Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 044 | Ano 5| Agost 2000
EDUCAÇÃO
EDUCAÇÃO

Qual é o sexo das letras?

Jacira Cabral da Silveira

panico de escrever 1

Fotos:René Cabrales

Iletrados, ininteligíveis, engessados e midiáticos são alguns dos adjetivos que qualificam os textos produzidos na atualidade. Entretanto, Ana Maria Netto Machado, psicanalista que desenvolveu pesquisas de mestrado e doutorado sobre o tema, não encara que estejamos vivendo numa cultura que abandonou a escrita, uma tecnologia que está na base de todas as outras, conforme avalia a pesquisadora. Segundo ela, se existe precariedade e pânico na hora de escrever é porque na escola aprende-se alguma coisa parecida com o escrever, nada criativo e muita cópia. Essa constatação levou Ana a criar o Laboratório de Escrita, onde trabalha a autoria no ato de escrever.

A um simples convite, quatro adolescentes em frente à sua escola aceitam falar sobre o texto escolar, o pânico de escrever e a utilidade de saber escrever. Logo de começo são unânimes em afirmar que os assuntos propostos pelos professores são desinteressantes e muitas vezes não sabem o suficiente para preencher o número “x” de linhas exigidas. Juliana, uma garota de 16 anos e que está no segundo ano, diz que nessas horas o remédio é enrolar e escrever o que o professor pede.

Rodrigo, de 15 anos é aluno do primeiro ano, confessa ficar apavorado em ter que cumprir a tarefa. Para ele, é sempre confuso compreender o que a professora quer dizer quando comenta que sua redação não dá para entender ou tem problemas de estrutura. “Só que ela não explica o que isso quer dizer!”, desabafa o estudante.

Esse desconforto estende-se ao desafio que representa a redação do vestibular: “se agora não sei fazer o que a professora está querendo, quando for para o vestibular não vou saber o que estou errando”. Sempre ansioso em falar, Rodrigo gagueja suas impressões numa avalanche e lamenta: “a gente tem uma idéia boa e não pode botar no papel”. Ele critica a atitude do professor que estimula os alunos a escreverem o que pensam, mas que considera erradas as opiniões quando emitidas.

O pânico na hora de escrever vem da escola, onde se ensina muita cópia e pouca criatividade

Quanto ao texto usado nos bate-papos da Internet, Juliana é a única que demonstra alguma familiaridade. Depois de citar alguns exemplos como tb para dizer tudo bem, blz no lugar de beleza, ela comenta que num papo desses, tanto como na redação da escola, o ato de escrever pode ser perigoso e comprometedor. Ela conta que, logo no início de suas incursões nas salas de conversa, quando escreveu sem qualquer preocupação de censura, foi mal interpretada e até chamada de vagabunda. Indignada, disse ser impossível alguém falar isso dela sem ao menos conhecê-la. Mesmo assim, afirma gostar muito dos papos virtuais onde vai para se divertir, enquanto, na escola, “a gente vai para aprender”.

Ana Maria Netto Machado quer, ao publicar o texto “O sexo das letras”, destinado aos participantes do 1° Laboratório de Escrita do estado – existem experiências semelhantes em Campinas/SP – justamente resgatar a ludicidade do ato de escrever que, assim como o sexo, pode representar momentos de prazer.

Ao analisar comentários como os de Juliana e Rodrigo que dizem tentar ludibriar ou compreender o que a professora quer, Ana Maria fala da moral escolar identificável nestes depoimentos. Segundo ela, há, na escola, uma série de mensagens contraditórias e enlouquecedoras e que têm como conseqüência o “aprendizado da tapeação”. Ela dá como exemplo a questão da cópia. Comenta que nas séries iniciais a criança aprende que fazer pesquisa é copiar, quando chega no segundo grau o aluno deve escrever com as suas palavras e, na pós-graduação, deve voltar às citações. Mas, para Ana Maria, quando o propósito é construir conhecimento, escrever não é uma questão de copiar ou criar, e sim de exercitar os dois. E de um exercício volumoso, diz a psicanalista. Afinal “não tens como aprimorar uma página em branco”, argumenta.

A escola, para ela, deveria incentivar o aluno a preencher muitas páginas de onde virão articulações interessantes e uma série de associações possíveis. Embora não proponha o espontaneísmos, Ana Maria acredita que se a criança pudesse escrever mais na escola, sem a preocupação com o erro, a poderia chegar à auto-correção mais naturalmente. “Não podemos escrever corretamente se não escrevemos bastante”, alerta.

Outro mito que Ana Maria aponta no trabalho escolar de produção de texto é a questão do conteúdo. Segundo ela, a cultura escolar tem como uma de suas verdades o indispensável acúmulo de informações que o aluno precisa para abordar o assunto proposto na redação. Lembrando um dos fatos que a motivaram a criar o Laboratório de Escrita, Ana Maria contesta o dito escolar. Por várias vezes, quando escutava seus pacientes, tinha a impressão de que estava lendo um romance, por existirem momentos estéticos belíssimos nas falas das pessoas. Neste sentido, ela afirma que há uma via direta do cérebro à mão, que dispensa passar pela oralidade, pois a escrita serve para descobrir como pensamos, para descobrir coisas novas. “É uma pescaria no mar interior”, conclui Ana Maria.

Desde os primórdios da humanindade…

Essa expressão é uma das mais freqüentes nas redações do vestibular da UFRGS. Quem afirma é a professora com formação em Letras e Jornalismo e doutora em Educação, Rosa Maria Bueno Fischer, que há nove anos integra a comissão de correção de redações da UFRGS, tendo corrigido cerca de cinco mil textos, como revisora e coordenadora de equipe. Para ela, essa incidência deve-se à idéia generalizada de que qualquer tema a ser abordado em uma redação precisa retornar “aos primórdios da humanidade”. Segundo a professora, os candidatos dominam cada vez mais uma estrutura padronizada de texto. “Entretanto, quanto ao conteúdo, não se pode dizer o mesmo”, avalia Rosa Fischer. Ela exemplifica como o uso mecânico de tais regras nem sempre dá certo: é comum as redações concluírem a partir do elemento de ligação portanto, “mas na verdade não estão concluindo nada”, diz a especialista.
Por outro lado, a professora reconhece que essa “gurizada” tem muita noção do que o interlocutor quer, daí produzirem textos politicamente corretos. Tal aprendizado não se restringe ao ambiente escolar. Conforme as constatações de Rosa Fischer, as redações demonstram o quanto o jovem aprende o que circula na mídia e o que pode ser dito em nossa sociedade. Eles pensam o que aparece na mídia.

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