Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 048 | Ano 5 | Dez 2000
ENTREVISTA | CARLOS GERBASE
ENTREVISTA

Professor aloprado

Titular da área de cinema na PUC, cinesta e astro de rock, o diretor de Tolerância consegue fazer tudo sem “pirar na batatinha”

Extra Classe – Como você consegue conciliar tantas atividades ao mesmo tempo?

Carlos Gerbase – Bom, eu não faço ao mesmo tempo. Faço uma de cada vez.

EC – Mas como é pra organizar esse tempo na tua cabeça?

Gerbase – Eu organizo na agenda. (risos) Não, falando sério: eu sou um anti-especialista. Certamente tem gente melhor que eu, que faz muito melhor as coisas que eu faço nos diversos planos em que trabalho. Mas eu não consigo me especializar. Na verdade, eu planejava ser jornalista. Comecei na extinta Folha da Tarde. Naquela época, quando eu estava saindo da faculdade de comunicação, o meu projeto de vida era ser jornalista.

EC – Aquela época era o quê?

Gerbase – 1980. O problema é que quando eu comecei a fazer jornalismo, eu descobri que não era nada daquilo… Eu aprendi como é que se faz e vi que, realmente, aquilo ali não era o que eu queria fazer. E na época eu já fazia cinema. Eu comecei a fazer cinema na faculdade com meu amigo Nelson Nadotti, que está no Rio hoje. E eram atividades absolutamente amadoras, nunca pensei em fazer cinema assim, não era um projeto de vida.

EC – Era a fase do super-8…

Gerbase – A fase do super-8. A gente fez um monte de super-8, um atrás do outro, e eu acabei gostando do negócio. Então eu conciliei durante um certo tempo jornalismo com cinema e depois, neste ano, eu saí da Folha da Tarde, pedi as contas e disse que ia pro Coojornal, um veículo alternativo. Só que o Coojornal, exatamente naquela época, soçobrou, acabou e de repente não tinha o que fazer. Daí, coincidentemente, um professor de cinema da PUC, Marcelo Souza, filho do Paulo Renato Souza, atual ministro da Educação, saiu e o Antoninho Gonzales me convidou pra dar aula. Isso eu tendo saído da faculdade seis meses antes, mas fazia super-8. Então como era uma disciplina de prática ficou aquela coisa de “não, Gerbase, você vai lá é pra fazer filme com os alunos”, quer dizer, eu não tinha nenhuma experiência como professor.

EC – Nenhuma experiência didática…

Gerbase – Nenhuma experiência didática, nunca fiz pedagogia, nenhuma cadeira de didática, nada, e de repente eu voltei à PUC como professor. Estou lá até hoje. Então, na verdade, essas atividades todas foram meio que caindo na minha cabeça. E eu acabei gostando de dar aula. Hoje eu dou aulas há quase 20 anos, 19 anos de PUC, estou fazendo pós-graduação porque se eu não fizesse eu provavelmente iria “dançar” porque tem uma procura muito grande por professores com títulos…

EC – A própria lei de educação exige isso…

Gerbase – É, exatamente. O que eu acho uma sacanagem porque eu acho que professor não se faz com título. Acho que título é uma das coisas que deve avaliar se o camarada é bom professor ou não. Tem gente que não tem título e dá aula muito melhor. E tem a indústria da titulação. Eu tive de me curvar e entrar nessa indústria. Estou fazendo mestrado, pretendo fazer doutorado, porque senão eu ia parar de dar aula.

EC – A pergunta é redundante: tu gostas de dar aula?

Gerbase – Eu gosto de dar aula. Eventualmente tem aulas chatas, tem coisas chatas de fazer, mas, na média, é uma atividade interessante. O salário na PUC melhorou, era bastante ruim. Quando eu comecei a dar aula, a Federal pagava muito mais, mas nesses 20 anos ouve aí um retrocesso muito grande da educação pública e a PUC, com altos e baixos, hoje está com um salário razoável que eu acho que vale a pena. Eu sou horista ainda. Eles não fazem contrato por tempo determinado se tu não tens título nenhum. Mas, enfim, fechando o parêntese, comecei a fazer cinema porque tinha um amigo meu que fazia, comecei a dar aula porque me convidaram… Os Replicantes, então, eu queria aprender música, os vagabundos lá, amigos meus, também queriam, começamos a tocar pra aprender, batendo na bateria e daí fizemos umas músicas e aí estamos até hoje tocando.

