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Nº 042 | Ano 5|Jun 2000
EDUCAÇÃO
EDUCAÇÃO

Velocidade Alucinante

Ricardo Pont

Novas tecnologias obrigam professores a atualizar conhecimentos e a enxergar na máquina um aliado na busca por informações

Se os salários permanecem achatados, o ofício de educar, em época de globalização,

surpreende os professores a cada nova turma que assumem. Em velocidade alucinante, as tecnologias digitais obrigam a escola do novo milênio a enfrentar o maior dos desafios desde que lhe foi delegada a missão de educar: adestrar a informática, que ao longo da última década, conquistou adeptos de peso entre as cabeças que formam os educadores. Em pelo menos duas escolas da rede particular, em Porto Alegre, experiências que lançam mão dos computadores para resgatar a atenção dos alunos começam a mudar o cotidiano das salas de aula.

“A sociedade está em mudança, a vida é um conjunto de relações, mas a escola continua abrindo e fechando as portas entre um período de Geografia e outro de Matemática”, critica a professora do Instituto de Psicologia da Ufrgs, Léa Fagundes, que coordena um programa nacional de educação à distância financiado pelo CNPq. “Hipermídia pressupõe interdisciplinaridade”, adverte, lançando mão de um vocabulário que tem se tornado obrigatório para qualquer tipo de professor.

Aluna do Sevigné: dinâmica

Foto: René Cabrales

Foto: René Cabrales

Aluna do Sevigné: dinâmica

Giz e quadro negro, porém, continuam no cardápio das escolas brasileiras, que na sua maioria, privilegiam o ensino seriado e os turnos divididos em períodos demarcados pelo grito de sirenes. A idéia, ao que parece, segue sendo a de preservar as verdades de uma geração, para que sejam retransmitidas à que vier em seguida. Mas as faculdades de Pedagogia seguem formando analfabetos digitais que, na melhor das hipóteses, chegam a autodidatas. Na maior universidade pública gaúcha, a disciplina O Computador na Educação, com carga horária de 45 horas, não é obrigatória para os formandos.

O currículo não esconde a defasagem entre alunos e professores. E a formação mantém base conservadora, mesmo que leve selo de libertária e pregue a cartilha de Paulo Freire. “A formação disciplinar que o professor recebe na universidade faz com que ele assuma um papel restritor e não ajude o aluno a sair da posição passiva em sala de aula”, admite a professora da Faculdade de Pedagogia da Ufrgs, Rosane Aragon.

É que o computador, salienta Léa Fagundes, difere de outras inovações ao expandir as capacidades cognitivas – e não os poderes físicos – dos que o utilizam. Ou seja, aprender a partir do computador tornou-se mais fácil e muito mais rápido. E, ao conquistar a comunidade escolar, a informática forçará o professor – segundo Léa – a vencer a defasagem acumulada e a exercitar a humildade ao assumir, diante da classe inteira, que não sabe mover o mouse tão bem quanto o próprio aluno.

Estudante no laboratório de Informática do Colégio Farroupilha: fácil e rápido

Foto: René Cabrales

Estudante no laboratório de Informática do Colégio Farroupilha: fácil e rápido

Foto: René Cabrales

“Muitos têm até medo de serem substituídos pela máquina”, garante a professora da Pós-Graduação em Informática na Educação da Ufrgs, Patrícia Behar. Ela explica que, ao questionar a hierarquia entre professor e aluno, o uso do computador traz de volta a motivação, o interesse e o respeito em sala de aula. Conforme Patrícia, experiências em projetos-piloto comprovam que o emprego da informática em atividades coletivas enterra a noção de que ela só serve para isolar ou alienar.

Os projetos favorecem a ambos os lados: quando se descobre parceiro do aluno no uso criterioso da informática, o professor fortalece a auto-estima e o domínio de classe, mesmo sem dominar o teclado. E o aluno, que desde cedo convive com a máquina, serve de guia ao mestre e aprende a entender o que lhe será cobrado. “Qualquer autoridade, para que seja positiva, tem de ser atribuída; os alunos só respeitam quem lhes quer bem”, adverte Léa. Ana Paula de Couto e Athena Guimarães, 12 anos, colegas na 7ª série do Colégio Sévigné, concordam: “O desinteresse é maior em aula de professor que sabe tudo e não admite opinião contrária”, afirmam.

A mudança de paradigmas exige, porém, que o educador se dedique à experiência e utilize os recursos disponíveis de maneira crítica e inteligente. De nada vale pedir ao aluno que use o computador para passar redações a limpo, enfeitar folhas de rosto ou trabalhar com ferramentas prontas, que geralmente reproduzem a lógica de ensino cartesiana, de respostas únicas e comportamentos definidos. “O laboratório de informática existe para motivar novas abordagens de conteúdo; não é uma sala de televisão de luxo, nem deve servir, na escola, para que os alunos aprendam as técnicas para lidar com aplicativos ou ferramentas”, adianta o psicólogo Daniel Lopes, que assessora o Laboratório de Informática Educacional do Colégio Sévigné, em Porto Alegre.

Escolas da rede particular tampouco levarão vantagem, frente à concorrência, se montarem laboratórios de alta tecnologia e não souberem preparar o corpo docente para que estimule a autocrítica da turma. É preciso, sobretudo, que o professor acompanhe a classe, permaneça com ela no laboratório e avalie o trabalho que foi desenvolvido. “Só as experiências perturbadoras conseguem levar um professor de formação disciplinar a deixar a ‘aulinha pronta’ de lado e a ensinar de uma outra maneira”, conclui a educadora Rosane Aragon.

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