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Nº 038 | Ano 04 | Dez 1999
CULTURA
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Espanhóis bons de briga

Márcia Camarano

Iolanda Vargas, professora aposentada e advogada, pós-graduada em Cultura Hispânica, sempre ouviu falar que, onde se juntam três espanhóis, é porque dois estão brigando. Ela queria saber onde andavam os espanhóis que viviam em Porto Alegre. Sem encontrar qualquer bibliografia sobre o assunto, resolveu fazer uma pesquisa de campo, transformada em tese no final da década de 70. Trata-se de um documento único no gênero, em que são encontradas as informações mais completas sobre a colonização espanhola no Rio Grande do Sul.

“Aqui, existe tudo sobre imigração italiana, alemã, judaica, polonesa… mas quanto aos espanhóis, não existia nada”, explica Iolanda. “Antes, havia alguma coisa de Manoelito de Ornelas, mas nada de fôlego, por escrito”. A dificuldade em encontrar dados sobre o tema motivou Iolanda, filha de espanhola, para o trabalho.

Foi a campo, conhecendo, conversando com os espanhóis e investigando como é a vida societária deles. Em dois anos de trabalho, entrevistou cerca de 100 pessoas. “Descobri que a primeira sociedade brasileira de espanhóis fica em Bagé”. A maioria das pessoas com quem conversou saíram de sua terra natal basicamente por falta de trabalho, como qualquer imigrante europeu. Mas no caso dos espanhóis, há uma diferença: o aspecto político e ideológico, um traço marcante, principalmente após a década de 30, quando muita gente saiu do país em virtude da Guerra Civil Espanhola.

Aqui, eles procuraram se adaptar à terra mais semelhante a deles, por isso, a escolha do Rio Grande do Sul. “Eles desembarcaram no Uruguai e na Argentina e vinham para cá através da chamada fronteira livre”. Tinham o objetivo de ficar. Poucos retornaram.

Hoje, ainda é impossível saber quantos espanhóis vivem em solo gaúcho. Não existe nada que sustente uma estatística. O próprio Consulado não possui registros completos. Iolanda conta que a imigração espanhola foi muito desorganizada, até mesmo por característica do povo. “A desorganização se deveu justamente em virtude das fronteiras abertas. Os grupos aportavam em algum lugar, como Uruguai ou Argentina e, depois vinham para cá. O resultado foi a perda de muitos registros.

Os espanhóis aportaram aqui em várias épocas e períodos. Os grupos maiores se deslocaram no período da Guerra Espanhola e da II Guerra Mundial. Um traço marcante da colonização é o chamado mutualismo: a ajuda mútua, através das sociedades, aos imigrantes mais pobres. Durante muitos anos, os espanhóis de Porto Alegre e arredores se dividiam entre a Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos, criada em 1893, e a Casa de Espanha, fundada em 1994.

Hoje, elas estão unidas através do centro Espanhol de Porto Alegre, com 400 associados, presidido por Maria Lázaro, uma espanhola que chegou ao Brasil, com os pais e os irmãos, em 1951. “Existiam duas sociedades que congregavam praticamente os mesmos sócios, mas que se dividiam por questões políticas”, conta.

Maria informa a existência de cerca de três mil espanhóis inscritos no Consulado daquele país morando no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Mas ela reconhece que muitos patrícios não aparecem nas estatísticas por nunca terem se registrado.

O Centro Espanhol funciona na Travessa Sul, 102, Higienópolis. Sua finalidade é divulgar a cultura espanhola e, para tanto, possui academia de danças folclóricas de todas as regiões, promovem festas tradicionais e, aos domingos, servem o prato mais típico daquele país, a paella.

A colônia espanhola deixou marcas na capital gaúcha. Duas bem vistosas, como uma casa na Rua Andrade Neves e a Fonte Talavera de la Reina, em frente à Prefeitura. Ah! O trabalho de Iolanda Vargas foi considerado tão importante que, breve, a tese “História das Sociedades de Socorros Mútuos”, será transformada em livro.

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