Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 050 | Ano 6|Abr 2001
L. F. VERÍSSIMO

O MH

Luis Fernando Verissimo

Sempre é bom ouvir o Marciano Hipotético. O homenzinho que desce de uma nave espacial, bate na sua porta, pede para usar o banheiro ou ser levado ao seu líder, e vocês acabam ficando amigos e conversando. O MH conhece a Terra, literalmente, por alto. É bem informado a nosso respeito, só não sabe os detalhes. Preparou-se para sua visita captando as nossas ondas de TV, para aprender os idiomas, e coincidiu que aprendeu português ouvindo uma novela da Globo. Portanto, fala com sotaque baiano.

O melhor de conversar com o Marciano Hipotético é que, desconhecendo os nossos detalhes, ele tem uma visão geral das coisas da Terra e muitas vezes as interpreta ou questiona com o bom senso que nós perdemos. Depois de sobrevoar a Argentina, por exemplo, o MH não consegue entender como um país com aquela geografia, e tão pouca gente, consegue estar em crise econômica e social. Quando ouve que a Argentina não apenas está em crise, como vive em crise há anos, o MH arregala os quatro olhos e sacode a cabeça, incrédulo. A Argentina não faz sentido algum para o MH.

O MH sabe que brasileiro é dado a piadas e comenta que só pode ser piada o que ouviu: que um dos problemas do Brasil é a falta de terra. Tanto que – rá, rá – existiriam milhares de agricultores atrás de terra para cultivar, no Brasil, vivendo na miséria porque não há terra para eles. O MH fica com as antenas em pé, antecipando o fim, que certamente lhe contaremos, da piada, tão tipicamente brasileira. Quando descobre que não é piada, é a nossa incrível realidade, o MH cai em prostração. Que só aumenta quando ele ouve que, ao contrário do que pensava, o futebol profissional não é o negócio mais rentável do país. É mesmo um negócio primitivo, dominado por amadores, que só dá dinheiro para bandidos.

Ó, gente, que planeta, observa o MH.

Finalmente o MH pede para ser levado ao seu líder, o que lhe cria novo embaraço. Quem pode falar com o MH em nome do mundo? O Papa? Obviamente não o Bush! E no Brasil? Quem é que manda no Brasil, afinal? É o que o Éfe Agá também se pergunta. Você acaba sugerindo que o MH esqueça esse negócio de líder e se oferecendo para levá-lo à Patrícia Pillar, para desfazer a má impressão.

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