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Nº 045 | Ano 5 | Set 2000
MOVIMENTO

CNBB chama plebiscito sobre dívida externa

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Foto: C.S.

Foto: C.S.

Como parte da política do Jubileu 2000, o próprio Papa João Paulo II, engrossa o coro dos que pedem o perdão da dívida externa para os países do Terceiro Mundo, entre eles, o Brasil. E, é justamente baseado neste antigo preceito judaico, ressuscitado pelos católicos, de, a cada dois mil anos, perdoar as dívidas, que a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) capitaneia, neste início de setembro, o Plebiscito Nacional da Dívida Externa , com o endosso do Vaticano, é claro. O apoio vem da UNE, Federação dos Metalúrgicos, MST, magistrados da justiça do trabalho, partidos políticos, além de diversas federações, confederações e sindicatos ligados aos movimentos populares. “Queremos saber o que o povo brasileiro pensa sobre este pagamento exorbitante dos juros desta dívida, a qual sequer sabemos a origem e que mecanismo faz com que ela cresça vertiginosamente”, diz o presidente nacional da CNBB, Dom Jaime Chemello. Embora o plebiscito seja realizado na Semana da Pátria, de 02 a 07 de setembro, menos de um mês antes das eleições municipais, ele garante que a intenção não é política e sim religiosa. O bispo considera absurdo o fato de, em 1994, o país estar devendo US$ 148 bilhões, sendo que, nos últimos quatro anos, foram pagos US$ 126 bilhões (equivalente a R$ 226,8 bilhões de reais) e mesmo assim a dívida ter subido para os atuais US$ 238,9 bilhões.

As explicações são várias. Muitos dos empréstimos foram feitos para pagar os custos da própria dívida, além disso, a balança comercial apresentou déficits consecutivos, ou seja, importou-se mais do que se exportou, e muito pouco do dinheiro que entrou no País foi para investimentos no setor produtivo. No ano passado, 64% do orçamento da união foi destinado ao acerto dos juros das dívidas interna e externa. As duas estão totalmente relacionadas pois a primeira aumenta em conseqüência da segunda. Só com a desvaloriza ção do Real, os custos com a amortização excederam em US$ 36 bilhões o gasto que estava previsto em US$ 90 bilhões. Mesmo assim, o Palácio do Planalto não quer nem tocar no assunto. Procurada por nossa reportagem, a assessoria do Ministro do Planejamento, Pedro Malan, afirma que o tema não está na pauta e que o ministério não tem interesse em se manifestar sobre o assunto. Porém, em entrevista recente, o próprio ministro deixou escapar que existe um confronto entre forças políticas divergentes no que se refere à questão e sugere um pacto em defesa da economia. Para ele, a política que defende segue preceitos universais e o simples fato de ventilar notícias no Exterior sobre correntes políticas (referindo-se principalmente a setores ligados ao PT e PDT) que questionem o pagamento da dívida, já serviria para criar um clima de desconfiança em relação ao País junto ao capital internacional. “Esta discussão pertence ao passado, talvez há quinze anos isso tivesse sentido, mas agora este plebiscito é totalmente fora de propósito, é uma baboseira, presta um desserviço ao país. Um calote agora está fora de questão”, declarou publicamente o ministro durante uma visita ao Rio de Janeiro.

“Não interessa o que o governo pensa”, diz D. Jaime, “queremos saber o que realmente devemos e se devemos. Uma investigação minuciosa pode dizer até que esta dívida já está paga. E aí?”.

O presidente da CNBB alega que não se trata de defender o calote, mas de esclarecer a população sobre o tema para que possa tomar partido e completa: “Queremos pagar, mas com justiça, dentro do que consideramos correto e moral. O que não podemos é continuar enviando dinheiro que nos custa educação, saúde e vidas humanas. Se o próprio Fernando Henrique, há pouco, perdoou países pobres que deviam ao Brasil, por que nossos credores não podem fazer o mesmo?”

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