EC – Músicas que se tornaram clássicos do rock brasileiro recente…

Gerbase – Pois é. Enfim, são coisas que eu gostava de fazer e acabaram tendo algum significado. Claro, não adianta gostar de fazer uma coisa e essa coisa não significar nada pra ti, ou seja, se é uma atividade prazerosa mas que não gera nada. E essas coisas todas acabaram gerando. Os Replicantes geraram disco, geraram shows, até hoje me divirto fazendo shows. Dar aula é bom, é legal, faço filmes. Então são coisas que vão se somando.

 

EC – Essa diversidade profissional não tira o foco de alguma atividade em favor de outra?

Gerbase – Com certeza. Várias pessoas me disseram isso. Mas a questão é a seguinte: por exemplo, cinema. Quando eu estava fazendo Tolerância, eu fiquei um tempo, foram sete semanas, em que eu só fiz cinema. Aí não tem como. Tem momentos na vida em que se faz aquilo e apenas aquilo. Outro exemplo: gravando um disco dos Replicantes. A gente ia pra São Paulo dois meses, pára o resto, dá um jeito, engaveta, enrola e tu acabas te dedicando muito aquilo naquele período. Mas não é um negócio que tem de fazer o tempo, ficar sempre pensando na banda. É ensaiar e se faz dois, três shows seguidos nem precisa ensaio. Então não é uma coisa que tu fiques pirando na batatinha. A não ser uma pessoa que queira isso: “olha, o projeto de vida é minha banda” . Na verdade, eu me concentro e quando estou fazendo uma coisa, estou fazendo só aquilo. Eu não piro com isso, vou fazendo as coisas. Eu faço crítica de cinema pro Terra, é um negócio que me toma pelo menos duas tardes por semana. É uma atividade que volta e meia eu penso “pelo salário que estou ganhando, essa trabalheira toda, será que vale a pena?” Então tem coisas que tu, às vezes, pensa em largar, questiona, mas acaba não largando…

EC – Essa coisa de tu fazeres crítica de cinema, sendo um cineasta, não gera nenhum prurido ético ou algo assim?

Gerbase – Na verdade tem um problema, não na minha cabeça, mas na cabeça de muita gente. Eu separo completamente as coisas. Eu sou jornalista, formado, gosto de cinema, conheço razoavelmente cinema e como se faz cinema. Eu estou habilitado a fazer crítica de cinema tanto quanto muitos outros. Gosto de fazer e escrevo. Isso não tem nada a ver com os filmes que eu faço.

EC – Tu consegues ser crítico com teu próprio trabalho?

Gerbase – Consigo. Sou sempre muito crítico com meu trabalho, só não vou escrever uma crítica sobre meu filme. Mas eu respondo as críticas. Eu estou há mais de dois anos fazendo essas crítica pro Terra e é um trabalho que eu só continuo porque criei um negócio interessante: eu publico a crítica e até uma semana depois, os caras que leram a crítica, e que obviamente viram o filme, podem fazer uma meta crítica, ou seja, podem meter o pau em mim, na minha crítica. E eu respondo. E termina aí. Vai e volta e vai. Mas é legal porque estabelece um diálogo com meus leitores. E daí quando os caras souberam que eu ia fazer um filme, pegaram no meu pé: “Agora tu vais ver, seu filho da mãe. Fica aí falando mal dos filmes de todo mundo, quero ver, quando teu filme estrear, se tu não tens medo…” e tal.

EC – Vamos falar do teu filme então. Foi um projeto que levou muito tempo entre a idéia inicial e a estréia nas telas.

Gerbase – Se contar do início da escritura do roteiro até agora, são cinco anos.

EC – Por que essa demora? No Brasil ainda é aventura fazer cinema?

