Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 048 | Ano 5 | Dez 2000
NEI LISBOA

Cafundó cultural

Nei Lisboa

Não li, não sei o autor nem onde saiu publicado, me informam somente que uma nota dia desses em um jornal de São Paulo definia o Rio Grande do Sul como “caatinga cultural”. Sem querer vestir a roupa de maragato indignado, acho que cabe alguma reflexão sobre o assunto. Em primeiro lugar, pela pouca delicadeza da expressão, me pergunto o que se passa nessas redações de segundos cadernos brasileiros que volta e meia produzem críticas e críticos biliares, gratuitamente espumantes. Não deve ser trabalho fácil ler, escutar e assistir por obrigação profissional o que de melhor e de pior existe no mundo das belas artes e dos horríveis espetáculos. O salário, disso suspeita-se em qualquer caso nesses tempos, pode não ser lá uma maravilha. Mas isso nunca autorizou ninguém, por grande artista ou jornalista que se julgue, a fazer xixi no meio do salão e assinar embaixo com direito a louvores e tapinhas nas costas.

A explicação mais óbvia e corrente é a de que esse estilo ácido e destrutivo de crítica vende jornal, se torna assunto com mais facilidade do que um texto sóbrio e potencialmente monótono. Estaria eu, por exemplo, discutindo e escrevendosobre isso se a referência ao RS fosse “um lapso contínuo na cultura nacional”? Ok, linda explicação para um dono de tablóide, mas no caso dos ditos cadernos dos grandes jornais, onde a crítica gosta de se justificar como erudita e incomplacente, faltou então dizer que o que importa é agradar o chefinho e garantir o emprego. Hmm, lá no meu tempo isso tinha outro nome.

Por outro lado, o estilão paternalista e cauteloso de crítica que muitas vezes se observa aqui na caatinga também não contribui para o andar da carruagem. Acho que o artista, tanto quanto o público, quer ouvir da crítica uma opinião incisiva, sim, embasada e argumentativa, que lhe permita análise, assentimento e discordância, sem a necessidade de ver sublinhada por picardias grosseiras a obviedade de que toda e qualquer crítica carrega o seu componente pessoal, idiossincrático, a voz do mero ouvinte inebriado ou aborrecido, dissociado da sua atuação jornalística, a declarar o que bem lhe sugerir o estômago. Eu, por exemplo, que nem crítico sou, posso muito bem encerrar esse assunto com toda a elegância, sem precisar dizer que caatinga é a mãe de quem chamou.

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