Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 046 | Ano 5 | Out 2000
ENTREVISTA | BARBOSA LESSA

De patrão a patrono

Barbosa Lessa

Integrante da primeira patronagem do CTG 35, há quase 50 anos, o tradicionalista é o principal homenageado da Feira do Livro 2000

Extra Classe – O senhor está escrevendo um livro sobre Garibaldi?

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Foto:René Cabrales

Apesar de eu ter 62 obras publicadas, não se lembram muito de mim…Quem fala sobre coisas do Rio Grande do Sul é grosso com raríssimas exceções como Ciro Martins e Simões Lopes Neto, que levou um século para ser reconhecido

Foto:René Cabrales

Barbosa Lessa – Não. É um livro, uma história, que eu publiquei em 1964. Já se vão 36 anos. Era publicado não como história em quadrinhos, que era em tiras, mas na vertical em coluna, duas colunas, tipo desenho e legenda. Eu escrevia para a cadeia Última Hora no Brasil. Então eu escrevi várias histórias, Garibaldi, Manoela, a Marquesa de Santos, Xica da Silva, Jacobina, que despertaram interesse, agora, para a publicação como livro de Garibaldi e Manoela, sendo Garibaldi com o título Garibaldi Farroupilha pela Editora Alcance.

EC – Quem fazia esses desenhos?

BL – Rodolfo Zalla, que é o autor dessa história, José del Bó. O Manuel Victor Filho e o Luiz Seidenberg, com n. Os desenhos serão os originais. A minha biblioteca está um caos. Livros ainda encontro com relativa facilidade porque estão por ordem na prateleira, agora, coisas como esse material de história em quadrinhos, de 30 e tantos anos atrás, é uma luta para reaver os clichês. Em algumas dessas histórias faltam clichês, então ou eu continuo procurando, indefinidamente, ou adapto o texto à falta dos clichês de uma cena para outra.

EC – O senhor não pensou na idéia de novos desenhos?

BL – Não, os desenhistas, fora de dúvida, eram de primeiríssima classe, classe internacional. Então não tenho facilidade para encontrar novos nomes. É que, por exemplo, competir com os quadrinhos do Correio da Manhã, como Brick Bradford (mostra um jornal com a publicação original de Garibaldi), não era para qualquer um. Essa classe de desenhos não se encontra mais.

EC – Quando será lançado esse livro?

BL – Agora, na abertura da Feira do Livro.

ECQuanto tempo o senhor levou para reunir esse material?

BL – Eu nem procuraria mais, mas o editor foi até Camaquã, até o meu sítio, e ele mesmo procurou. Quando tinha dúvida, pedia para que eu eslarecesse. Então o trabalho foi do Rossyr Berny, o editor, que foi lá catar.

ECComo surgiu o convite para fazer esse livro?

BL – O que houve foi que o Rossyr Berny me pediu para editar uma peça de teatro que eu escrevi com grande sucesso no Rio Grande do Sul que era Não Te Assusta, Zacaria. Eu disse ao Rossyr que era uma peça que valia pela música e pela coreografia. Tirando a música e a coreografia, o texto em si não valeria a pena ler. Nessa oportunidade, para ele não perder a viagem, eu disse: “Tenho umas histórias em quadrinhos que eu acho que seria muito bom”. Ele aceitou olhar. Agora, tem outra história junto com essa do Garibaldi, que é interessante, Jacobina dos Muckers, mas tá faltando muito clichê.

ECO senhor é o patrono da Feira do Livro este ano. Qual é a situação de sua bibliografia em termos de catálogo?

BL – A grande maioria está fora de catálogo.

EC E não há interesse de editoras em republicar essa obra?

BL – Aí é a história da galinha e do ovo. Essas editoras não sabem que eu tenho dezenas de textos dando sopa. Agora, eu também não estou em contato com as editoras. Então a culpa é das editoras, que não me publicam, ou minha, que não aviso às editoras desse material? Hoje, por exemplo, fui fazer uma entrevista com Flávio Alcaraz Gomes e ele disse, dirigindo-se ao público, que o melhor livro de história do Brasil que ele tinha lido era meu, Nova História do Brasil, que dava uma virada na história, como o próprio título. Seria muito pretensioso dizer “nova história” se realmente ele não fosse novo. Mas as editoras atuais e seus editores não sabem que eu tenho esse livro, só o Flávio, que é da minha geração, é que se lembra. Inclusive foi um livro corajoso, que eu publiquei em 1974, e chegava até os governos militares da época. Dava menos importância à descoberta do Brasil, quase 500 anos antes, e mais importância àquela fase que a gente estava enfrentando na área política e militar do País.

