regime militar logo em seguida. Como fica a relação do artista que se pretende manter consciente dentro de uma estrutura repressora?
Boal – Só para situar, fui preso em 1971, logo no início do Teatro do Oprimido. Mas o que deve ser analisado não é o fato em si, mas como se dá esta relação. Quando se está inserido em uma estrutura convencional de teatro, a censura se dá de duas formas. Uma delas é a policial, característica do regime autoritário que o Brasil viveu a partir de 1964 até a Constituição de 1986. Bem, esta censura praticamente já não existe e quando surge é esporádica, um fato aqui ou ali. Aoutra forma existente, e esta é tão ruim quanto a outra, é aquela que se dá na forma da sedução.

EC – Como assim?
Boal – O sujeito te diz: se você fizer o que eu quero, ganha o dinheiro para fazer a produção. Se não fizer, não tem. Este, infelizmente, é o padrão de censura dominante no Brasil. É a coerção pelo poder econômico. São as empresas que determinam o que pode ser feito e o artista não está livre para fazer suas experiências, ele perdeu este direito.

EC – O governo chama isso de parceria, não é?
Boal – O governo chama desta forma, mas esta parceria não existe de fato. É mentira. Uma parceria de fato ocorre quando os parceiros possuem o mesmo objetivo e força semelhante. Quando um dos lados é o “todo poderoso” e ao outro não resta opção, fica difícil.

EC – O que é isso, então?
Boal – O que está ocorrendo no Brasil é a privatização da cultura. Os artistas correm atrás de quem quer patrocinar, este é o normal. Já o patrocinador encara a produção artística como parte de seu projeto de marketing. Ele nunca vai dar dinheiro para um projeto de dança, teatro, música, que não seja assemelhado aos produtos que ele vende, ou que compartilhe da mesma ideologia.

EC – Esta promiscuidade causada pela mercantilização da cultura, que resultados pode nos trazer a curto e longo prazo?
Boal – A conseqüência é que isso vai tornando a arte ascéptica, pouco a pouco transformando nossa cultura em matéria plástica, sem cor, sem cheiro, sem sabor e sem sentido. O que os patrocinadores geralmente querem é reproduzir um mundo velho, já conhecido e aprovado. Não se propõe nada. É o fim da arte.

EC – Se não é arte, como conceituar então este tipo de manifestação que já está bem arraigado no dia-a-dia das pessoas?
Boal – Não podemos confundir arte com artesanato. Este exemplo que eu dei está mais para a artesania, que é a reprodução de um mesmo modelo. Uma vez que estes pseudo-artistas trabalham para a reprodução do mundo que seus patrocinadores acham viável, e reprodução não é arte, está explicado. Além disso, existe uma ironia nisto tudo, que é o fato de muitas vezes se dar o status de artista às pessoas que perpetuam este tipo de reprodução a que me referi anteriormente, e se chamar de artesãos os artistas populares maravilhosos que realizam obras totalmente originais simplesmente por ser consideradas folclóricas. Mas, só para não fugir do assunto, queria dizer que a curto, médio ou longo prazo, a pior conseqüência deste processo é o da esterilização da arte por meio da reprodução de modelos já consagrados pelo marketing.

EC – Existe perspectiva para o teatro no Brasil?
Boal – É claro que sim. A gente sempre fica sabendo de grupos que, mesmo sem auxílio da iniciativa privada ou verbas públicas, realizam trabalhos com perspectiva semelhante à do Teatro do Oprimido. Está certo que muitas vezes são estruturas amadoras, mas o importante é que se faça para que haja alguma espécie de resistência a este modelo imposto pela globalização. Ela sempre pressupõe que cultura tem de dar lucro.

EC – E não deve dar lucro?
Boal – Este pressuposto é dos neoliberais. A cultura, assim como os bombeiros e os hospitais, tem de ser subsidiada. Senão, a gente vai acabar como aquelas freiras em Viena, na Áustria, que matavam os pacientes terminais em um hospital por julgarem que eles seriam deficitários do ponto de vista econômico. Existem atividades que são deficitárias por natureza e precisam de subvenção. O teatro que dá lucro é aquele que é ancorado por uma estrela ou vedete de televisão, e que geralmente está dentro de uma norma de sucesso em que tudo gira em torno da estrela. Este teatro geralmente dá muito dinheiro. Mas é preciso que se garanta condições para que certas experiências, fora destes padrões, possam ser desenvolvidas sem esta preocupação.

EC – O que está ocorrendo não seria uma transferência do raciocínio neoliberal e globalizante para a cultura?
Boal – É evidente que esta mentalidade se instituiu no meio. Assim como é evidente que o lucro proporcionado pela arte se dá de outra forma. Por exemplo: se você enriquecer um produção teatral expondo a platéia a estímulos plásticos, estará enriquecendo a forma de pensar do espectador e conseqüentemente gerando um lucro. Mas um lucro de crescimento humano, de um valor muito difícil de ser medido já que não se trata de uma mercadoria vulgar. Neste caso, não se trata de um lucro financeiro, mas humano. Este lucro existe em qualquer atividade verdadeiramente artística, em que a estética tem esta capacidade de alargar a capacidade de percepção do seres humanos. A arte faz o homem mais rico, mas não de dinheiro.

EC – Então o êxito comercial desses espetáculos, digamos alternativos, já é limitado por natureza?
Boal – As chances destes espetáculos obterem sucesso pelo Brasil afora são reduzidas muito mais pela concentração da mídia no eixo Rio e São Paulo do que por sua qualidade. O público das demais localidades é muito influenciado pelos gostos e padrões reproduzidos por esta cultura televisiva. Temos basicamente dois pólos centralizadores da informação e da produção em televisão. Você não vê em rede nacional o evento de Passo Fundo ou de Manaus. É como se não existisse nada ao sul de São Paulo ou ao norte do Rio de Janeiro. Não se vê elencos do Rio Grande do Sul ou do Amazonas na telinha. O que se vê são atores que vêm para Rio e São Paulo e fazem carreira. É muito difícil até mesmo repercutir peças de autores que não sejam destes dois centros.

EC – O senhor poderia antecipar algumas das histórias que vai contar em Passo Fundo para nossos leitores?
Boal – De forma alguma. Perderia a graça (risos). Só mesmo lá para saberem do que eu estou falando.

 

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