Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 038 | Ano 04 | Dez 1999
ESPECIAL - PESQUISA
PESQUISA

A ciência no meio do caminho

Renato Dalto

Foi preciso desvendar a menor partícula da matéria, o átomo, para se chegar às raias do universo. Os físicos – como o tinham feito antes Galileu e Newton – desafiaram mais uma vez as aparências e ajudaram a revolucionar a ciência no século 20. Entretanto, chegamos a dois opostos embalados pelo mesmo impulso científico e tecnológico – a divisibilidade do átomo serviu para a indústria bélica criar a bomba nuclear, mas ajudou também a medicina nos diagnósticos e na terapêutica. Foram cem anos velozes em matéria de vida e de morte.

Na medicina, por exemplo, o aporte tecnológico prolongou a vida. “Este foi o século do coração”, afirma o médico Fernando Lucchese, diretor do Hospital São Francisco e coordenador de transplantes cardíacos da Santa Casa. A tecnologia desafiou as grandezas do tempo e do espaço, transformou juízos absolutos em relativos. Hoje é capaz de alterar geneticamente os mais elementares princípios da vida – e até mesmo clonar seres vivos. O século termina com o mundo interligado pela rede mundial de computadores, a internet, algo inimaginável há pouco mais de três décadas. A impressão é de que tudo aconteceu rápido demais.

E tudo indica que este caminho levará a ainda muito mais longe. Quando Lucchese resume o século 20 como o “século da vida”, projeta que o próximo seja “o século da qualidade de vida”. Ele acredita que não está muito longe o tempo em que as pessoas viverão 120 anos e prevê grandes avanços nos estudos sobre o cérebro, assim como na engenharia genética. Essa expectativa de viver mais tempo, entretanto, também deve estar associada a padrões de desenvolvimento que continuam esbarrando no conhecido abismo entre ricos e pobres. Viver mais, sim. Mas viver com que qualidade?

Houve também problemas no processo de desenvolvimento da ciência. Os grandes avanços da engenharia genética e da biotecnologia certamente permitirão avanços inimagináveis, como a criação de órgãos para transplantes. Por meio da biologia molecular, será possível entender a estrutura do DNA e avançar na engenharia genética, na clonagem de seres vivos que resultou na ovelha Dolly envelhecida precocemente sem que se saiba a causa. “Ela nasceu ontem e já está velha”, ironiza Lucchese. Sinal de que ainda falta muito para o processo ser integralmente controlado. “A fronteira da ética e da moral é extremamente tênue e é facilmente, num entusiasmo, transgredida”, adverte.

E existem as fronteiras estabelecidas pelo poder econômico. Ou seja, a geração de tecnologia continua extremamente concentrada. A publicação World Social Situation informa que, entre a década de 70 e 80, os países capitalistas desenvolvidos gastaram quase três quartos de todos os orçamentos do mundo em pesquisa e desenvolvimento, enquanto os pobres não gastaram mais de 2% a 3%. Tecnologia também tem significado poder.

Há um poder intrínseco que se mede pelo poder de consumo. Aparelhos sofisticados que executam várias tarefas através de um controle remoto, numa tecla, num código qualquer. Nos supermercados, nos bancos, nas lojas, no telefone, tudo foi facilitado para que a vida se torne mais cômoda. Por trás disso, o tempo abreviado e uma certa automatização dos gestos. Passamos de criadores a indivíduos dependentes da tecnologia.

E há um outro poder que se dá pela capacidade explícita de destruição – um tênue limite que deixa muito próximos, a cada avanço científico-tecnológico, sentimentos que podem variar entre a euforia e o terror. O físico César Augusto Zen Vasconcellos, um pesquisador que transita entre a física nuclear e a astrofísica, lembra que no início do século, em 1911, o físico inglês Rutherford abriu caminho para que a matéria tivesse outra compreensão. Ele descobriu o núcleo atômico, viu que os elétrons circulavam em volta dele como um pequeno sistema solar. Estavam lançadas as bases da física nuclear, que apresentaria novas formas de energia para o homem.

A indústria bélica, porém, vislumbrou nessa estrutura do átomo uma arma mortal. Ao criar instabilidade na estrutura do átomo e, conseqüentemente na matéria, é 1999 código supermercados, telefone, a trás uma gestos. indivíduos dá destruição deixa avanço sentimentos e Augusto pesquisador e início inglês que compreensão. atômico, circulavam pequeno as apresentaria energia vislumbrou átomo instabilidade e, é possível multiplicar os nêutrons em progressão geométrica e criar um processo de destruição praticamente incontrolável. Foi assim que nasceu a bomba atômica. “Isso não quer dizer que tenha que se parar a ciência, a civilização é que precisa evoluir e criar formas harmônicas de convivência”, argumenta Vasconcellos.

A física foi alterando até mesmo dogmas científicos. Albert Einstein, o grande cientista deste século, mostrou que as formas de energia têm massa dinâmica. Alterou-se radicalmente também a compreensão do universo. “No próximo século, as especulações sobre os paradigmas do universo vão dominar as especulações”, avalia Vasconcellos. Ele também lembra que as missões espaciais, especialmente dos Estados Unidos e da antiga União Soviética, serviram para transformar o espaço em mais um campo de batalha da Guerra Fria. Foi a ciência a serviço dos impérios que, por longas décadas, dividiram a hegemonia do planeta.

Longe das disputas políticas, os caminhos da ciência foram se encontrando de forma integrada. Para Lucchese, a medicina integrou de forma interdisciplinar várias áreas do conhecimento. É o caso do marca-passo cardíaco, um aparelho que envolve princípios da cirurgia com recursos da eletrônica, a computação, a física (através dos semi-condutores), a estrutura dos materiais, a miniaturização (uma ciência dentro da ciência) e o próprio conhecimento sobre medicamentos.

Abriram-se grandes possibili-dades para o prolongamento da vida. No início do século eram apenas três vacinas contra as epidemias mais graves. Hoje, são mais de 30. Mecanismos atualmente considerados simples e rotineiros, como a fluoração da água, fizeram cair vertiginosamente os índices de mortalidade. Mas como a vida não se processa no vácuo, a ciência avança, embora nem sempre chegue a todos. As leis que movem a sociedade têm outras implicações.

O avanço tecnológico está diretamente ligado a padrões de desenvolvimento. Talvez seja o momento do progresso da ciência refletir também o pleno desenvolvimento humano em outras áreas. A exclusão social ainda é a doença mais grave do século.

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