Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 047 | Ano 5| Nov 2000
NEI LISBOA

Verão em Bogotá

Nei Lisboa

hove em Porto Alegre, já dizia uma música do Mutuca. E como chove, como choveu nesse último mês de outubro, há anos não chovia tanto nessa época. O mesmo se disse do frio dos meses de julho e agosto, o que nos faz pensar que o calor do final de ano será também um recorde insuportável. Há que se ter muito boa saúde pra suportar as idas e vindas do tempo por aqui, considerando ainda que a umidade relativa do ar é quase sempre alta, o que acentua as sensações de frio e de calor.

Esses anos atípicos (ou serão eles os verdadeiramente típicos?) ajudam a desfazer o mito saudosista de que não se fazem mais invernos como antigamente, nem verões, nem outonos, nem polainas. Não sigo essa filosofia, vou mais pelas estatísticas, e elas parecem mostrar que, na média, a meteorologia continua a mesma desde os tempos do Comendador Coruja. Mas pactuo com a saudade, é claro, em respeito até, sempre que um taxista mais idoso lança mão da frase, concordo gravemente que não se faz mais nada como antes, e me justifico lembrando a enchente de 1965, no meu primeiro ano de colégio, quando ficamos um mês sem aulas para que as salas servissem de abrigo aos flagelados. É claro que nunca mais haverá uma enchente como aquela, tão claro como jamais voltarei a ter seis anos e descer de um bonde chacoalhando as galochas em frente ao Rio Branco.

Mas ao acordar hoje pela manhã – ou menos que isso, apenas um olho aberto e pouco convicto numa manhã chuvosa de segunda-feira –, dei com as manchetes da guerra no Oriente Médio, da guerrilha e da intervenção norte-americana na Colômbia, e de uma vitória do Internacional por quatro a zero. Uma conjugação um pouco confusa de épocas, dos anos cinqüenta aos setenta, talvez, mas certamente distinta da data impressa no jornal, que não dei bola, erro de revisão, essas coisas acontecem. Fiquei procurando as galochas no armário, a passagem do bonde, o pão e a garrafa de leite ao lado da porta, no corredor do edifício.

Não estavam lá. Pra falar a verdade, nem o edifício estava lá, a porta dava direto para a calçada e, entre a gurizada que seguia para o coleginho aqui da Floresta, divertida com o sujeito boquiaberto a ensopar o pijama, ninguém usava galochas. Voltei ao jornal, então, e à realidade, enfim, de que pelo menos há quatro décadas judeus e palestinos se matam por um pedaço de terra, colombianos se matam entre si por um pedaço de pão, e os norte-americanos ajudam todos a resolver seus conflitos. Muy amigos.

Imagino que o clima de Jerusalém seja oposto ao de Bogotá, um totalmente seco, outro amazonicamente úmido. Numa e noutra cidade, sempre há de se encontrar a figura saudosista a lamentar que não se fazem mais invernos, enchentes e insolações como antigamente. Mas não posso crer que a imensa maioria de seus habitantes já não esteja farta de viver, através de gerações, no pavor da chuva de bombas, de pedras, de balas, na seca da intolerância, da incapacidade de negociar para os seus e com os seus vizinhos uma solução minimamente razoável além da perspectiva de mais quatro décadas de mortandade. Como São Pedro não apita nada nessas questões, é hora de se trocar os pajés das tribos, hora de se ver que o Bill Clinton entende de cachimbos da paz tanto quanto de charutos, e de agradecermos a nós mesmos pelo excelente clima da cidade de Porto Alegre.

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