Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 040 | Ano 5 | Abri 2000
MOVIMENTO
MOVIMENTO

Livros enfatizam lado pitoresco das comemorações

Ao analisar o vácuo intelectual percebido no marco dos 500 anos, o historiador Luis Roberto Lopes identifica culpas, mas também livra a cara do Brasil. Para ele, a comemoração é coerente com o momento his-tórico. “São os 500 anos da globalização neoliberal, da alienação”, define. é nesse aspecto que ele justifica o carnaval brasileiro em torno do tema. “O fenômeno não é local. Paulo Coelho é festejado na França e na Itália”, compara, lamentando “a perda geral da capacidade de luta, substituída pelo hedonismo, pela fuga e pelo desinteresse”.

Dentro desse contexto, Lopes não se surpreende com a opção das editoras por fazer da história um instrumento de marketing, privilegiando livros que enfatizam o lado pitoresco do
Descobrimento e que viajam pelos cinco séculos como se fossem um período de recreio, e não uma fonte de análise. Sem negar valor lúdico às obras, o historiador alerta, no entanto, para um risco: que elas venham a se tornar bibliografia nas escolas.

Na opinião de Lopes, a narrativa ideal dos 500 anos teria que evitar os extremos, seja do triunfalismo – por ser uma história de muitos derrotados – ou do descaso por um Brasil “cinco vezes centenário”. A contribuição do professor da Ufrgs foi dada no ano passado, quando lançou o livro “Aventura do Descobrimento”. Se mais não foi feito, acredita ele, não são pelas razões apontadas por Walter Galvani.

Segundo Lopes, há documentos e há história no Brasil, produzida e recontada ao longo de três décadas profícuas, a partir dos anos 50. E há também dinheiro para pesquisa, garante. Nesse último ponto, o professor culpa a própria academia, “administrada como um clube fechado, aos moldes maçônicos”. Ao produzir para ela mesma e não para o grande público, continua Lopes, a academia deixou de cumprir seu papel fundamental: provocar uma avalanche de divulgação de história e de consciência.

Quanto à revisão histórica feita nas décadas passadas, ele identifica um processo de des-montagem do conhecimento, deflagrado nos anos 90. E cita três tentativas de implosão significativas: a transformação da luta política de Luis Carlos Prestes em banditismo sertanejo, a trivialização dos 300 anos de Zumbi, ao deslocar o debates para a homossexualidade, e o reenquadramento de Antônio Conselheiro na categoria dos fanáticos. “Todas são tentativas de enfraquecimento da resistência e dos resistentes”, sintetiza.

Festa na Bahia vai até 2001

O ponto alto das comemorações dos 500 anos tem data e local: dia 22 de abril – evidentemente -, na Costa do Descobrimento, como foi batizado o litoral sul da Bahia, de Porto Seguro a Cabrália, onde foi rezada a primeira missa, cuja reedição, com 500 celebrantes de língua portuguesa, está marcada para o dia 26. Os festejos do dia 22 começam com parada naval e a chegada da regata histórica, vinda de Lisboa a Porto Seguro, cidade em que será inaugurado um centro de convenções. Em Cabrália estará sendo inaugurado o Museu Aberto do Descobrimento, que reúne um terminal turístico, um museu indígena, um centro de artesanato pataxó e o Monumento da Cruz.

Uma festa de luzes e regatas completa o dia. O calendário de eventos, no entanto, é mais longo. O Comitê Executivo das Comemorações dos 500 Anos do Descobrimento do Brasil, presidido pelo ministro de Esporte e Turismo, Rafael Greca, preparou atividades para dois anos – de 22 de abril de 1999 a 22 de abril de 2001. Atividades esportivas, teatro, música, dança, exposições e participações em feiras e eventos no exterior fazem parte da programação, assim como a restauração e construção de marcos históricos dos 500 anos, como a torre da Igreja de São Miguel das Missões.

No Rio Grande do Sul, são outros 500, garante a Secretaria de Estado da Cultura. Como parte da Federação, o estado não deixou de se integrar aos festejos, embora sob uma ótica dissidente. A tônica do que seria a comemoração foi revelada já na data de lançamento do projeto “Aqui são outros 500”: 20 de novembro do ano passado, Dia da Consciência Negra. Pautado em cima das atividades elaboradas pelo movimento popular, o projeto centrará foco nos índios, negros e mulheres. Aliás, as comemorações no estado não se referem aos 500 anos de Brasil e sim aos cinco séculos da presença portuguesa. Adiferença parte do princípio de que a terra já era habitada. Logo, tem mais de 500 anos.

