Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 042 | Ano 5|Jun 2000
MOVIMENTO
ESPECIAL

MST não teme rótulo de radical

O MST não vai baixar a guarda. E acredita que a opinião pública está do seu lado, ainda que os órgãos da grande imprensa tenham prejudicado a causa da reforma agrária. Agora, a estratégia é costurar alianças com outras organizações e com os trabalhadores em geral

Ação da BM no campo nos anos 80: novo paradigma de luta

Fotos: René Cabrales

Ação da BM no campo nos anos 80: novo paradigma de luta

Fotos: René Cabrales

A julgar pelo noticiário da grande imprensa brasileira, foi aberta temporada de caça ao Movimento dos Agricultores Sem-terra (MST). O alvo preferido do governo federal é o gaúcho João Pedro Stédile, um dos líderes da agremiação. Depois de ações barulhentas em todo o país, durante as comemorações dos 500 anos do Brasil, o movimento sofreu carga de ministros tucanos e do próprio presidente Fernando Henrique Cardoso. Agora está sob investigação, sob o pretexto que cobra taxa de 3% da verba destinada pelo Incra (Instituto de Colonização e Reforma Agfrária) aos colonos que vivem nos assentamentos onde tremulam as bandeiras do MST.

Para os dirigentes dos sem-terra, tudo continua na mesma. O governo federal é moroso em sua política de promover a reforma agrária, faz o jogo dos grandes grupos econômicos e dos latifundiários, segue a cartilha do FMI e está comprometido com o processo de globalização, entregando as riquezas nacionais a grupos estrangeiros.

Para se contrapor a esse cenário, julga o MST, a saída é promover ações “pacíficas e espetaculares”, como ocupar terras improdutivas e forçar a intervenção do Incra nessas situações, em que há risco de violência oficial ou não. Outra medida julgada eficaz pelo movimento dos sem-terra é ocupar prédios de repartições públicas, na maioria localizadas em grandes centros, tornando visíveis suas reivindicações para a população das cidades e para os veículos de imprensa.

“Não há nenhuma novidade em nossas ações. Sempre ocupamos terras, fizemos acampamentos, caminhadas, passeatas e ocupações de prédios públicos”, diz Gilmar Ciburski, um dos dirigentes do MST regional. Para ele, a novidade é a postura de enfrentamento do governo federal, levando, para o terreno policial e jurídico, um tema que é político e de repercussão social. Mas, pelo pacote de medidas anunciadas nas últimas semanas no Palácio do Planalto, tais iniciativas não serão mais permitidas. As ações, promete o governo, vão resultar em enquadramento na Lei de Segurança Nacional, processo e cadeia a seus patrocinadores.

Processo e cadeia, entretanto, são palavras que não assustam e nem intimidam os integrantes do MST. Ao longo dos 15 anos de existência do movimento, elas foram brandidas sobre a cabeça de seus dirigentes e militantes, acompanhadas, às vezes, de violência física e morte. São dezenas de casos que engrossam as estatísticas macabras da luta pela reforma agrária no Brasil.

O lado mais fraco, o dos colonos, sempre contribuiu como vítima. O caso de maior repercussão ocorreu em Eldorado de Carajás, no estado do Pará. Lá, em 1996, dezenas de colonos ligados ao MST foram assassinados por soldados da Polícia Militar. A última vítima da luta pela terra ocorreu durante os festejos dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. O sem-terra Antônio Pereira foi morto pela polícia de choque do estado do Paraná, quando tentava chegar a Curitiba com outros integrantes do movimento para protestar contra as comemorações oficiais.

“O governo federal quer desviar a atenção da opinião pública dos graves problemas do país e usa o MST para isso. Mas enquanto não resolver o problema da terra, não se livrará de nós”, garante Ciburski.

No plano estadual, desde que o PT assumiu o governo as relações com o MST foram estreitadas. O governo Olívio Dutra tem um plano ambicioso de assentar dez mil famílias de colonos sem terra até o final do mandato e, embora o programa não se desenvolva com a rapidez desejada pelas partes envolvidas, o movimento tem sido paciente com o governo petista. Há, no estado, segundo registro do MST, 1.930 famílias acampadas em cinco localidades (Tupanciretã, Pantano Grande, Giruá, Lagoa Vermelha e Piratini). Nos 180 assentamentos existentes em solo gaúcho, há cerca de 8.500 famílias, das quais 7.500 vinculadas ao MST.

Os principais dirigentes do movimento, por isso, não temem que ele seja visto como uma organização do mal, desestabilizadora da ordem pública e agente de uma revolução comunista, como acusa o governo federal.

João Pedro Stédile, o líder mais conhecido dos sem-terra e alvo preferido do governo FHC, afirma que o movimento tem o apoio da maioria da população do país. Segundo ele, o MST não vai baixar a guarda. “O governo não tem outra saída a não ser nos ter como interlocutor”, argumenta. Outro dirigente nacional, Gilmar Mauro, considera que a opinião pública está do lado dos sem-terra. “Isso pode ser facilmente percebido no contato que nossa gente tem com as populações das cidades onde atuamos”, afirma.

Mário Liu, dirigente do MST gaúcho, admite que o cerco que o governo federal e os órgãos da grande imprensa fizeram ao movimento trouxe prejuízo à causa da reforma agrária, mas que não vai durar muito tempo. “O governo federal está sempre buscando culpados para explicar sua incompetência. Em anos anteriores, foram os petroleiros, depois os caminhoneiros e agora os agricultores. Como solução para as questões que lhe são levadas, ele acena com a polícia e a repressão. São quase as mesmas medidas tomadas no tempo do Império, para reprimir o movimento abolicionista, de libertação dos escravos” afirma Mário Liu.

Ele explica que a estratégia do MST é costurar alianças com outras organizações do campo e “com os trabalhadores em geral”. Mário Liu considera que o grande desafio dessas entidades é descobrir uma forma de fazer reivindicações conjuntas, de adotar uma agenda de luta comum. “Afinal, o inimigo é o mesmo. É o governo Fernando Henrique”, resume. Liu acha legítimo que a sociedade seja transformada por meio de instrumentos democráticos, como as eleições, ou de pressão, como as ações do MST e de outros grupos sociais. (HB)

 

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