Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 040 | Ano 5 | Abri 2000
ENTREVISTA | RITA LEE
ENTREVISTA

Meu nome é Ritéias

César Fraga

Irônica, ferina, implacável.Esses três adjetivos poderiam muito bem caracterizar Rita Lee, mas as expressões sensível, solidária e engraçada também cairiam como uma luva nesta paulistana de 52 anos, cantora, compositora, artista. E mulher. Rita não esconde sua vocação femealista (expressão dela), a ponto de explorar abertamente em suas letras a condição nem sempre nobre da feminilidade. Igualmente esposa, mãe, eventual atriz, autora de quatro livros infantis e 26 discos (incluindo a fase com Os Mutantes), ganhadora dos maiores prêmios da música brasileira, nesta entrevista, Rita dá uma bronca na indústria cultural (“os jabás favorecem a impressão de bocejo musical”), fala de seu amor pelos bichos (“uma corja milionária sobrevive à custa do sofrimento dos animais”) e, de quebra, sobre casamento (“para o amor, só o best of”). Em plena gravação de seu 27o disco, Rita conversou com o Extra Classe por e-mail em duas seções. Avessa a telefones e às ruas, a musa do rock nacional descansa do trabalho passando horas em frente ao computador. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Extra Classe – Você disse, em uma de suas canções, que pertence ao sexo frágil, mas logo fazendo a observação de que não foge à luta. Ficou claro que o exercício da feminilidade não implica em covardia. Mas agora o contexto é outro. Quais as lutas em que você pensa quando canta essa frase hoje: lutas da mulher, dos terráqueos, dos brasileiros?

Rita Lee – Quem estipulou que nosso sexo era o frágil não fui eu, desconfio que tenha sido um machinho das antigas quando se deparou com alguma sangria menstrual feminina, que aliás é um pé, não no saco porque não o temos, é um pé no útero tão chato é o chico! Das três opções de luta por você sugeridas, além de fazer parte do front na defesa dos animais, escolho a dos terráqueos.

EC – Existe um discurso forte propagado pela indústria cultural, das ideologias, que levam a um individualismo cada vez maior. Já não interessa ao sistema estabelecido e aos novos padrões de produção pós-industrial certos laços afetivos (casamento, família). Cada vez menos as pessoas conseguem se relacionar de forma duradoura e ficamos cada vez mais competitivos. Como a Rita faz para resistir aos apelos cotidianos a que a maioria de nós sucumbe? Rebeldia hoje é conseguir ficar junto, estabelecer comunicação com o outro?

RL – Sou casada com Roberto (de Carvalho, parceiro de Rita) há 23 anos e, cá pra nós, nesse meu meio artístico isso chega a ser um escândalo de tanto que está durando… O segredo do casamento duradouro para nós é morar em lugares separados. Nada menos romântico do que dividir a mesma toalete com quem se ama. Separe, pois, os trapinhos, meu filho. Para o nosso amor apenas o best of!

EC – Em uma declaração à Folha de S. Paulo você disse que o disco novo é basicamente rock-‘n roll, como sempre fez. Ao mesmo tempo, os anteriores estiveram sempre intrinsecamente ligados a um senso raro de brasilidade, às vezes mais aguçado do que os mais puristas da chamada MPB. Se a canção Arrombou a Festa fosse escrita em 2000, quem seriam os alvos da sua ironia?

RL – Digamos que, como filha do tropicalismo, nunca tive qualquer pudor em desfilar meu roquenrou por avenidas brasileiras, quer fazendo boleros, bossas ou pauleiras. Meus pais eram imigrantes, meu deslumbre é com o Brasil mesmo. Nunca quis fazer carreira no exterior porque seria voltar de onde meus velhos fugiram. Sou fã da muamba brasileira. Agora, em matéria de cast para um Arrombou a Festa 2000, os nossos brasis são um celeiro de inspiração!

EC – MPB existe? O que ela é? E o rock, morreu ou não?

RL – Alô, alô, marciano querido! Desde os tempos de Elvis a tia aqui ouve dizer que o roquen-rou está na UTI. Volta e meia recomeçam a desencavar esqueletos por aí que é uma beleza. Eu mesma já devo ter sido sepultada umas 30 vezes durante esses meus 33 anos de estrada. No tempo dos Mutantes existia a MPB versus Jovem Guarda e ponto final. Com o tropicalismo a coisa abriu bem mais. Hoje temos uma salada mista completa de rótulos. Rapreggaetechnoaxétanejomang u e d i s c o g ó d e p o p g o s p e l #&^%#$@^#*&$**&$_+É

EC – Como vai a música brasileira hoje? O que interessa ouvir com mais atenção?