ECO senhor não acha que aquele período até hoje está muito mal contado? Não se vê muitos títulos a respeito dos governos militares.

BL – Não estou atualizado nesses livros que versam sobre a área política, mas uma vantagem que tinha meu livro é que eu contava a história nova do Brasil sem tomar partido. Que o leitor tirasse suas conclusões e saísse dando gritos.

EC Dessa sua obra que está fora das livrarias, o que o senhor consideraria fundamental que fosse reeditado?

BL – Olha, em razão da impressionante difusão que tem tido o tradicionalismo no Rio Grande do Sul e em outros estados e mesmo no Exterior, talvez o livro Nativismo, Um Fenômeno Social Gaúcho, onde eu explico como é que nós havíamos começado o movimento e o que pretendíamos. É um livro espontâneo, contando fatos quase como uma reportagem de como havia surgido o movimento tradicionalista.

EC Quando o grupo de vocês, ainda jovem, começou a se dedicar a levantar essas informações sobre o gaúcho, sobre quem seria o gaúcho, nunca pensaram que essa imagem que vocês reconstituíram poderia ser questionada ou que, sem querer, se criasse um mito, uma imagem que não correspondesse realmente à imagem o gaúcho?

BL – Nós éramos rejeitados por Porto Alegre. Porto Alegre não admitia a presença de um ‘grosso do interior’.

EC Paixão Cortes já chegou a dizer que na época era vergonhoso até tomar chimarrão…

BL – Não me lembro do chimarrão, mas andar a gaúcho, aqui… Tem um símbolo esquecido. Era o José, um peão de Bagé, que se atreveu a atravessar a Praça da Alfândega vestido à gaúcha e foi linchado. Apenas isso: linchado. Foi um mártir da tradição completamente esquecido.

ECEssa confusão com a tradição existe até hoje. O presidente Fernando Henrique Cardoso na recente inauguração da fábrica da GM, disse que já havia se “fantasiado” de gaúcho.

BL – É, se “fantasiou” mas não foi linchado. Então já há uma grande mudança de atitude. Nós quando começamos o movimento, tínhamos essa intenção, embora adolescentes, de espalhar a idéia de Porto Alegre para onde fosse necessário, sem brigar com ninguém mas procurando atrair simpatias. Nós tínhamos consciência de que a grande força que impedia nossa aceitação era a cultura norte-americana. Nosso primeiro show, improvisado porque não tínhamos artistas, fomos lá com um trovador e um gaiteiro, foi no Instituto Cultural Norte-Americano tentando atrair a simpatia e o respeito deles pela nossa cultura. E não para ir agredir.

EC – A reação de Porto Alegre ao movimento de vocês não seria a reação da aldeia diante do tradicional, tentando se impor como cidade grande?

BL – Eu custei muito a ter uma explicação. Ela veio uns cinco ou seis anos após iniciarmos o movimento. Foi no livro Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Hollanda, onde ele escrevia claramente que a formação do Brasil se deu a partir de Portugal que tinha de atravessar o Atlântico e chegar ao litoral. As primeiras cidades foram fundadas no litoral: Olinda, Salvador, Rio de Janeiro, São Vicente. Então durante muito tempo quem estava sediado no litoral se considerava representante da civilização européia, gente fina, gente boa e, no que entrava para o interior, era o selvagem. E dizia o Sérgio Buarque, “ainda hoje”, e isso era nos anos 50, “quando se fala em interior, nessas cidades litorâneas, se traduz a palavra por gente não pertencente à civilização”. Tal como na época do povoamento. Daí eu me dei conta, ao chegar em São Paulo, que, sendo São Paulo no interior, assim como Belo Horizonte, em Minas, não havia essa prevenção. Então eu via a Inezita Barroso cantar moda de viola no Teatro Municipal sem nenhum problema e eu, para apresentar a peça Não Te Assusta, Zacaria, aqui em Porto Alegre foi uma luta para conseguir o Theatro São Pedro. Até tive, na época, um deferimento, uma opinião, do departamento de cultura do Estado dizendo: “a peça não tem nenhum mérito artístico ou cultural, no entanto se dê dois dias”. Ou seja, no sentido de “dê dois dias para esses miseráveis aí que vem fazer grossura”.

