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Nº 038 | Ano 04 | Dez 1999
MOVIMENTO
MOVIMENTO

200 mil cruzaram os braços

Da Redação

Saldo da greve geral de novembro, apesar da avaliação positiva dos

Embora o saldo da paralisação de 10 de novembro tenha sido considerado positivo pela Coordenação Unitária dos Trabalhadores Gaúchos (que reúne CUT, movimento estudantil, pastorais, MST e partidos políticos de oposição), a mobilização de trabalhadores ficou longe do que pode ser considerado uma greve geral. O movimento foi mais que parcial no Rio Grande do Sul, atingindo apenas alguns setores. Cerca de 200 mil trabalhadores cruzaram os braços no estado, segundo a CUT.

A estratégia de paralisar o transporte coletivo da região metropolitana fez com que a greve ganhasse fôlego pelo menos até o final da manhã do dia 10, prejudicando a atividade de alguns bancos públicos. Além disso, petroleiros, metroviários, trabalhadores da Justiça, professores estaduais, pequenos produtores rurais e setores do funcionalismo público estadual, federal e municipal também aderiram ao movimento de protesto.

Já se sabia, na véspera do dia 10, que os rodoviários não parariam. Com isso, os estudantes – a maioria ligados ao Diretório Central da Ufrgs em conjunto com sindicalistas foram acampar nos portões das garagens das empresas de ônibus a partir das 3h da manhã. Como resultado, os ônibus não circularam e muitas pessoas acabaram nem saindo de casa ou utilizando táxis e lotações para trabalhar.

Na Carris, por exemplo, não houve incidentes. De acordo com a estudante Mariane Vargas, foram liberados apenas dois ônibus da Carris pelos estudantes para que pudesse ser feito o transporte dos funcionários do HPS (Hospital de Pronto Socorro) por volta das 4h. Os 1,5 mil funcionários da empresa acabaram aderindo à paralisação mesmo que a contragosto. “Ninguém explicou muita coisa para a gente. Foi tudo na pressão e acho que poderia ser diferente”, afirmou o cobrador Dionísio Junqueira. Ele não negou a justiça da manifestação, mas disse que preferia estar trabalhando.

Roberto Roraima, da direção nacional do PT e um dos organizadores dos piquetes, explicou que a intenção era segurar a mobilização até o meio-dia. Às 10h, porém, todos os piquetes já estavam liberando a saída de ônibus das garagens. À exceção da ausência de ônibus na capital, tudo o mais parecia normal. Lojas abertas, escritórios funcionando, paradas de ônibus vazias. No interior, outras 15 cidades também tiveram o transporte imobilizado pelos piquetes. Além disso, ocorreu ocupação de postos pedágios em várias estradas pelos integrantes do MST.

De acordo com o presidente da CUT, Francisco Vicenti, 31 municípios tiveram paralisações e realizaram manifestações contra FHC e o FMI, principal palavra de ordem dos protestos. O sindicalista destacou as atividades em Pelotas, Ijuí, Erechim e Passo Fundo. “Foi maior que a greve geral que o estado produziu desde 1996”, avaliou Vicenti.

Brigada Militar teve ação preventiva

Outro fator novo na mobilização do dia 10 foi o comportamento da Brigada Militar, que não passou de espectadora dos corredores poloneses, piquetes e interdições de vias públicas promovidas pelos grevistas. Até mesmo ajudou a organizar o trânsito da capital para que os cerca de 2 mil manifestantes pudessem se dirigir a pé dos seus respectivos piquetes até o largo Glênio Peres, por volta do meio-dia. “Foi a primeira vez que a Brigada não funcionou como braço armado dos empresários”, comemorou o presidente da CUT, Francisco Vicente.

Um exemplo emblemático disso foi o aperto de mão demorado e repleto de saudações entre Raul Carrion, da direção do PcdoB (Partido Comunista do Brasil) e um dos oficiais da Brigada Militar no desbloqueio dos portões da empresa de ônibus Sudeste, em Porto Alegre.

A situação somente ficou tensa em frente à refinaria Alberto Pasqualini, em Canoas. Os grevistas fecharam a avenida Getúlio Vargas, junto aos portões da Petrobrás, que, mesmo assim, não parou de produzir, segundo Gerson Pires, diretor de Formação do Sindicato dos Petroleiros. Os funcionários que entraram antes da meia-noite mantiveram a máquinas funcionando até o final da paralisação, que se daria 12 horas depois.

Também foi a primeira vez que os trabalhadores terceirizados da Petrobrás (sem estabilidade), que têm salários inferiores aos concursados, estiveram ao lado dos grevistas, aproveitando para dar início a reivindicações específicas da categoria. O operador de bombas Carlos Geraldo, empolgado com a movimentação, não se intimidou com a falta de transporte coletivo e caminhou vários quilômetros para poder participar do piquete.

A poucos metros dali, o administrador de empresas André Luis da Silva reclamava da falta de preparo do policiamento para impedir manifestações. “Eu acho que a causa dos manifestantes é justa, mas a forma é equivocada. Não acredito que uma greve possa mudar alguma coisa, pelo contrário: só atrapalha a vida das pessoas”, disse. André fez parte do engarrafamento de mais de dez quilômetros causado pela barricada feita pelos petroleiros na BR 116. Ele teve de esperar por mais de duas horas dentro do carro até sair do local.

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