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Nº 040 | Ano 5 | Abri 2000
EXTRAPAUTA
EXTRA PAUTA

Um negócio da Espanha

Flávio Ilha

Um fato que chamou a atenção de pouca gente, mas ainda está dando o que falar. No início do ano, o banco Bozano, Simonsen vendeu o Meridional – que comprara dois anos antes, em 1997 – por quase R$ 1,3 bilhão ao espanhol Santander. Até aí nada demais: afinal, globalização é pra isso mesmo. O que chama atenção, nesse caso, é o extraordinário lucro obtido pelo Bozano, Simonsen nos 24 meses em que administrou o Meridional. O banco foi comprado no processo de privatização por R$ 265,6 milhões, depois de uma exaustiva discussão sobre o real valor da instituição. Auditores independentes avaliavam que o banco valeria pelo menos o dobro do que foi pago, cerca de R$ 540 milhões. A transação, concretizada em 19 de janeiro, envolve também as ações do Bozano avaliadas em R$ 700 milhões. Ou seja, em dois anos o Grupo Financeiro Meridional passou de R$ 265,6 milhões para algo em torno dos R$ 600 milhões. Mais ou menos o dobro. Milagres como esses só acontecem com os outros. Durante o período de gestão, o Bozano mostrou como se obtém lucro em pouco tempo. Reduziu o número de funcionários a quase metade, baixando os contratados de 7 mil, na época da privatização, a cerca de 4 mil no final de 1999. O número de agências caiu de 260 para 221.

Outro detalhe: a empresa que administra o Grupo Financeiro Meridional é uma off shore, ou seja, uma empresa que atua fora do mercado de origem. No caso, a Bozano, Simonsen Financial Holding Ltd tem sede no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. O dinheiro da transação bilionária, portanto, não vai passar nem perto do Brasil. Os novos diretores assumiram com um discurso velho na ponta da língua: vamos atender a micro e pequenos empresários, as linhas de crédito produtivas serão ilimitadas, vamos dar atenção à região Sul, os juros serão mais baixos. Balela. A taxa do Meridional continua nas alturas, com 10,8% ao mês cobrados dos clientes. Os empresários – em geral pequenos – pagam menos: 10,5%. No mês passado, não custa lembrar, houve inflação inferior a 0,5% nos principais índices de custo de vida do país. A transferência vai se consolidar somente em 1¼ de maio, quando o novo controlador pretende anunciar planos de investir R$ 100 milhões em automação e melhorar a capacidade de atendimento. Muito menos do que os antigos controladores lucraram comprando um banco estatal a preço de banana e vendendo-o supervalorizado apenas dois anos depois.

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