ECNegrinho do Pastoreio.

BL – Negrinho do Pastoreio foi uma música que eu fiz como primeira tentativa de manter um conjunto musical quando tinha 12 anos, no Ginásio Gonzaga, em Pelotas. Então eu fundei os Minuanos. Tivemos de encerrar meses depois pelo simples fato de não haver repertório. Não havia músicas do Rio Grande do Sul.

Quando formamos o CTG 35 me dediquei a compor, fiz Quero Quero, Carreteiro e Negrinho do Pastoreio e aí Negrinho do Pastoreio ficou. Deve ter umas 30 gravações.
EC – O senhor é de Piratini. Essas composições como Negrinho, Quero Quero, têm raízes na sua infância?

BL – Em parte. Minha mãe tocava piano e tinha o “seu” Anarolino, o Edmundo, que tocava gaita. O Edmundo era do campo mesmo. Eu ouvia, simultaneamente, minha mãe tocando música européia e Edmundo tocando na gaita as nossas músicas, então aquilo deve ter ficado no ouvido.

ECVoltando aos seus livros, que outras obras o senhor acha que mereceriam atenção maior do público?

BL – Vai ser reeditado agora, para a Feira, Rio Grande do Sul: Prazer em Conhecê-lo, pela AGE, e a Mercado Aberto vai reeditar um policial, uma novela policial que se passa em São Paulo, O Crime é um Caso de Marketing.

EC Como o senhor vê a questão do livro atualmente em relação à possibilidade de acesso pelo público?

BL – Nos últimos 12 anos eu estou lá no meu reduto verde, lá no meio do mato, não saberia dizer como é que está hoje a situação. O que eu posso dizer, sem agredir ninguém, sem “dedar” ninguém, é que eu não componho desde 1963, a não ser por alguma músicas esporádicas como Por do Sol no Guaíba e o Hino Tradicionalista, e devo ganhar de direitos autorais de minhas músicas umas 20 vezes mais do que com os direitos autorais de livros. É desestimulante para o autor mas é provavelmente porque não vendam os meus livros, não estou pondo em dúvida a honestidade dos editores.

EC – O senhor continua escrevendo para jornais e trabalhando em livros?

BL – Sim, tem o Extra Classe, a Zero Hora e encomendas de livros como agora, do Senac, sobre a cozinha gaúcha. A Unisinos também lançou um belíssimo álbum sobre as missões com quatro ou cinco autores e a parte do índio encomendou a mim. Então esse tipo de encomenda para livros, não de livaria, mas de distribuição institucional, eu tenho feito continuamente.

EC – E esse tipo de trabalho lhe dá um bom retorno financeiro?

BL – Dá porque é pago na hora, é pago na encomenda, não fico dependendo de eventuais vendas. Agora há pouco acabei mais um desse tipo para a OPP, do Pólo Petroquímico de Triunfo, sobre os alicerces do Sul, sobre nossas correntes étnicas, e um outro sobre o hino e a bandeira do Rio Grande do Sul, A Novela dos Nossos Símbolos. Então praticamente todo o ano eu tenho livros a escrever.

EC – Como o senhor recebeu sua indicação para patrono da Feira do Livro?

BL – Acho que é oportuno me referir à surpresa e à emoção com que recebi o convite para ser patrono da Feira do Livro. Em 1978, eu tinha tido uma grande emoção por saudar, em nome do público, o patrono daquele ano, que era o professor Walter Spalding. Já naquela ocasião, para saudar o patrono, eu entrei em órbita. Então passados 22 anos, eu sou convidado para patrono, daí, imagina, estou muito feliz embora surpreso. Se descobriu que eu sou escritor ou me reconheceram como escritor. Apesar de eu ter 62 obras publicadas, não se lembram muito de mim… É mais ou menos, ainda, a posição aquela a que eu me referi sobre o início do movimento tradicionalista: é grosso. Quem fala sobre coisas do Rio Grande do Sul é grosso com raríssimas exceções como Ciro Martins e Simões Lopes Neto, que levou um século para ser reconhecido.

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