Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 043| Ano 5| Jul 2000
NEI LISBOA

Por que Van Gogh cortou a orelha em Paris

Nei Lisboa

Escrevo de Roma, quase ao final desta pequena tour européia, bastante animado pela beleza da cidade e pelo bom tempo que se abriu desde que aqui cheguei. Vinha de uns dias em Londres debaixo de frio e chuva, sem falar no calor humano, que sobra na Itália, e na Inglaterra ainda não inventaram.

Também dei sorte com o hotel na chegada, uma suíte com cama enorme, uma benção depois de duas noites em cabines de trem, e uma raridade na Europa, acredito, pelo menos por US$ 60 a diária. Em Paris, entendi por que o Van Gogh cortou uma orelha, certamente hospedado num cubículo como o meu. Com as duas, era difícil se movimentar lá dentro.

Enfim, era Paris, e em Paris o hotel serve mesmo é para trocar o band-aid das bolhas nos pés e seguir batendo perna por uma cidade onde, nessa época do ano, às onze da noite não é noite, é dia. A beleza da arquitetura, dos boulevards, dos cafés, dos monumentos, é realmente um colírio para os olhos, como de resto o é nas outras cidades européias por onde passei. E Paris ficou ainda mais linda no domingo em que o Guga tornou-se número um do mundo, maravilhosa e merecidamente. Eu bem que avisei, Valéria e Flávio, sou ou não sou um bom profeta esportivo? Vou cobrar aquele caderno especial quando cobrir o tricampeonato em Wimbledon para o Extra Classe dominical.

Mas o tênis aqui anda um pouco abafado por conta da Eurocopa, assunto que acompanhei de perto em um domingo maravilhoso de Amsterdã, torcedores de todos os lugares, muita festa e muita música numa praça ensandecida da cidade das bicicletas, e onde o inglês é língua corrente, tornando tudo mais fácil. Já de Londres, veja só, sai-se com a certeza de que a língua nativa é o holandês. Sem querer ser rançoso com os ingleses, a minha passagem por lá foi muito cara e pouco compensadora. Não posso me despedir sem uma notinha sobre o drama do Ricardo Carle, que começou na exata manhã em que embarquei, e que já soube ter estado a cidade devidamente consternada e solidária. Sou um dos suspeitos para falar sobre o jornalista, o escritor, a pessoa, porque o tenho na conta dos melhores amigos, como tanta outra gente também o tem. Mas desconfio, agora que as notícias sobre a recuperação dele são as melhores, que na verdade tudo foi uma desculpa para merecidas férias e para pegar uma carona nessa minha viagem. Pelo menos em pensamento, bebemos todos os bons vinhos juntos, e dele recebi as melhores dicas sobre a viela a dobrar à direita ou à esquerda, em Paris ou em Roma. Não aceito menos do que chegar aí vendo o Ricardo sorrir sobre o que já passou, e pra ele vai o meu maior abraço.

 

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