A palavra de ordem nas comemorações gaúchas é “reflexão”. O ponto alto será o seminário “Dialogando sobre os outros 500”, que terá o ex-candidato à presidência do Uruguai pela Frente Ampla, Tabaré Vasques. O evento acontece entre os dias 18 e 20 de abril, debatendo temas como o poder no mundo globalizado, o impacto da globalização na América Latina e o neoliberalismo. Segundo Silvana Santos de Moura, integrante da direção-geral da secretaria, o objetivo é discutir a história e apontar o futuro. “Não adianta apenas chorar sobre o leite derramado. Precisamos criar em cima desse passado”, argumenta.

O projeto inclui todos os eventos relativos à comemoração dos 125 anos de imigração italiana e já garantiu pelo menos um resgate: o “sopapo”, instrumento típico da cultura afro no Rio Grande do Sul, em processo de extinção. Foram confeccionados 40 instrumentos e formada a Orquestra de Sopapos, em Pelotas.

No encerramento, em 20 de novembro próximo, será erguido o monumento a Sepé Tiaraju, confeccionado pelo artista plástico Xico Stockinger. Padroeiro do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, Sepé simboliza a luta passada e a luta atual.

O único ponto em comum entre os projetos estadual e federal é a representação da ópera O Guarani, de Carlos Gomes. Mas até nela haverá diferença: a montagem gaúcha é uma livre adaptação de artistas amadores do interior do estado. Peri, por exemplo, será representado por um agricultor de Não-Me-Toque.

Dutra vs. Dutra

Confronto entre professores e governo pôs aliados políticos em trincheiras opostas

Da redação

Olívio Dutra e Juçara Dutra Vieira, ambos com o mesmo sobrenome e filiados ao mesmo partido político. De um lado o representante máximo do governo do estado administrando a falta de dinheiro e a turbulência do primeiro mandato e, de outro, a professora que é a principal dirigente do Cpers/Sindicato representando os interesses do magistério gaúcho. Olívio tem na bagagem os apitaços promovidos pelo sindicato dos bancários, que lhe renderam notoriedade no início da carreira política e projeção dentro do PT. Juçara, por sua vez, tem intimidade com os sinetaços promovidos histórica e ciclicamente diante do Palácio Piratini nos últimos 15 anos. Ambos encarnaram, nas últimas semanas, personagens de uma briga inédita na história política do Rio Grande do Sul.

Não se travou, nesse caso, uma briga particular. Durante os 32 dias em que os professores pararam suas atividades, o estado esteve diante de mais uma disputa por soluções para a histórica defasagem salarial dos professores gaúchos, um problema que já atravessa décadas. A diferença é que este ano, pela primeira vez, parte da base eleitoral do governo duelou internamente contra ele mesmo, deixando um rastro de seqüelas políticas ainda não avaliadas por ambas as partes.

O acordo que possibilitou a suspensão da greve foi difícil e gerou divergências dentro do PT e do próprio Cpers. Os professores queriam um reajuste imediato de pelo menos 20,9% sobre o salário básico da categoria, mas levou 14,09% divididos em três parcelas: 6,5% em março, 4,2% em julho e 4,2% em dezembro. A demonstração de força dos professores – esboçada na assembléia de 2 de março, que reuniu mais de 15 mil pessoas em Porto Alegre – esbarrou na severa disposição da equipe econômica do governo em não desequilibrar as contas públicas. Olívio aceitou a tese de seus assessores e deixou que a greve do magistério se desgastasse naturalmente: a suspensão foi decidida por menos de 4 mil professores numa assembléia tumultuada e repleta de acusações. A presidente do Cpers já admitia, uma semana antes, que a mobilização dos professores havia diminuído, mas garantia que a estratégia da categoria seria manter o maior número de escolas fechadas pelo maior tempo possível. Não conseguiu. Pelos dados da Secretaria de Educação, apenas 16% das escolas continuavam paradas no último dia de greve. O Cpers contesta os dados, mas admite que a mobilização não tinha mais o apoio de pelo menos três em cada quatro professores estaduais. “O governo apostou no desastre de sua própria base de sustentação e, com a intransigência, poderá até conseguir uma vitória momentânea, mas em longo prazo o preço será alto”, advertiu Juçara, prenunciando a derrota.

