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Nº 043| Ano 5| Jul 2000
ELISA LUCINDA

Universo, teu nome é padaria

Elisa Lucinda

Outra vez sete de setembro. E o dias passavam iguais na adolescência de Serpentina. Era absolutamente apaixonada pelas coisas novas. Tanto o novo de novidade quanto o novo que intervinha na ordem de igualdade das fileiras dos dias. Aquele quartel de hora cheio de colégio de irmãs, dogmas dos pecados dos cotidianos. Goiabeiras vermelhamente semelhantes.

Amou portanto um líquido novo preto amarronzado que lhe escorria das garrafas goela adentro, infância afora: Pepsi-Cola, Tv e Pepsi. Quanta delícia contemporânea! Mas neste sete de setembro o novo era morte. Nem a morte exatamente, mas a cena. O cenário. Serpentina gostava especialmente do que mudava. Do que vorazmente se intrometesse num modo habitual de transformando-o em.

Serpentina: expressivos olhos enormes naquele magro corpo se metamorfoseando para peitos e quadris de moça. E a avó morria-lhe ali. Naquele feriado cívico. Morava na casa, mãe da mãe. Tinha função de poder e repressão mas fazia cozidos como ninguém. Morria e a neta observava com excitação, quase alegria, a troca da mesa de centro pelo caixão, das jarras pelos castiçais funéreos, do sorriso materno pelo desespero. Sentia tudo: o cheiro de café para amargar de propósito a boca, a euforia dos vizinhos pelo luto acumulado, ai como era nova aquela manhã ensolarada para Serpentina!

Naquela época, o pai num furor edipiano e no perigo de vê-la crescer, exercia-lhe a tirania de não deixá-la sair. Ser moça. Do mundo. Nem para ir à venda do Seu Zé Carolino. Pois que ninguém como Serpentina para subverter a ordem: ia pela manhã comprar farinha, voltava tarde sem a farinha e sem o troco. Por cima dos farelos, mentiras mandiocantes. Neste dia de sentimento, o poder atordoou-se, e num descuido como ela parecia a mais tranqüila dos netos, ouviu apenas a voz rouca do pai: – “Serpentina, vá comprar pão.” Tal ordem entrou-lhe no peito como luz de sol primeira depois de enchente. – “Sim, papai.” Saiu-lhe quase muda essa obediência querida, prazeirosa. Não era o cumprimento de uma ordem. Era um desejo! Um enorme desejo que a faria correr ao quarto, vestir o tubinho listrado de cenoura e branco, onde a mão da mãe, num de seus últimos cursinhos de pintura, pintara margaridas brancas, com folhas verdes assanhadas, que nem primavera de gente nova. Lá estava , virgem ainda, o bendito tubinho. Primeiro depositou-o sobre a cama como se fosse mirra.

Depois vestiu com graça e calor um soutien cor de rosa mocinha, cuja alça deixaria cair sem querer e aparecer suntuosa ao lado da manga cavada do vestido… só pra que as amigas notassem: tinha crescido; lá estavam eles, redondos e gulosos a furar a popelina da vaidade. Cresciam. Coisa contínua. Quase progresso. E agora, as amigas. Sim! Porque antes do pão visitaria as amigas. Lacrimejaria os olhos para dar a notícia da morte da avó. Depois o pão. Tinha no entanto, uma certa culpa da ausência de dor formal, falta de escândalos e lágrimas. Então tentava concentrar-se nisto. Mas tudo era tão novo, o fato, trazia-lhe tanta inquietude sapeca que não havia jeito de face e de alma aonde pudesse morar a dor. Estava feliz. Nem o almoço seria o meio dia em ponto. O enterro seria às 16 horas. E até então era a defunta quem fazia almoço. Pensou no cozido; quase chorou.

Tubinho já no corpo. O espelho mostrava-lhe linda. Só que a porta onde era o espelho não parava nunca de mover-se. Parecia variar-se ao soluço da mãe na sala. Coitada, como deve ser ruim enterrar a mãe. A gente deve se sentir sem mundo quase. Olhou para o fantasma dos vestidos da morta no cabide. Teve medo de si. De sua vaidade. Remorso de sua alegria. Arrependimento de sua beleza. Sabia que o juízo final não ia lhe ser fácil. Moleza luciferiana do espelho e foi em busca do pão com as moedas lacradas em punho como quem parte: Universo, teu nome é padaria! Descia as ladeiras quase saltitante. O sol de setembro dourava-lhe o moreno negro da pele nova das pernas raspadas sem a mãe saber. Chorou nos ombros das amigas íntimas e das colegas menos íntimas nos quais chorou mais ainda. Os sinos anunciam agora. Tocam dobrando tudo: Meio-dia. O bairro chora. A avó era escorpiana beata militante. Guerrilheira de Deus. Seguia à frente na procissão com sua fita de Congregação Mariano. Azul. Azuleza, de lembrança. A igreja anuncia. O sino fecha o parêntese de Serpentina. Volta para casa com pães amassados nas mãos.

Há velório na sala. Os olhos rendidos do pai feroz e sábio. O desespero acalmado, sedado da mãe. A tristeza órfã dos irmãos. A cor lutuosa dos vizinhos. As conversas rezadas baixinho. Tudo era igualmente novo. E parado. Os pães, só os pães quentinhos do sovaco de Serpentina. Depositou-os sobre a mesa, mas a vida havia morrido, parado. A família pontuou bem pontuada sua história ali, ali. A avó era morrida no meio da sala. E os olhos de Serpentina estão sorrindo nesse tentador parágrafo. E que era sete de setembro… mas ela não marcharia.

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