RL – Até pode parecer que está acontecendo um grande bocejo criativo nas bandas e bundas da MPB, mas isto é culpa das gravadoras e produtores que, confortavelmente, só investem nos clonados, nos xeroxes do que “dá certo”. Há alternativos fantásticos que não estão tendo chance de botarem suas asinhas de fora, ou porque não são sertanejos ou não têm uma gostosinha rebolando, ou porque têm personalidade própria e sabem o que querem. A mesmice das paradas (ou melhor, estacionadas) de sucesso nos meios de divulgação e seus jabás poderosos também favorecem a impressão do bocejo musical. Ligamos o rádio e a TV e lá estão os clonados de sempre. Garanto, marciano querido, que o Brasil continua sendo um tesouro de talentos. Quem sabe este mileniozinho que ainda nem começou vai nos trazer umas boas surpresas…

EC– Este esquema viciado das gravadoras, o jabá, compra de espaço na mídia, procedimentos não muito éticos, como você faz para lidar com isso aí de dentro, para se manter íntegra como artista e ser humano?

RL – Já estava até respondendo acima sem ter visto esta pergunta. Eu? Bem, em primeiro lugar, gostaria de ser o Antonio Ermírio de Moraes (maior empresário do país) para poder bancar uma musiquinha nas paradinhas. Hay que tener grana, meu filho. No meu tempo você ia visitar as rádios, conhecia os programadores, trocava umas idéias, tomava um cafezinho e deixava o disco na mão do cara para que ele escolhesse uma música a ser executada. Hoje, se você não tiver uma bela grana na mão, você também é executado, só que executado no sentido de cadeira elétrica.

EC– às vezes parece que a vida real está repleta de caras e bundas. Como a Rita Lee vê a ce-na artística vendida pela grande mídia à população?

RL – Vejo com cara de bunda!

EC – Quem ou o que você elegeria para ser a miss Brasil 2000? Ou você acha que todo este papo de miss é uma bobagem e dá graças a Deus por ela ter deixado de ser uma tradição?

RL – Você deve ser uma criança e nem pode se lembrar mesmo do que era um concurso de Miss Brasil nos anos 50 e 60. Parecia Copa do Mundo. Hoje, se Hilton Gomes (tradicional apresentador de concursos de beleza) perguntasse para a Miss Brasil qual seria o sonho dela, ao invés de responder “quero ser professora primária” (uma gracinha!), diria: “Ah! sei lá, sair na capa de uma revista masculina, comprar uma Ferrari, gravar um disco de pagode e casar com um jogador de futebol bem rico e famoso. Ah, e passar a lua de mel na ilha de Caras!”… Deus sabe o que faz.

EC – Sei que você anda indignada com este papo de Mutantes para cá, Mutantes para lá, devi-do ao fato de ter virado cult nos Estados Unidos, assim como o tropicalismo. Parece que os ame-ricanos descobriram a roda. O que você pensa disso? A música feita no Brasil precisa do aval deles?

RL – A mídia brasileira só dá valor ao que é nosso depois que os gringos também lambem. Sempre foi assim. Pra mim, não faz a mínima diferença.

EC – é sabida a sua militância contra os maus-tratos aos animais. Cada vez mais se propaga a prática dos rodeios em todo o país e até uma parte da classe artística vive disso. Qual o seu posicionamento quanto à existência de um e à conivência de outro?

RL – Pois é, cara, a raça humana não se toca de que a própria evolução depende do respeito por todas as formas de vida. Há anos coleciono um farto material com vídeos, fotos e laudos veterinários comprovando as barbaridades que acontecem nos rodeios, vaquejadas, farras do boi e todo o tipo de abuso. Há anos mando esse material para os “home” de Brasília, para aju-dar a tomarem alguma atitude, pelo menos no cumprimento da Lei dos Crimes Ambientais.

EC – E qual a reação do pessoal de Brasília aos seus apelos?

RL – Rola a eterna grana que compra de tudo e todos no salão da malandragem. O roliço, riso-nho e incompetente m(s)inistro do Desporto e Turismo, Rafael Greca, deve ter comprado muita maquilagem com o que faturou para elevar o rodeio à categoria de esporte. O que faremos com Pelés, Sennas, Ronaldinhos, Gugas e tantos outros atletas que elevam o nome do Brasil de uma maneira nobre? Peão de boiadeiro no meu tempo era um rapaz que trabalhava
honestamente domando cavalos e bois com dedicação e carinho. Hoje, este “atleta” é um torturador de animais, Jeca Tatu se chama John Wayne, rodeios no Brasil são pré-históricos; os Estados Unidos, diante das pressões de entidades de proteção mundiais, estão hoje investindo em bois e cavalos mecânicos, com “n” níveis de dificuldade, apresentando ao público um espetáculo muito mais emocionante da destreza dos cowboys. Alternativas existem, o que falta é vergonha na cara de cumprir uma lei que já existe.