Gerbase – Pela grana. A gente terminou o primeiro tratamento do roteiro no começo de 1996. Daí se increveu na Lei do Audiovisual, tem toda uma burocracia que tomou seis, sete meses. Em meados da 1996 começou a captação. Isso é quando tu dizes “olha, estamos vendendo”. Só que não significa que tu vais vender. Aí começam os contatos com as empresas e isso foi, foi… Entrou dinheiro daqui, dinheiro dali, a Copesul foi a primeira empresa a botar um dinheiro significativo, apostou no nosso projeto, e até final de 98 nós tínhamos captado, mais ou menos, 60% do dinheiro. Aí teve aquele concurso, RGE e Governo do Estado, veio mais um milhão e aí fechou o orçamento. Então no final de 98, dissemos: “Temos dinheiro pra fazer o filme”. E até o fim. Porque essa é uma diferença: tem muita gente que capta o suficiente pra filmar e diz “depois que eu filmar, dou um jeito, vou atrás de mais dinheiro”. Na Casa de Cinema, estabelecemos uma regra: a gente só trabalha quando tem dinheiro pra ir até o final porque senão é uma angústia terrível. A gente prefere se angustiar na espera maior da captação. Então do final de 98 até maio de 99 foi a pré-produção, daí normal, cinco meses de pré, o que é normal pra um longa. Daí se filou maio, junho e julho, sete semanas, e a finalização foi mais demorada do que a gente pensava porque a gente comprou uma ilha de edição digital e até essa ilha chegar, ser configurada e começar a operar sem problemas, levou um bom tempo. Mas o normal para um longa seria dois anos de produção.

EC – Quando o processo de produção de cinema no Brasil vai ser um processo normal, uma atividade cotidiana?

Gerbase – Acho um pouco romântico isso. Acho que isso não vai acontecer tão cedo, nem sei se algum dia isso vai acontecer. Se tu pensares só no cinema enquanto mercado de cinema, ou seja, vou fazer longas-metragens pra colocar no cinema e ganhar minha vida com isso, considerando as leis que existem hoje, ainda é muito complicado. E quando não tinha essas leis de proteção nem existia filme nenhum. A Casa de Cinema, por exemplo, tem como perspectiva principal fazer filmes mas a gente olha o audiovisual como um todo. Então fazer televisão tem muito a ver com fazer cinema. Publicidade, tem uma regra, não escrita, que a gente não faz publicidade tradicional. Essa publicidade de 30 segundos que vai ao ar normalmente a gente não faz porque é um mercado muito específico, tem de entrar de cabeça e a concorrência é muito grande. Então a gente faz documentários, faz audiovisuais eventualmente, fazemos campanhas políticas mas aí por uma questão ideológica, a gente faz campanhas para o PT, não faz campanha para nenhum outro partido.

EC – Essa questão ideológica, a coisa de fazer campanhas para o PT, não estigmatiza a Casa de Cinema de alguma maneira?

Gerbase– Tem uma postura política, pode prejudicar eventualmente, mas o próprio fato do Tolerância existir, de certo modo, comprova que não é um impeditivo. Porque o Tolerância foi gerado durante o governo Britto. Nós captamos da Copesul que é uma empresa que tem gente de todos os matizes ideológicos lá dentro, tu não podes dizer que é uma empresa de esquerda, certo? O prêmio RGE/Governo do Estado foi gerado no governo Britto e nós entramos lá, havia um concurso, havia jurados, e Tolerância foi um dos projetos escolhidos. Então o próprio fato do filme existir é uma prova de que tu podes ter, claramente, uma postura política mesmo. O Giba (Assis Brasil) é filiado ao PT. O resto não é filiado mas todos se confessam simpatizantes do PT. E críticos do PT. Mas isso não impediu que a gente fizesse nosso filme durante um governo que não era do PT.

EC – Falando em ideologia, talvez cinismo não seja a definição exata, mas o tratamento irônico dado às questões políticas, à questão agrária em Tolerância, tem a ver com essa convivência próxima com a classe política, um pouco uma alfinetada na questão da verdade?

Gerbase – Eu te diria que jamais eu teria feito Tolerância com 20 anos de idade porque com 20 anos de idade a tua noção de verdade é outra, a tua noção de liberdade é outra. E o filme é exatamente sobre isso. O filme trata de como os conceitos mudam na vida da gente, como coisas que a gente acreditava serem absolutamente claras ou normativas, depois de um tempo, tudo isso se relativiza bastante. Tu perdes algumas e ganhas outras coisas. Ganha experiência. Mas eu não acho que Tolerância seja cínico. É um filme triste, isso eu admito. É um filme que constata que as coisas não estão do jeito que a gente gostaria que elas estivessem por “n” razões. Mas é um filme que trata de pessoas cínicas, sem dúvida.

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