Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 042 | Ano 5|Jun 2000
CULTURA
CULTURA

Cinema, drops e rock’n’roll

Keli Boop

Nova geração de curta-metragistas do Rio Grande do Sul recebe influências do rock´n´roll, das histórias em quadrinhos e dos clássicos para produzir uma onda de filmes de rua no mínimo diferentes. O Extra Classe reuniu alguns dos novos cineastas gaúchos para uma mesa redonda em que o tema não poderia ser outro: cinema

O 28° Festival de Cine- ma de Gramado está se aproximando e com ele a expectativa de

Da esquerda para a direita: Dennison, Gílson, Bia, André e Gustavo

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Da esquerda para a direita: Dennison, Gílson, Bia, André e Gustavo

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que se repita o que aconteceu nos últimos quatro, quando uma leva de filmes em super-8 feitos por jovens de uma criatividade arrojada estremeceu a mostra que já começava a criar bolor. A coisa começou a ficar mais séria por volta de 1998, quando eles passaram a produzir seus filmes em 16 e 35 milímetros. Com uma temática e linguagens próprias, essa moçada trouxe um agradável sopro de renovação à cinematografia gaúcha. Alguns trabalhos foram premiados, além de Gramado, em outros festivais, recebendo um certo destaque na mídia do centro e demais estados do país.

Enquanto o festival não vem, reunimos alguns representantes da nova e promissora safra de cineastas – eles se auto intitulam autorais e fazem questão de dizer que não pertencem a nenhuma escola de cinema, como acontece muito com cineastas de outras partes do país – para falarem sobre, é claro, cinema. E, como não podia deixar de ser, as questões ligadas ao tema como financiamento, incentivos e concursos, referências e influências, os caminhos e descaminhos do cinema com a digitalização, novas mídias e novos formatos. AS seguir, trechos da conversa com os cineastas

REFERÊNCIAS

Bia Werther – Gosto no cinema do Kusturica, o Underground é uma coisa fantástica para mim. Gosto do Almodóvar, Glauber Rocha e Peter Greenaway, que é Deus pra mim.

Gílson Vargas – Acredito muito na formação multidisciplinar. Me influencio talvez mais pela música, pelas artes plásticas, muitas vezes, para compor idéias ou para surgirem idéias do que propriamente cinema. Se tivesse que dar alguma referência do que gosto muito e acredito muito é Buñuel, mas isso não significa que eu busque uma identificação com o estilo dele.

Dennison Ramalho – Eu concordo com o Gílson. As minhas influências vêm de outras áreas. Eu curto muito quadrinhos, Frank Miller, Moebius, curto muito bandas de black metal e de som pesado industrial. As bandas de black metal foram fundamentais para a concepção do meu primeiro filme, Nocturnus.

André Arietta – Minhas principais referências são os movimentos de vanguarda do início do século e é dali que eu tiro as minhas principais influências. São Duchamp, Breton, Neruda, Buñuel, aquela turma dos surrealistas, dadaístas. Mais especificamente em cinema é Buñuel, Sganzerla, Glauber, e cineastas americanos da década de 50.

Bia Werther – É, eu sou super multi, sou influenciada pelas artes plásticas e música. Inclusive toco baixo nas trilhas dos meus filmes, canto e , além de trabalhar com música, sou artista plástica, pesquiso muito, sou diretora de arte em cinema. Como o André, eu também gosto do Duchamp, dos vanguardistas e coleciono quadrinhos.

Gustavo Spolidoro – A minha influência para fazer cinema é basicamente cinema porque eu comecei vendo filme com meu pai. Foi ele quem me ensinou a gostar de Woody Allen e que é o único diretor que eu admiro por toda a carreira.

CASA DE CINEMA

Bia Werther – A Casa de Cinema acabou de ir para Cannes, com o Três Minutos, da Ana Azevedo. Têm muitos filmes que eu vejo e não gosto, mas eles são uma puta produção e, por mais que a gente não goste de alguma coisa ou do estilo dos filmes que eles fazem, eles são inegavelmente o símbolo de produção que pode se manter. Não existe concorrência de gerações.

