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Nº 036| Ano 4| Out 1999
EDITORIAL
EDITORIAL

A importância de ser do contra.

O Editor

Um país inteiro discute o que fazer nos próximos três anos com o governo que foi eleito há exatamente 12 meses. Não é pouco tempo pela frente. Em menos de três anos, por exemplo o fenômeno Fernando Collor de Mello ascendeu politicamente, foi eleito, governou e acabou sendo afastado por corrupção depois de uma verdadeira onda nacional de mobilização. O que fazer nesse tempo tão longo sem um projeto muito claro para o país, visto que a política econômica não emite sinais de que trará soluções aos problemas mais graves do país?

Foi essa pergunta que fizemos a várias autoridades no assunto durante o mês de setembro, e que agora chegam ao leitor do Extra Classe em forma de reportagem de capa. A maioria das pessoas ouvidas pelo repórter César Fraga acha que estamos vivendo sim uma situação delicada, com um presidente rejeitado por dois em cada três brasileiros e um projeto que privilegiou o modelo defendido pelo FMI questionado até por aliados políticos do governo.

Não que corramos algum risco imediato de volta abrupta da inflação ou descontrole produtivo iminente. Até por causa da recessão, a volta de uma ciranda inflacionária – que acabou com o presidente José Sarney em 1988, dando-lhe a maior rejeição da história do país – é pouquíssimo provável neste momento, como nos explica o economista Cássio Calvete na página 23. Mas não que os elementos constitutivos desse fenômeno -o desequilíbrio cambial, a especulação e a monopolização de alguns setores vitais da economia, não estejam presentes.

Por isso mesmo deve-se acelerar o debate em torno das alternativas políticas e econômicas ao modelo atual, como alerta o cientista político Eduardo Corsetti. O sistema evidenciado nos últimos dez anos não trouxe crescimento, pelo contrário. Estagnou o país num padrão medíocre de desempenho e elevou taxas de desemprego e de dependência externa. Constatar que o monólogo neoliberal acabou é a boa notícia desse processo de crise de modelo e de governabilidade.

Por outro lado, a crise também resgatou o movimento social de sua falta de propostas e de iniciativas que caracterizou o primeiro mandato de Fernando Henrique. Um movimento social forte é condição essencial para a democracia, para o debate, para o contraditório. É o que podemos concluir a partir da reportagem de Sandra Hahn nas páginas 8 e 9, onde as lideranças sindicais do estado e do país explicam a agenda de manifestações que tem por objetivo justamente acabar com o monólogo neoliberal.

Em suma, às vezes uma crise com a gravidade da que estamos vivendo pode reacender o debate em torno dos melhores rumos para o país. Debate esse que foi abafado – sufocado, até – pela presunção de que o modelo adotado por esse governo era inevitável e mesmo infalível. Sabemos, agora, que não é.

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