Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 041 | Ano 5 | Mai 2000
ELISA LUCINDA

Meus quinhentos anos…Mas com um corpinho….

Elisa Lucinda

Minha mãe queria Ana Elisa. Meu pai foi catedrático: “Você escolheu todos os outros nomes, dessa escolho eu. Será Elisa Lucinda, o nome de minha mãe”. E dizem mesmo que eu nasci a cara dela.

Era uma velha negra sincretista que sabia macumbas naturais, que habitavam ela, como uma forma de cultura, como um olhar natural sobre a natureza: ao mesmo tempo que tapava espelhos com lençóis por respeito a Iansã e reconhecimento do seu poder, rezava pra Santa Barbara e São Jeronimo. Tinha terço e tambores a nega Lucinda com sua pele muito ébano e seus olhos extremamente azuis. Com um pouco de medo daqueles olhos, daquele absoluto contraste, eu menina a espiava sempre. “Que foi, Elisinha?” Vó Elisa tinha um enorme tonel de barro, do qual recolhia a água da chuva e enchia de pétalas de rosas brancas; lavava o rosto com essa água renovada em cada chuva. Durante toda a sua vida, todos os dias, encheu as mãos dessa água purificada em pétalas pra banhar o lindo rosto de esfinge. Era cosmético, era santuário, era oferenda, tudo ao mesmo tempo.

Viera na lei do ventre livre. Agora me diz: pode ser livre o fruto de um ventre aprisionado? À rigor não. Mas pode ser; se o desejo de liberdade for poderoso no ventre gerador. E era!

Vovó Elisa chamava o marido, português que viera pro Brasil, na mesma época, no rastro do dominador, de senhor; no entanto teve muitos homens antes dele. Ela fora vendida e comprada numa circunstância de escravidão, mas era também ancestralmente nobre, princesa, livre. E aqui então, insistia-se livre; só de teimosia, só de resistência.

Ano passado, final de século 20 já, eu e meu amor sobre as pedras de Tiradentes depois de fumarmos um cigarro diferente, me ocorreu uma viagem, uma memória, uma herança: meu amor que estava como sempre, (mesmo quando não está), dentro de mim e ao meu lado, refletiu sabiamente:

-Preta, como é que seu povo aguentô? Acorrentado, tratado como se trata mal um animal não humano, longe da língua, disperso da tribo, extirpado da família, humilhado, covardemente dominado por uma aristocracia nojenta? Como não pirou? Como conseguiu preservar o tesouro da alegria em meio a essa premeditada tormenta? Isso é técnica cruel de enlouquecimento. Me diz como é que esse povo não enlouqueceu, não se suicidou?”

– Não sei.

Nesse momento me veio uma memória, uma ficção absurda, absolutamente confessional.

Um arquétipo nítido, como um take de um filme: vi meu tatarararavô com 120 anos morrendo acorrentado e dizendo, alto pra si, no seu lúcido pensamento de condenado:

-”Mas um dia, um dos meus será livre.”

– Eu sou uma desses uns, meu amor, eu disse e cai em prantos.

Nesse momento toda Tiradentes, toda calçada, toda construção de Brasil era minha.

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