Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 037 | Ano 4 | Nov 1999
BARBOSA LESSA

Em duas metades

Barbosa Lessa

Dentre as imagens de nosso passado histórico, vale relem-brar aquela vez, por volta de 1880, em que a Metade-Norte da Província de São Pedro co-meçou se queixando de aban-dono governamental, ergueu protestos na Câmara de Cruz Alta e terminou enviando à Corte o deputado Antônio Go-mes Pinheiro Machado para que tentasse obter junto a D. Pedro II a mercê de se tornar uma província autônoma. Pois agora começa a repetir-se o episódio, por conta da Metade-Sul. Não tenho tido tempo pa-ra acompanhar tal questão, mas, caso ela venha a ser encami-nhada pelos devidos trâmites, só imagino a trabalheira que vai dar. Antes de mais nada, os legisladores terão de definir claramente a linha divisória entre os dois novos Estados, o do Norte e o do Sul.

Sei que não vai haver maior problema na longa reta desde a foz do rio Ibicuí até alcançar o Médio-Jacuí, mas, na hora de atravessar o Guaíba e se defron-tar com Porto Alegre… bah! Por onde dobrar? Em ângulo reto para cima, até o Itaimbezinho e o Mampituba, ou em ângulo re-to para baixo, até o porto de São José do Norte?

Nada disso! Seria uma injus-tiça se Porto Alegre – nossa maior e mais rica cidade – ficasse como uma simples telespectadora, torcendo para o novo Estado X ou o novo Estado Y. E seria uma tremenda duma mal-agradecida se abandonasse um ou o outro para se entregar inteirinha a um só deles. Ela precisa se subdivi-dir claramente, para que a linha que vem vindo de tão longe possa cruzar firme e seguir até Viamão e Tramandaí.

Não vim aqui só para criar problema ao poder público, mas, como humilde cidadão, an-tevejo uma baita confusão quan-do a população porto-alegrense, até hoje uma e indissolúvel, ti-ver de optar por X ou Y. Então, tomo a liberdade de sugerir uma primeira proposta de linha divi-sória, a partir do momento em que, vinda desde o Ibicuí, ela mergulha no Guaíba e se de-fronta com os arranha-céus da bela capital.

Proponho que a divisa che-gue pelo Hipódromo do Cristal, suba o Morro Santa Teresa (de onde se descortinará o panora-ma da nova fronteira), desça a Corrêa Lima e vá pela avenida da Azenha até o fim, daí toman-do o melhor rumo para Viamão e Tramandaí.

Uma das maiores vantagens desta proposta é a oportunida-de de separar geo-politicamente o estádio Beira-Rio e o estádio Olímpico.

Como o Ínter e o Grêmio an-dam meio desacorçoados, preci-sando de uma força, fantástico impulso receberiam ao se torna-rem integrantes permanentes de dois Estados vizinhos que logo se tornariam rivais. O Novo Sul já nasceria como um gigante de duas cabeças.

Aparentemente tão simples, esta medida teria o mérito su-plementar de solucionar vários problemas incontornáveis quan-do chegasse a hora de lançar bo-nitinhas as duas novas unida-des federativas. Senão, vejamos:

Quais os dois hinos que subs-tituiriam o velho “Como a aurora precursora” do antigo Rio Gran-de do Sul? Mas já estão prontos! E prontas também as bandeiras!

Se algum cidadão não qui-sesse continuar morando deste lado, era só se mudar para um apartamento mais adiante, no meio da sua torcida. Com tal fim, até a pé nós iremos…

Ou, então, o melhor é deixar assim mesmo como está, sem mexer no nosso velho e querido Estado do Rio Grande do Sul.

* Luiz Carlos Barbosa Lessa é jornalista, historiador, folclorista e escritor.

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