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Nº 050 | Ano 6|Abr 2001
MOVIMENTO
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Em SP, uma experiência bem brasileira

Quem nos explica a trajetória da experiência paulista é o jornalista filósofo, teólogo e mestre em comunicação, Arlindo Pereira Dias, que também é presidente da Rede Rua de Comunicação e editor do jornal O Trecheiro.

EC – Como surgiu O Trecheiro?
Arlindo – A proposta faz parte do projeto maior que é a Rede Rua de Comunicação. Na década de 80 um dos criadores do projeto, Alderon Pereira da Costa, participava de um grupo católico, a OAF (Organização de Auxilio Fraterno) que desenvolvia atividades junto à população de rua no centro da cidade. Da presença na rua ele começou a dar-se conta da riqueza cultural e intelectual que havia lá. Com o grupo sentiu necessidade de resgatar de alguma forma a riqueza que havia na rua. Iniciou através da produção de fotos, slides e resgate de poesias. Em 1990 após deixar a OAF, juntou-se a um grupo que desempenhava atividades na rua para a criação da Rede Rua. De uma parceria com a Prefeitura de São Paulo, na gestão do PT, nasceu o CDCM (Centro de Documentação e Comunicação dos Marginalizados) que em 1994 passou a se chamar Rede Rua, já sem a parceria. Do projeto nasceu a idéia de se produzir notícias sobre a população de rua e as instituições que desempenhavam atividades na rua. Inicialmente, de maneira tímida tratava-se de uma folha sulfite com notícias sobre a rua. O projeto foi crescendo, conseguiu apoio da Editora Paulus. Atualmente contamos com uma tiragem de 5 mil exemplares mensais, distribuídos na rua, nas instituições que oferecem serviço aos moradores de rua, em grupos solidários, comunidades e contamos com 400 assinaturas.

EC – Que tipo de participação os moradores de rua tem no projeto?
Arlindo – Participam de maneira indireta através de reportagens, pesquisas sobre temas, elaboração de poesias e textos, distribuição na rua. O objetivo do jornal é documentar o que acontece na rua, com abertura à participação dos moradores de rua. Sem, no entanto, ter no momento a pretensão de que sejam os produtores do jornal.

EC – O que é a Rede Rua e como ela é composta?
Arlindo – Ao longo dos últimos 11 anos a Rede Rua tem desenvolvido atividades junto à população de rua e na grande São Paulo. Em paralelo às atividades de documentação e comunicação, a entidade assumiu o gerenciamento da Casa de Convivência do Brás, de atendimento para alimentação, banho e curativos. Ajudou na gestação e concepção do Cascudas Restaurante e nas diversas atividades da Fraternidade Povo da Rua, que presta serviços a portadores de Aids, Sem terra e população de rua. Atualmente a Rede Rua coordena o projeto “Refeitório Comunitário” conveniado com a prefeitura Municipal. Nos últimos anos a Rede conseguiu construir uma infra-estrutura e aprimorar seus serviços. Conta com duas casas na rua Sampaio Moreira 110 – casas 9 e 12, uma ilha de edição, uma videoteca comunitária e diversos instrumentos comunicacionais como computadores, câmeras, máquinas fotográficas. Organizamos uma Rede de Comunicação e resgate da cultura entre os moradores de rua, entidades que desenvolvem atividades junto à população de rua e poder público através de vídeos, impressos e exposições fotográficas. A Rede Rua conta com um setor de produção e divulgação de vídeos sobre exclusão, uma videoteca comunitária; um arquivo amplo de fotos sobre rua e exclusão; captação de matéria, diagramação e distribuição do jornal.

EC – Como funciona a troca de experiência entre os jornais de diversas partes do mundo? Há essa comunicação?
Arlindo – No ano de 1997 conheci a experiência do jornal “La Farola” ( não faz parte da rede mundial de jornais de rua), na Espanha, através de visita ao projeto. Dessa visita surgiram discussões na Rede Rua no sentido de se começar um projeto similar. Em 1998 recebemos visita do editor do Jornal “Terre de Mezzo” que nos propôs parceria para que “O Trecheiro” adotasse os mesmos moldes dos jornais da Rede, com a promessa inclusive de ajuda econômica. Devido às dificuldades vividas naquele momento, preferimos deixar amadurecer a discussão. Em 2000 um grupo de pessoas do Rio e São Paulo, com a equipe da Rede Rua iniciaram a discussão de criação de uma revista que contemplaria aspectos da rua, porém, não teria linha editorial fechada nos temas da rua. Este grupo está em vias de execução do projeto já em fase final de concepção.

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