Gílson Vargas – Na verdade, eles não foram mais atuantes porque acabaram com as leis de incentivo e a Embrafilme. O que a gente reclamava um pouco deles, quando a gente começou, é que eles eram muito fechados e não abriam espaço para as pessoas novas. Quando eles viram que tinham pessoas novas querendo trabalhar, a gente teve que morder a língua porque eles abriram espaço para alguns trabalharem com eles. O Dennisom trabalhou no filme do Gerbase, por exemplo.

André Arieta – Se a gente for comparar com outros estados, a participação do Rio Grande do Sul é muito pequena, então a importância da Casa de Cinema é que eles abriram um espaço e fizeram uma estrutura para se fazer cinema. Mas esteticamente eu acho que eles deixam a desejar. Acho também que essa geração que está surgindo agora tem muito mais a dizer. Em dois anos fizemos muito mais esteticamente pelo cinema gaúcho do que os 15 anos da Casa de Cinema.

GRANA

Bia Werther – Em super 8 eu sempre paguei pelos meus filmes. Aí, casualmente eu ganhei um prêmio do Iecine para esse de 35 mm, Suco de Tomate. O novo edital já saiu e os premiados somos eu o Gílson, cada um recebeu R$ 25 mil. A gente já passou do orçamento e aí fomos atrás, batalhando em cima de leis de incentivo.

Gílson Vargas – Em 1992, junto com outros caras, montei uma produtora, a Plongée, que tinha o sonho de fazer cinema. Engoli uns 400 sapos em oito anos, ou seja, fiz 400 comerciais para a televisão. Foi uma coisa temporária, eu fui abandonando isso, acho que foi importante porque eu não me contaminei. Hoje sou uma pessoa bastante pobre de grana, e bastante rica em sua felicidade de estar fazendo só cinema e poder dizer com franqueza que o mundo publicitário não me serve.

Dennison Ramalho – Eu sou “paitrocinado”. Eu dei um cano no meu pai falando pra ele que o filme ia custar R$ 500, depois eu falei que ia custar R$ 1,5 mil, depois eu falei que ia custar R$ 3 mil e, conforme eu ia dizendo, eu ia chorando e implorando, e conseguindo o dinheiro dele. Quase fui posto para fora de casa por causa disso. Mas acabou tudo bem, hoje eu sou feliz, ganhei prêmios no Festival de Gramado, melhor curta, melhor diretor, tem gente até dizendo que eu sou artista, mas eu sou antiartista. Acho que a arte é um instrumento da burguesia.

Bia Werther, 32 anos. Ela escreveu, dirigiu, atuou e responde pela direção de arte e trilha sonora, junto com André Arieta, de Suco de tomate – 35 mm (um dos projetos escolhidos no concurso do Iecine em 1999).

André Arieta, 29 anos. É o único dos entrevistados que cursou pós-graduação em cinema. Dirigiu A verdade às vezes mancha – 16 mm.

Gílson Vargas, 29 anos. Roteirista, produtor e diretor de Até – 16mm, (Troféu Assembléia Legislativa de melhor filme gaúcho no Festival de Gramado de 1999). Proprietário da Plongée desde 1992, realiza clipes de bandas e vídeos. Está em fase de finalização Quem? – 35mm (também premiado pelo Iecine ano passado).

Dennison Ramalho, 25 anos. Diretor de Nocturnu – 16mm, levou os prêmios de melhor filme e melhor direção na categoria no Festival de Gramado em 1999.

Gustavo Spolidoro, 28 anos. Roteirista e diretor de Velinhas – 16mm (financiado pelo Fumproarte em 1998), atualmente finalizando Outros – 35 mm, ( prêmio do concurso de curtas do Minc/99). Colaborou Sabrina Ortácio

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