Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 047 | Ano 5| Nov 2000
CULTURA

Viramundos vão onde o povo está

Ana Esteves

“O teatro instala-se nas ruas e o instante de comunhão entre os atores e a platéia faz ressoar ainda mais vibrante o interior dos inquietos e necessitados seres humanos.” Essa é a química que permeia os espetáculos do Viramundos, um grupo mambembe, de Passo Fundo, que percorre as cidades do interior do Estado levando teatro para pessoas carentes. “Nosso trabalho é para o interior do interior, zonas rurais e periferias, onde as pessoas não têm acesso ao teatro, seja por uma questão de recursos financeiros ou pela distância que os separa dos centros urbanos”, explica o coordenador do grupo Antônio Flávio Nunes.

De acordo com ele a falta de teatros e centros culturais em muitas destas cidades também impossibilita um contato do público com apresentações teatrais. “Muitas destas pessoas nunca assistiram um espetáculo. É por isso que a cultura mambembe vai perdurar”, comemora Nunes. Ele acredita que a proposta de teatro itinerante deveria fazer parte da política cultural dos governos. “Como é que tu vais levar um espetáculo para os 500 municípios do Rio Grande do Sul? É difícil. A única forma é promover estruturas móveis que não fiquem só na capital”, conta.

A peça escolhida para a estréia do grupo foi O Ferreiro e a Morte, uma montagem popular com uma adaptação gauchesca. “É uma história medieval que conta a trajetória do ferreiro Miséria, que aprisiona a morte e causa muitos problemas no céu, na terra e no inferno”, explica Sandro Pasini, ator que interpreta o ferreiro. O público embalado pela música com acordes gaudérios se envolve com o espetáculo, entra no clima e muitas vezes dá alguns palpites. “É uma energia diferente do palco convencional. Durante os espetáculos de rua as pessoas ficam gritando e dizendo o que a gente deve fazer. Muitas vezes elas tem reações inusitadas, mais espontâneas. A idéia é que as pessoas interajam e se identifiquem. Até hoje ninguém disse ‘parem com essa coisa a gente não quer assistir essa porcaria’”, diz Pasini.
Antônio Flávio Nunes explica que a peça foi escolhida por se tratar de uma grande comédia, divertida e alegre que se torna acessível ao público. “Não adianta querer encenar Shakespeare na favela”, diz. Além disso o espetáculo trata de questões muito próximas destas pessoas como exclusão social, a miséria e a morte.

Um dos inconvenientes da vida mambembe é justamente a falta de rotina. “Nós estamos sempre viajando, com pouco tempo para ficar com a família. Não temos final de semana desde agosto deste ano e não teremos tão cedo. Mas trabalhar é a sina da gente e o nosso destino é rodar por aí e levar o espetáculo para o maior número pessoas possível”, revela Pasini. Para ele tem sido gratificante se apresentar para pessoas que nunca viram teatro. “Um brilho nos olhos das pessoas é algo impagável”, revela.

Na estrada deste maio deste ano, o Viramundos já se apresentou para mais de 30 mil pessoas em 16 municípios do Rio Grande do Sul e duas apresentações em São Paulo. Até o final de 2000 o grupo estará se apresentando em outras 70 cidades no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nunes diz que a meta para 2001 é cumprir a agenda de 150 apresentações do Ferreiro em 100 municípios.

O projeto criado em 1998, tem o patrocínio de cinco empresas: Grupo Grazziotin, Comercial Zaffari, Caixa Econômica Federal, RBS TV Passo Fundo e Governo do Estado do Rio Grande do Sul. “O investimento foi de R$ 250 mil”, revela Nunes.

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