Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 035| Ano 4| Set 1999
ELISA LUCINDA

Purpurina da pura

Cheguei do Canadá com vários potes de um gel com purpurina que comprei a um dólar canadense cada, que é “igual que nem” o nosso real. Então, depois que cortei o cabelo assim curtinho, decidi fazer uma máscara de purpurina na forma do cabelo. Assim acompanhando o corte feito uma touquinha brilhante. Sempre combinando com a roupa de cena. Virou figurino e cenografia já que luz e purpurina se entendem muito bem. Pois bem, não é que agora, muitos realces depois, me vejo em Porto Alegre para apresentar o espetáculo; qual não foi a minha surpresa: onde está a minha purpurina vermelha gel? Deixei no Rio. No outro segundo, tive uma idéia genuinamente brasileira que era ao mesmo tempo uma solução já que esqueci a canadense no Rio, faço outra com as próprias mãos: comprei gel nosso e purpurina na papelaria. Misturei no camarim, sem ensaio, e fez sucesso absoluto aquele brilho. Parecia até brilhar mais que a canadense, disse minha alma brasileira obssessiva e ufanista.

Voltei de Porto Alegre e desembarquei praticamente direto para outro ofício; dar aulas para professores do Leia Brasil.

Quase sem dormir, entre o aeroporto e o Trapiche das Artes onde funcionaria o curso, banheime com amor, porém rápido e exagerando no xampu na cabeça. Porque a cena era externa dia. Me vesti meio tonta mas com a lucidez racional de enfiar-me num figurino sóbrio. No que o inverno ajuda. Pensei em me disfarçar quase, em verdade. Então achei uma camisa de seda listada abotoada por mim até o ponto final do pescoço, longa e larga, discretissimamente transparente, sobre uma calça preta comprida. Estava bem: era uma professora discreta sem pernas de fora, como é do feitio de minhas pernas exporem-se, e sem decotes ainda por cima. Nota dez com louvor.

Cheguei. Havia professores de todas as tribos, uma contadora de histórias e outra redatora de TV. Era o primeiro dia de aula. Fui bem; fomos bem. Os alunos apenas me olhavam com olhos arregalados no primeiro momento. Nos depoimentos de auto apresentação, contrapunham suas personalidades à minha, em sua maioria: “olha, eu não sou excêntrica como você mas escrevo, leciono, alfabetizo, falo poesias etc etc”. Eu pensava, sem me deter em reflexões profundas: excêntrica? Eu? Como? Por quê? Meu disfarce não deu certo? Engraçado: acho que sou eu que sou espalhafatosa na essência. Estou tão discreta hoje.

A coisa rolou bem até o final do dia.

Fui à sala do chefe depois falar com ele, Jason. Parabenizá-lo pelo belo espaço no Trapiche, pela ousada bela idéia dele comprar esse antigo galpão lá no Santo Cristo, para dar um destino de cultura nele. Pedi pra usar o espelho da sua sala, para retocar amaquiagem, pois dali um outro ofício na Fundição Progresso me esperava. Enquanto eu passava rímel ele me dizia: “Elisa, cortei os cabelos pra te copiar (eram longos e com rabinho, anteriormente), só não copiei a purpurina…”

Que purpurina? Eu perguntei atônita.

“Essa vermelha”, ele respondeu.

Por um momento quis morrer. Sol quente, dia azul e eu dera cinco horas de aula achando que enganara a todos, que era discreta. Por isso, “excêntrica”. Uma da tarde e purpurina vermelha incandescente no cabelo! Não há figurino discreto que agüente. Fiquei pasma. Havia usado o xampu destruidor de purpurina, o que teria acontecido?

Fiz foi um arranjo brasileiro: fabriquei a mistura e depois me disseram que a de papelaria é outra. E cola na cabeça. Que o Brasil já fabrica essa mistura igualzinha a do Canadá, que é ótima. Que eu nem precisava ter feito isso…

Meu Deus, qual é a lição?

A primeira é que tentar disfarçar a si mesmo não é boa coisa. É trair senão a Jesus, pelo menos a Leminsky: “esse negócio da gente querer ser exatamente o que a gente é ainda vai nos levar além”.

Ridícula eu, a essa altura da vida pensando em parecer outra. Lembrei-me de uma vez numa ceia de natal em Vitória na casa de uma amiga executivíssima. Havia uma mesa com vários pratos e um arroz branco, normal, só que na forma de um pudim. Era um arroz fantasiado de pudim. Mas havia também outros arrozes em suas usuais tigelas e que foram comidos vorazmente. No final, esse com cara de pudim parecia uma noiva ainda virgem depois do casamento. Coitado. Viera vestido de outro, não de si. Talvez nem tenha sido reconhecido como arroz.

Eu tinha sido aquele arroz. Quis ter parecido ser outra. Agi como se não me fosse normal purpurina de manhã, na cabeça, como se isso não fosse ser eu. Como se não me fosse belo isso, como se não brilhassem as idéias naquela tarde e não fosse minha cabeça por fora, a metáfora desse dentro.

Retrógrada eu, autocensurada e ainda perdedora na na fracassada estratégia.

Me disseram depois que essa purpurina de papelaria não sai nem sozinha, que dirá misturada com gel…

Gostei na verdade que o que me traiu tenha acabado por me revelar.

Todos gostaram da aula, do que eu disse, do que estudamos, do que experimentamos e de mim.

Talvez alguns achem até que todo mundo deveria sair de casa com purpurina na cabeça. Graças a Deus, há alguém em mim que me trai para eu não me trair.

* Elisa Lucinda é atriz e poeta

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