Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 035| Ano 4| Set 1999
ENTREVISTA | PAIXÃO CÔRTES
ENTREVISTA

Descobrimos o gaúcho social

César Fraga

Duas visões diferentes do gaúcho e duas trajetórias distintas descritas por dois homens cujas carreiras estão diretamente ligadas à figura do gaúcho. De um lado, João Carlos D’Avila Paixão Côrtes, precursor do tradicionalismo e um dos responsáveis pela manutenção da imagem mítica do centauro dos pampas. Do outro, Vítor Ramil e o que ele mesmo chama de “estética do frio”, proposta em que o escritor e compositor procura traduzir esse mesmo gaúcho sobre uma outra ótica, negando, de certa forma, o estereótipo tradicional. Em comum, ambos trilham seus caminhos de forma independente, à margem da estrutura da indústria cultural. Nas entrevistas a seguir, cada um deles fala do seu trabalho, de sua trajetória e, principalmente, da busca da identidade deste gaúcho

Extra classe – O que levou o senhor, então com 19 anos, e o Barbosa Lessa, com 16, dois estudantes do ginasial do Colégio Júlio de Castilhos em Porto Alegre, irem a campo pesquisar sobre a identidade do gaúcho numa época em que o conceito de tradicionalismo não existia e a definição de folclore ainda era muito vaga?

Paixão Côrtes – Na verdade, nenhuma das duas primeiras palavras – tradicionalismo e folclore – estava dicionarizada. Pelo menos para nós (risos). Em 1947, o próprio termo antropologia era desconhecido para nós, pois era de uso restrito dos eruditos. Nunca tivemos a pretensão da antropologia. Nossa pesquisa era de cunho popular, da busca do linguajar, da vestimenta, da música e dança campesinos do nosso estado.

EC – Dá para dizer que o senhor e o Barbosa Lessa são os inventores do tradicionalismo?

Paixão – Não, nós não temos a pretensão disso. Antes de nós já havia registros de estudiosos que, inclusive, serviram como base para a nossa pesquisa. Mas tratava-se de historiadores e escritores que falavam dos feitos do gaúcho mítico, do guerreiro, do centauro dos pampas. Só o que existia era a história farroupilha e a história das revoluções. O que restou foi o registro oral de memória, de que nós saímos à cata. Na verdade, eu diria que nós iniciamos um novo ciclo.

EC – E como vocês faziam esta pesquisa? Qual sistemática utilizavam?

Paixão – Nós arrolávamos todas as informações que conseguíamos. Depois disso selecionávamos e registrávamos tudo, de forma que as cantigas e danças pudessem ser executadas a partir desse registro. Dos depoimentos eram registradas as partituras e os passos de dança. Assim, não nos contentávamos com o registro literário. Queríamos garantir que a partir daquele material se pudesse cantar e dançar aquelas peças. Buscávamos a fonte, selecionávamos o material, registrávamos e transmitíamos adiante. Só isso.

EC – Dependia-se muito da memória das pessoas. Qual era o procedimento?

Paixão – Eu e o Lessa recebíamos a informação de que em determinada cidade havia uma pessoa, geralmente já idosa, que sabia cantar e dançar determinado ritmo. Pegávamos as malas e íamos procurar a tal pessoa. Dependíamos exclusivamente da memória delas. Muitas vezes não tínhamos qualquer referência. Então, já perguntávamos logo pelos habitantes mais idosos. A forma do registro era simples. Perguntávamos: o senhor, ou a senhora, poderia cantar e dançar a tal música? Registrávamos tudo por desenhos e partituras. Isso só ficou mais fácil depois que conseguimos uma máquina de gravar emprestada.

EC – Qual era a reação?

Paixão – Era de espanto (risos). Todos se perguntavam por que jovens como nós viviam procurando por velhos. Outros, muito desconfiados, achavam que estávamos atrás de algum tesouro escondido (mais risos). Era preciso conquistar a confiança das pessoas para conseguir que elas, geralmente entre os 60 e os 80 anos, cantassem e sapateassem em uma época de plena proliferação da cultura norte- americana.

EC – Qual era o cenário da cultura gaúcha no pós-guerra?

Paixão – Era o auge do pan-americanismo. Para se ter uma idéia, se um camponês saísse de casa em direção à cidade, carregava uma muda de roupas para substituir as bombachas quando fosse chegar. Se não fizesse isso era visto com maus olhos. Era considerado um cidadão de segunda classe. O próprio chimarrão, na cidade, era consumido apenas dentro da residência e longe das janelas. Enquanto o modernismo estava na ordem do dia, um grupo de jovens secundaristas saía na busca de suas raízes.

EC – E vocês chegaram a uma imagem clássica do gaúcho, que praticamente não existia no imaginário popular.

Paixão – O gaúcho sempre existiu como o tal centauro dos pampas, o monarca das coxilhas ligado a um fato épico, histórico e político, e não mais do que isso. Mas esta é uma figura poética que surgiu para se transformar em um símbolo. E símbolos são importantes para que se mantenha a identidade do povo. Só que esta imagem já existia. O que fizemos foi recuperá-la e dar-lhe uma outra dimensão. Até então, o aspecto social e recreativo era totalmente desconhecido. Era Boi Barroso, Prenda Minha e estamos conversados. Encerrou-se o repertório musical e coreográfico do Rio Grande. Havia os registros do Cezimbra Jacques e do Simões Lopes Neto, tinha ali O Balaio, por exemplo. Mas como se dança? Como se canta? Ninguém sabia e fomos descobrir isso na memória das pessoas comuns. Isso ocorreu também com O Pezinho e tantas outras. O que eu quero dizer com tudo isso é que não existe um gaúcho. Existem várias figuras representativas nesta concepção generalizada de gaúcho. Todas as influências étnicas, regionais e sociais vieram contribuir para a formação desses gaúchos. O homem campeiro não fala em monarca ou centauro. Talvez nem saiba o significado dessas palavras. Ah, o seu Centauro não mora aqui, não senhor. Deve ser de outro rincão (risos). Entende? Essas expressões e analogias são coisas de escritores que estiveram ou viveram no estado.

EC – Essa visão de gaúcho apregoada pelo movimento tradicionalista não seria muito conservadora?

Paixão – Atradição deve ser conservada, mas isso não significa que deva estagnar-se. Só que esta conservação deve ser feita com responsabilidade e documentação, e não com mentiras. Afinal, estamos falando de um movimento tradicionalista e não de um estanque tradicionalista.

EC – Como o senhor vê as leituras estilizadas da dança e música gaúchas, fundindo-se com outras culturas?

Paixão – Ninguém pode interferir na liberdade criativa das pessoas. Isso seria fascismo. Só que é preciso ter cultura para desenvolver um trabalho que não perca a sua linha fundamental. Eu próprio já gravei com a Orquestra Sinfônica de São Paulo e o que se ouvia era um trabalho totalmente identificado com a cultura gaúcha. Sensibilidade e conhecimento são fundamentais para que não haja distorções. Tem gente que está brincando com o folclore e com o tradicionalismo. É o tal do cidadão que não tem o que fazer e de repente vira gaúcho. O que não se pode admitir é que algumas pessoas se fantasiem de gaúcho e tomem atitudes de palco e de composição completamente desvinculadas das características regionais, se dizendo tradicionalistas e autores de música gaúcha. É tchê isso, tchê aquilo. Entende? Estas manifestações surgem de exigências de mercado e da dificuldade de veiculação da arte verdadeiramente popular na mídia.

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