Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 048 | Ano 5 | Dez 2000
ELISA LUCINDA

Pelo cheiro

Elisa Lucinda

– Que perfume é esse que a senhora tá usano?

– É um perfume de ervas e flores que eu mesma preparo.

– E tem aquela flor dama-da-noite, num tem?

– Tem sim Senhor; como que o senhor sabe?

– Ah, eu sinto. Ó, vou dizer u’a coisa pra sinhora: trabalho há 35 anos guiano carro de praça e conheço todo mundo pelo cheiro. Eu conheço mesmo é o perfume. Perfume de pobre, perfume de rico, perfume da semana, que é aquele meio desodorante, lavanda que agüenta o suor da gente. Perfume de fim-de-semana, de amante, o de namorada novinha meninota, o de mulher mal amada, o de home macho, de home corajoso, de home tímido, ih minha filha, bem dizer conheço todo tipo de gente. Porque é aqui no táxi que a gente sabe tudo. É a maior pesquisa, melhor que ibope e essas porcaria toda. Sora vai pra Sampaulo? Num vai? – Vou, como é que o senhor sabe? – É pelo cheiro. É um perfume que eu não conheço mas é de gente que é artista, é moderno e tem sabedoria dos antigos e geralmente essa gente vive entre Rio-Sampaulo ou então no exterior mesmo. É gente que não pára quieta. É do mundo. – O senhor conhece São Paulo? – Sora num vai acreditar mas um dia entrô aqui um home com cheiro esquisito, um cheiro de um perfume forte que é coisa de home que tem amante, porque assim ele apaga o perfume dela na percepção do nariz da esposa, modo de dizer. Ou então home traído que a própria mulher dá um perfume forte pra ele prumode cegar o olfato do pobre. Entrou nervoso mandando eu seguir um táxi. No táxi tinha uma moça que viajava de cabeça baixa o tempo todo. E nóis atráis. O táxi tocou lá pra Rodoviária, lá vamos nós. A moça saltou e comprou passagem. Pegou o ônibus de uma hora da manhã. Ele disse vamos atrás dela que eu pago o dobro da corrida. E lá fomo nóis. O perfume do home parece que aumentava com o nervoso dele; eu abria a janela para sentir o cheiro do caminho que eu tava indo. Não dizia nada nem eu nem ele. Eu só urubuzava pelo retrovisor como quem quer vê a estrada que vai ficando pra trás, mas meu sentido tava no rosto dele, no dilema dele. Quando manheceu nóis tava chegando lá. A mulher mal chegou na rodoviária e foi pegando logo outro taxi. E nóis dois atráis. Foi pr’uma casa. Quando saltou toda decidida mas muito aflita, esse home mandou eu parar e saltou atrás. Topou com ela. Deu dois tapa forte na cara dela, coitada. Pois feito isso, o home entrou no carro e disse: vamos voltar pro Rio que eu não suporto essa tal de Sampaulo. Agora eu pergunto pra senhora: eu posso dizer que conheço Sampaulo? Num posso. Eu lembro mais é do cheiro.

elisalucinda@radnet.com.br

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