EC – Por que a legislação não é cumprida?

RL – A lei é ignorada pela corja da indústria milionária, que sobrevive às custas do sofrimento dos animais. O público mesmo não tem acesso às informações do circo de horrores que acontece antes da porteira da arena ser aberta. Os promotores desses hediondos eventos se desculpam afirmando que o sedém (instrumento que torna o animal mais violento) provoca apenas cócegas no bicho, o que é uma mentira deslavada. Além do sedém, como objeto de tortura são introduzidos no ânus dos bichos cigarros acesos, cacos de vidro, pedaços de pau e outras tantas barbaridades. Tenho tudo isso documentado para provar que os animais não pulam porque são selvagens ou porque sentem cócegas; pulam de dor, muuuita dor! Meus coleguinhas sertanejos (sertanojos?) infelizmente caem no deslumbre dos cachês milionários dos rodeios e emprestam seus nomes para prestigiar esta indústria de horrores sem a mínima consciência. é lamentável. Sou apenas uma cigarra no meio de formigueiros gananciosos.

EC – Em 1997 você declarou que estávamos no início de uma globalização que era “super do bem”. Você ainda pensa assim?

RL – Provavelmente eu devia estar viajando na maionese do que o nome globalização poderia significar para uma riponga da antiga como eu, cuja utopia é “o planeta unido jamais será venci-do por Darth Vader” ou algo parecido. Pode ter me passado pela cabeça também tratar-se de um programa musical da rede Globo, daqueles festivais internacionais da canção popular onde não rolavam jabás. Lembre-se que em 1997 eu ainda era uma criança inocente, he he he…

EC – O Brasil da era FHC está tendo dificuldades em dar respostas para anseios básicos da população. Nunca houve tantos desempregados e a situação de exclusão e confronto gera uma tensão social preocupante. Como você vê esta realidade? E como acha que os brasileiros devem avaliar estas coisas todas, já que estamos em um ano eleitoral? Como a Rita faz para escolher seus candidatos?

RL – A Rita nasceu e mora numa aldeia chamada Sampa, da qual ela se autocanonizou santa porque vive há 52 anos em regime de martírio (minto, nos meus tempos de teen Sampa até que era bacaninha, limpinha etc)… há trocentos anos. Porém, uma corja politiqueira assola minha aldeia e toma o poder com o único propósito de afundar cada vez mais a população paulista nas bostas do Tietê. O maior colégio eleitoral do país não sabe votar, eleição por estas bandas parece sempre concurso da melhor bunda do tchan. Por isso minha intenção maior como santa é operar milagres mesmo. Meu nome é Ritéias!

EC – Entrei no seu site (www.ritalee.com.br) e li o deleerios. Gostaria de saber quando a Rita é personagem e quando a Rita é ela mesma. Qual delas dá as respostas às perguntas?

RL – Ora, ora, dona aurora… Que atire a primeira pedra quem não tem um monte de eus camu-flados. Meus personagens já foram confundidos com entidades de umbanda. Outros me disse-ram que eram vestígios de vidas passadas… Afff, alguém dentro de mim é mais eu do que eu mesma.

EC – Qual o tom deste novo trabalho que você está gravando e qual a sua intenção com ele?

RL – Minha intenção é sempre ter muito prazer, mas se vender, melhor… Só estou divulgando a letra de Pagu (leia acima) por uma questão de precaução. Tem neguinho de olho grande por aí…

EC – Já que não dá para mostrar as novas músicas, explique um pouco do conceito deste novo disco. Há parcerias novas, não?

RL – Há 33 anos minha vidinha tem sido disco-show-disco-show-disco-show… Até aí nada de novo no meu salão, diga ao povo que fico. Cada trabalho é um filho novo, mas para mim, que parto do princípio do “quem tudo quer nada tem”, o que vier é lucro, não rolam expectativas ou pré-intenções, apenas o prazer de fazer música que ainda move minha mola existencial. Me sinto uma privilegiada de poder sobreviver de música. Anyway, este trabalho novo tem algumas parcerias (além de Zélia Duncan em Pagu) bem interessantes, como Itamar Assumpção em Aviso aos Meliantes, Pato Fu no Amor em Pedaços, meu filho Beto em DOI CODI love, Tom Zé numa possível continuação da saga espacial 2001 que seria o 3001, e outras tantas da dupla di-nâmica Lee/Carvalho. Começamos a gravar no Carnaval e, se não atrasar como sempre, deve sair em meados de julho. Mas o bebê ainda não tem nome.

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