O preço foi mesmo alto, tanto para o governo quanto para os professores. O governo porque desapontou uma categoria aliada e descumpriu promessas de campanha, entre elas a recuperação dos salários do magistério. A direção do Cpers, por sua vez, foi taxada por parte da plenária de “traidora” e “pelega”. Juçara, além disso, foi acusada de manipular o resultado da votação e de forçar o fim da greve. Para a equipe econômica a proposta de aumento é emergencial e definitiva, mas o governo não descarta a possibilidade de negociar avanços para o futuro, como a manutenção da contribuição à Previdência estadual e o plano de carreira dos servidores de escolas. “é preciso deixar claro que não há a mínima possibilidade de mexer neste índice. O que se pode fazer é analisar a matriz tributária que gera recursos para os pagamentos da categoria para o futuro. Não se pode criar falsas expectativas entre os professores”, pondera o secretário da Administração, Jorge Buchabqui.

O sindicato, que havia acusado o governo de estar fazendo caixa com o arrocho dos salários do magistério, acredita que o governo pode dar mais aos professores, tanto que suspendeu a greve mantendo, porém, um protesto contra o índice de reajuste oferecido. Na prática, é uma saída para tentar ocultar a impossibilidade de manter a paralisação. “é preciso disposição política para realizar avanços”, avaliou a presidente do Cpers. Para ela, seria inaceitável sair desta greve sem uma perspectiva de futuro e um compromisso do Palácio Piratini em conceder avanços dentro do mandato de Olívio Dutra. Isso, na avaliação dela, foi obtido. Mas Juçara admite, frustrada, que do embate só restaram perdedores.

Carnaval em abril

As comemorações dos 500 anos do Brasil prometem transformar o tema em bem de consumo pouco durável

Denise Nunes

Os relógios gigantes espalhados pela rede Globo em 28 capitais e a farta publicidade em torno do evento não nos deixam esquecer: faltam poucos dias para o aniversário de 500 anos do Brasil, a ser comemorado em 22 de abril. Adata é marcante, não há dúvida, e a festa promete ser de arromba. A questão é: esgotada a contagem regressiva, atracada a nova caravela que saiu de Portugal no mês passado, celebrada a repetição da Primeira Missa na Bahia, o que terá sobrado dos festejos, que não custaram pouca coisa aos cofres públicos?

O orçamento federal prevê para este ano gastos de R$ 47,3 milhões com a comemoração dos 500 anos. No ano passado, já haviam sido aplicados outros R$ 30 milhões. Para o professor de História da Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Luiz Roberto Lopes, quem contava com debates acalorados e reflexões abundantes sobre os cinco séculos de história oficial brasileira ficará frustrado. Conforme Lopes, não será a primeira vez. “Os 500 anos estão sendo transformados em algo semelhante aos 150 anos da Independência, em 1972: uma festa da auto-estima brasileira, um espetáculo ufanista”, afirma. Segundo o historiador, se em 1972 a carnavalização da data podia ser atribuída à ditadura militar, em 2000 o pouco caso com atividades intelectuais tem origem no contexto de uma democracia liberal.

Ainda que não haja exatamente uma usina de idéias em operação, pipocam seminários aqui e ali e o mercado editorial emite alguns sinais de vida. Autores de diferentes envergaduras puseram-se a desbravar o filão do Descobrimento. Conforme o vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), José Henrique Grossi, as reuniões preparatórias à Bienal do Livro de São Paulo revelam que as editoras programaram lançamentos relacionados ao tema. Grossi acredita que as reedições vão responder por metade das obras que estão por sair do prelo. A abordagem predominante, imagina ele, será a acadêmica. A CBL ainda não tem uma quantificação do movimento editorial em torno dos 500 anos, mas seu vice-presidente arrisca dizer que ele não se traduzirá em incremento do faturamento do setor.

Anualmente chegam 15 mil livros ao mercado brasileiro, cuja receita gira em volta dos R$ 2 milhões. A estimativa de Grossi é que os títulos relacionados aos 500 anos abocanhem uma parcela considerável desse montante, mas não sejam suficientes para aumentá-lo.

No que diz respeito ao Rio Grande do Sul, a previsão de Grossi não se revela correta: além do Descobrimento não ter gerado um grande volume de produções, a academia passou praticamente ao largo da data. Não por acaso, o autor que “descobriu” o filão dos 500 anos e se consagrou nacionalmente é jornalista: o gaúcho Eduardo “Peninha” Bueno, que há dois anos se apresentou ao mercado, freqüentando desde então todas as listas de livros mais vendidos com seus três best sellers: “A Viagem do Descobrimento”, “Náufragos, Traficantes e Degredados” e “Capitães do Brasil”. Um quarto está em gestação. Ainda neste filão, embora em editora diferente, Peninha uniu-se ao cartunista porto-alegrense Edgar Vasques e lançou recentemente o livro “Brasil: Terra à Vista”.

