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Nº 050 | Ano 6|Abr 2001
CULTURA
CULTURA

Música serve para quê?

Jimi Joe

“O homem que não traz a música em si ou não se comove com a concordância dos doces sons é talhado para traições, estratagemas e espoliações. Os recantos de seu espírito são inertes como a noite e suas maneiras sombrias como Erebus: que tal homem não seja digno de confiança”, anuncia William Shakespeare em O Mercador de Veneza. Menos filosóficos e mais diretos, os contemporâneos do grupo pop Red Hot Chili Peppers alertam: “a música é meu aeroplano”. Veículo de emoções para quem compõe, canal de sublimação para quem ouve, a música está sempre em movimento. Nos tempos atuais de incertezas globalizadas e atitudes políticas às vezes pouco confiáveis, quem está compondo o quê e para quem?

Grande parte da música produzida atualmente não chega aos ouvidos públicos, um pouco dela se exprime em festivais freqüentados por pouca gente afeita aos eventos. Parcela menor ainda chega aos espectadores de concertos promovidos por grandes orquestras. Timidamente inserida no repertório de orquestras sinfônicas de renome como OSPA e Orquestra Sinfônica de São Paulo ou em orquestras universitárias, como as da Ulbra e da Unisinos, a música contemporânea persiste e seus autores buscam maneiras de criar mecanismos para que ela seja mais divulgada. Peças sinfônicas ainda são criadas. Há até festival para que elas sejam mostradas. Não são mais sinfonias extensas como as de Bruckner ou Mahler. Os autores modernos procuram se adaptar às necessidades do público, sobretudo ao pouco tempo de lazer que as pessoas dispõem.
Tiago Flores, diretor artístico da OSPA e regente da Orquestra de Câmara da Ulbra, lembra que nas duas orquestras com as quais está envolvido existe a preocupação em mostrar obras de novos autores. “Sim, há muita música sendo feita atualmente. As pessoas compõem música orquestral, tanto para grandes formações quanto grupos menores.” Flores não acredita nas queixas do compositor Joachim Kollreuter, de que os músicos “não gostam de tocar novas composições”. Nas palavras de Kollreuter, vanguardista de primeira hora, discípulo de Arnold Schönberg, o papa da música dodecafônica e profeta da revolução da “nova música” surgida no início do século XX, os músicos contemporâneos são no mínimo preguiçosos. “Eles preferem tocar as mesmas velhas partituras de sempre, aquele mesmo Brahms, do que enfrentar o desafio de estudar novas peças, especialmente as compostas agora.” Nem Tiago Flores nem o compositor paulista José Carlos Amaral Vieira fazem eco às palavras do autor austríaco instalado no Brasil desde o final dos anos 30 e que serviu de mestre a nomes como Tom Jobim. Mas ambos acabam concordando entre si, embora não se conheçam. “Os músicos da OSPA, por exemplo, tem o maior interesse em tocar novas peças desde que elas sejam obras bem acabadas, com indicações e definições instrumentais precisas”, diz Flores.
Amaral Vieira corrobora essa posição. “É uma questão de suporte. Às vezes, por um radicalismo excessivo, se quer que o músico entenda a música sem haver uma notação precisa, às vezes nem mesmo uma partitura convencional. Às vezes é uma questão de linguagem.” Mas Amaral Vieira também tem suas críticas aos intérpretes que integram as orquestras. “Creio que os músicos entram nas sinfônicas muito imaturos. Nem sempre têm tempo suficiente para aprender. Como música é um aprendizado linear e há um repertório muito grande, especialmente no século XIX, muitos chegam às orquestras sem uma noção forte da música do século XX e de seus novos signos e notação diferenciada. Quanto aos músicos mais idosos, nem se fala. Muitos encaram a música moderna como experimentação que beira até o ridículo.” Presidente da Sociedade Brasileira de Música Contemporânea, braço nacional da International Society for Contemporary Music, sediada na Holanda, Amaral Vieira tem se empenhado em divulgar o trabalho de compositores brasileiros nos festivais promovidos pela entidade em diversos países. Avaliando a produção brasileira, ele diz que “já estivemos no limbo, mas agora a presença brasileira tem crescido. No festival de 1999 tivemos três compositores brasileiros”.
Tiago Flores lembra que a OSPA tem procurado sempre colocar obras de novos compositores em sua programação habitual, em especial nos concertos oficiais da orquestra realizados no Teatro da OSPA a cada 15 dias, nas noites de terça-feira. “É preciso um cuidado na escolha do repertório. Raramente é possível misturar uma obra do período romântico com um autor contemporâneo. Por isso as obras dos autores novos geralmente entram na primeira parte do concerto, há um intervalo e continua-se com obras de autores já consagrados por seu repertório sinfônico.” Amaral Vieira detecta alguns problemas nesta fórmula de concerto. “Já se viu aqui em São Paulo que quando se coloca uma peça moderna na abertura do espetáculo, o público dá um jeito de chegar atrasado. Há uma reação à nova música”, aponta.

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