Vasques enveredou pelo Descobrimento a partir de um convite do editor Ivan Pinheiro Machado, proprietário da L&PM, para ilustrar o livro de Peninha. Ao mesmo tempo, o cartunista integrou-se ao projeto “Aqui são outros 500”, da Secretaria de Estado da Cultura. Com outros 24 cartunistas, fez a versão ilustrada – e bem-humorada – do Descobrimento, que, na visão de Vasques, foi mútuo. Em seu cartum, um português e um índio se encaram.

O trabalho de ilustração de “Brasil: Terra à Vista” foi feito com base em livros cedidos pelo autor e editora, além de pesquisa própria. Um dos desafios foi retratar o descobridor. A referência mais confiável da fisionomia de Pedro álvares Cabral é um auto-relevo que o mostra de perfil, existente no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, Portugal.

Ao dizer o que pensa das comemorações em andamento e das produções vinculadas à data, Vasques recorre a uma imagem apropriada ao tema: “Navio não pode ter só vela e seguir ao sabor dos ventos”, sugere, criticando a falta de conteúdo do que viu até agora. Para ele, faltam obras consistentes, como o livro do historiador Mário Maestri, “Senhores do Litoral”, que fala dos índios que habitavam o Brasil quando a esquadra de Cabral aportou na então Terra de Vera Cruz.

“Há muito auê e badalação, mas falta aprofundamento”, diz ele, revelando a dúvida que gostaria de ver sanada: como o Brasil consegue ser o maior país da América Latina e o único a falar, de ponta a ponta, o idioma português? “Por que os espanhóis não conseguiram dominar parte do território? Por que franceses, ingleses e holandeses não conseguiram permanecer? O que permitiu ao Brasil ser o que é?”, indaga ele, oferendo-se para ilustrar o livro do historiador que lhe apresentar a solução do enigma.

Outro olhar descobridor foi dado pelo também jornalista Walter Galvani, no livro “Nau Capitânea”, uma biografia de Pedro álvares Cabral, personagem exaustivamente pesquisado a quatro mãos por Galvani e sua mulher, a jornalista Carla Irigaray, no Brasil e em Portugal. O que reuniu, poderá render novo livro – “quando eu conseguir desembarcar da Nau”, ressalta, referindo-se às inúmeras demandas surgidas a partir do livro – sobre costumes ou peculiaridades da época do descobrimento, inclusive com receitas culinárias do período. Na bagagem que trouxe de Portugal, além de inúmeros disquetes, vieram 80 quilos de reproduções xerográficas e fotográficas.

Também Galvani se mostra pouco entusiasmado com as comemorações. Plagiando Wiliam Sheakspeare, conclui: “Há muito barulho por nada”. Mas o jornalista não estranha. Para ele, o tom festivo e pouco reflexivo da passagem da data é uma intenção anunciada quando a organização dos eventos foi atribuída ao Ministério do Esporte e Turismo. “Quando os ministérios da Educação, Cultura ou mesmo de Relações Exteriores foram preteridos, estava definido o que se pretendia. Típico do Brasil moderno”, lamenta, acrescentando que, apenas em setembro, o calendário oficial de eventos prevê um congresso com historiadores portugueses e brasileiros. Na Bahia.

A elaboração do livro revelou ao jornalista as dificuldades enfrentadas por historiadores para fazer um bom trabalho. Faltam subsídios para contar a história. Além da Biblioteca Nacional e do Museu do Ipiranga, um no Rio e outro em São Paulo, há poucos lugares onde consultar documentos. Em Portugal existe mais fartura, embora não sobre Cabral, “fritado” politicamente com a colaboração estreita de seu companheiro de viagem Pero Vaz de Caminha, autor da carta que registrou em primeira mão o novo país. Galvani atribui a ausência de historiadores neste momento histórico ao tradicional descaso com a pesquisa, pouco dotada de recursos no país. “Seria preciso uma forte ação governamental para estimular a produção intelectual. Assuntos não faltariam”, argumenta, relacionando alguns pouco explorados: o caráter separatista – ou não – da Revolução Farroupilha, as capitanias hereditárias, a Colônia de Sacramento e a Baianada.

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